Episódio 15

1088 Palavras
Nos meus vinte anos de panificação, ninguém chamou os meus doces de "coisas". Aperto os lábios para conter os insultos que quero soltar. Como ousa? — Tenho algumas preparações sem açúcar, caso queira prov… — Guarde isso para você, não me interessa. Ela me interrompe. — Dê-me chá para que eu possa ir ver meu marido. — Sim, senhora. Desta vez mordo a língua enquanto preparo o pedido dela. Eu entrego e ela fica olhando para a xícara com evidente desdém. É descartável, por tudo que é santo! — Obrigado. Ela diz entre dentes. — Foi um prazer, tenha um bom dia. Eu respondo, embora, na verdade, não deseje isso a ela. Quem pode ser casado com uma mulher assim? Não quero nem imaginar como será com o parceiro dela. Mas bem, não é da minha conta. Ao entrar na cozinha, vejo Caroline assando outra fornada de croissants. É uma mulher reservada, fala o mínimo necessário e é prestativa, o que me causa curiosidade. Não parece mais velha, mas também não jovem. — Ontem eu assei em casa, a minha família adorou o bolo de chocolate que fiz. Meu irmão mais novo implorou por uma porção extra. E assim, a vida me devolve à realidade, a minha realidade. É como se tivessem me dado um soco no peito, a dor é tão intensa que quase me afoga. — Seu irmão mais novo? Pergunto, minha voz m*al um sussurro. — Sim, ele gostou tanto que me incentivou a continuar assando porque eu faço muito bem. Diz que as minhas sobremesas alegram a alma, embora eu não ache que seja verdade porque estou apenas começando. No entanto, ele continuou me encorajando, dizendo o quão bem eu me saí e que espera que eu faça mais para ele. — Eu... Não digo nada, simplesmente afasto-me tropeçando em direção ao banheiro. A esta hora estamos sozinhos, então abro um dos cubículos e me tranco. Tapo a boca para que os soluços não sejam ouvidos enquanto lágrimas grossas escorrem pelas minhas bochechas. As lembranças de Renard me invadem: as risadas, os elogios, os bons desejos. Será que um dia vai parar de doer? Tenho que parar de chorar, de me sentir entorpecida, porque não gosto. Mas como se supõe que eu faça isso quando não tenho um descanso? Primeiro meu irmão, depois minha mãe, Conrad. Cada interação na minha vida parece destinada a me machucar, todas menos as que se relacionam com Samuel. Saio do banheiro antes de me iludir mais com um homem que nem me dá a hora. Com tudo o que passei e ainda não aprendo. Lavo o meu rosto e ensaio um sorriso diante do espelho. Sabendo que não há nada que eu possa fazer com os meus olhos lacrimejantes, saio disposta a continuar com o meu dia. Caroline me observa detalhadamente. Noto nos seus olhos que ela quer perguntar, mas fica calada. Às quatro em ponto saio e, em vez de ir para casa, caminho em direção a um lugar que não visito há muito tempo: o cemitério. A cada passo que dou, o peso no meu peito aumenta tanto que sinto que vou ficar sem fôlego. Ao chegar ao túmulo do meu irmão mais novo, caio de joelhos no chão, enquanto observo o seu nome e a mensagem inscritos na lápide. Renard Favre Amado filho e irmão. O corpo, a alma e o coração de uma família que nunca o esquecerá. Quanta razão a minha mãe tinha quando mandou gravar essa frase. A nossa vida não é a mesma desde que o perdemos, e me parte o coração saber que foi por minha culpa. Suponho que mereço tudo o que me aconteceu: mereço a rejeição da minha família, ser o brinquedo de um homem que me vendeu fantasias, ter perdido a virgindade em circunstâncias estranhas, não ter ninguém que me ame. Estou pagando em vida por ter provocado a morte do meu irmão. — Sinto muito, sinto tanto. Desculpo-me entre soluços. — Sinto a sua falta, Ren. Não consigo viver sem você. Você deveria ter deixado o carro me atropelar, você não deveria ter me salvado. O silêncio é a única coisa que recebo como resposta. — Leve-me com você, Ren. Estou cansada, por favor, leve-me com você. Imploro, mas minhas súplicas não são ouvidas. — Mamãe não me perdoa, Nathan me odeia por ter saído de casa, papai é indiferente. Conto o que está acontecendo. — Conheci um homem que achei que era bom, mas agora não sei. Estive com ele, Ren, e não me lembro. Tudo está fora de controle e eu não sei mais o que fazer. Por favor, leve-me com você. Em meio ao meu desespero, deito-me sobre o túmulo como se quisesse abraçá-lo. Fecho os olhos com a esperança de que as minhas palavras cheguem a ele e ele realize o meu desejo. O tempo passa e nada acontece. Só abro os olhos quando ouço uns passos pesados se aproximando. — Está frio. Diz ele. — Já está pronta para ir para casa? — Não quero. Respondo. — O que você está fazendo aqui? Você está me seguindo? — Não. Todos estão aqui. Sinto-me aliviado ao ouvir a sua resposta. A que se refere com "todos"? — Todos? — Mamãe, papai e a minha irmã mais nova. Todos. — Como você ainda está de pé? Pergunto. Ele é tão forte, e eu estou aqui, chorando desesperadamente porque não quero mais continuar. — Um dia de cada vez, Maggie. Eu te disse naquele dia no hospital, você precisa se perdoar. Seu irmão não gostaria de te ver assim. — Quero ir para casa, Samuel. Soluço. — Vamos para casa. Ele me ajuda a levantar do chão, tira o casaco e coloca sobre mim, mesmo que eu já tenha um. Ele me guia até o carro e, depois de se certificar de que estou confortável, corre para o volante e dirige até o nosso prédio. Esta não é a primeira vez que ele me salva. Pode ser que Renard tenha me enviado Samuel para que eu não me sentisse sozinha. Pode ser que ainda não seja minha hora de ir e este, seja meu sinal. Há tantas possibilidades, e não tenho certeza de nenhuma delas. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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