Episódio 14

1642 Palavras
Samuel Novamente, vejo a tela do meu computador como se ela tivesse a resposta para os meus problemas, embora eu saiba que não é assim. O problema com o qual lido agora? Maggie não voltou para casa nem enviou uma mensagem para que a buscasse. Será que ela saiu com o id*iota que a deixou na mão da outra vez? Espero que não. Ela é mais inteligente do que isso. Estressado por não conseguir me concentrar no meu trabalho, levanto da cadeira e me jogo no sofá, que alinhei em frente à porta. Assim estarei atento quando ela voltar. As horas passam e o meu nível de preocupação não para de aumentar. Não preguei o olho a noite toda, atento ao celular e ao som da porta, mas nenhum me dá notícias da ausência dela. Quando dão sete da manhã, estou andando de um lado para o outro como um tigre enjaulado. Maggie já deveria estar se preparando para o trabalho a essa hora, onde ela está? Meia hora depois, ouço os seus passos apressados pelo corredor e então a porta do apartamento dela abrir e fechar. Sinto alívio por um momento, mas depois a preocupação volta. Algo está errado. A pressão no meu peito está aumentando, estou tendo um ataque cardíaco? Não, deve ser por ela. Ultimamente, tudo o que me afeta tem a ver com ela. Coloco a mão na maçaneta, respiro fundo e giro-a justo quando sei que ele está saindo. Observo-a e confirmo as minhas suspeitas: algo não está bem. Fico tenso quando pergunto onde ela passou a noite e ela mente. Ela é uma péssima mentirosa. Consigo me trancar no meu apartamento e deixá-la ir antes de dizer ou fazer algo que a machuque. Estou à beira de um colapso, e ela não deve presenciar como eu explodo. Tomo um banho com água gelada, mas não adianta nada para acalmar a minha fúria. Só a intensifica mais. Ao sair, visto-me com roupa de rua e sento-me em frente ao computador com um objetivo em mente: descobrir o que está acontecendo com minha vizinha. Os meus conhecimentos sobre vigilância devem servir para alguma coisa, e não hesito em usar as minhas habilidades para rastrear Maggie pela cidade. Passo pelo menos duas horas nisso e, no final, tenho um roteiro do que ela fez depois do trabalho. Jantou com um homem, foi a um bar com ele e depois a um condomínio residencial do qual saiu esta manhã. Em nenhuma das gravações de vigilância aparece o rosto do sujeito, o que me faz pensar que ele tem muita sorte ou sabe cobrir os seus rastros. Não vai adiantar nada, porque se ele fez algo para ela. E o meu instinto me diz que foi assim. Não haverá lugar nesta terra onde ele possa se esconder de mim. Eu o caçarei e o farei pagar se ele tocou num único fio do seu cabelo avermelhado dela. Só consigo avançar um pouco do meu trabalho enquanto espero que Maggie volte para confrontá-la. Às quatro, não consigo mais ficar sentado. Coloco-me junto à porta, pronto para abri-la assim que ela chegar. Os minutos passam e ouço novamente os seus passos apressados. Desta vez ela abre e fecha a porta tão rápido e forte que não me dá tempo de reagir. Fico ali um tempo, dizendo a mim mesmo que não é minha responsabilidade, que não deveria me importar, que devo deixar para lá. Talvez ela esteja naqueles dias, ou o que eu vi não seja nada. No entanto, no fundo, sei que não estou errado, nunca estou. Com essa determinação, abro a minha porta e vou para a dela. Uso a cópia da chave que consegui para abri-la e adentrar o seu espaço. Se me perguntar por que invadi a sua privacidade, direi que ela fechou a porta m*al e que eu só queria garantir o seu bem-estar. Dois podem mentir, não é? Não ouço nada, então entro com confiança até chegar ao quarto dela. Vejo-a dormindo, aproximo-me com cautela e noto que o seu rosto está coberto de lágrimas. Há mais hematomas e marcas nos braços e pescoço dela. Quem a fez chorar? Mas, mais importante, por que quero destruir o responsável pela dor dela? Dou um passo para trás para me afastar antes que ela me veja observando-a como um louco, mas ouço-a murmurar algo. — Não, por favor. Não o quê? — Não quero, me deixe. Aperto as mãos ao lado do corpo para não me inclinar e tocá-la. Ela se mexe na cama, como se estivesse tentando se livrar de alguém. Que diab*os? — Não quero, por favor. Dói, pare. Inspiro profundamente para não me afogar de raiva. Fizeram m&al a ela. Aquele homem com quem ela saiu ontem a machucou, e que me condenem se eu não fizer algo a respeito. Enquanto vejo Maggie se contorcer e lutar contra as suas memórias, juro silenciosamente a ela que descobrirei quem foi e o destruirei até não restar nem as cinzas. Ninguém machuca o que me pertence, e Margareth Favre é minha, mesmo que eu não esteja pronto para admitir isso em voz alta. ****** Ele tentou acalmar as minhas dúvidas, mas só aliviou a superfície sem chegar à raiz do problema. Basileia, Suíça Margareth ‍​ Apesar de ter dormido a noite toda, sinto-me como se não tivesse descansado nada. No piloto automático, tomo banho, me maquio e me visto antes de abrir a porta para sair de casa. Estou fechando quando sinto a presença de alguém atrás de mim. — Olá. Virei-me ao ouvir a voz rouca de Samuel. — Olá. Respondo a ele. É a segunda vez que nos encontramos assim, com a porta dele e a minha abrindo-se quase simultaneamente. — Vou sair, quer que eu te leve para o trabalho? Ele me oferece. Abro a boca para dizer que não, mas me surpreendo ao responder: — Sim. Samuel suspira, seus ombros relaxam como se estivessem tensos. Por quê? Não dou voltas no assunto e, em vez disso, o sigo até o elevador e depois até a sua caminhonete. Ele me abre a porta e me ajuda a subir, depois se coloca atrás do volante e começa a dirigir. Por alguns segundos, fico olhando para ele. Ele é tão bonito e fascinante que não me canso de observá-lo. Tudo nele é atraente: o seu cabelo castanho escuro com alguns fios brancos, os seus olhos cor de chocolate, e não posso deixar de mencionar o seu nariz perfeito que harmoniza com a sua mandíbula esculpida. A sua roupa lhe cai maravilhosamente bem. A camisa ajusta-se sobre os seus músculos, e as calças de vestir acentuam as suas coxas. Ele é simplesmente... ele. E eu estou manchada, indigna até de pensar que teria uma chance. Já é tarde demais. — O que você vai fazer quando sair do trabalho? Ele quebra o silêncio com a sua pergunta. — Não sei, não tenho planos. — Que bom. E isso é tudo. Com Samuel, nunca sei o que esperar e, para minha surpresa, isso é algo que gosto nele. A sua mera presença é um desafio, mas também me traz tranquilidade. Talvez seja porque ele é um gigante e eu sinto-me protegida ao seu lado, ou porque não há indícios de malícia nele. — Obrigado por me trazer. Digo a ele quando ele para em frente ao prédio. — Adeus. Responde secamente. É inevitável que um sorriso se desenhe no meu rosto. A sua atitude me traz conforto porque continua a mesma. É como se nada tivesse mudado, no entanto, sei que não é assim. Nada mais é igual, eu não sou nem me sinto a mesma. Quando paro em frente às portas do edifício, inspiro fundo, coloco um grande sorriso no rosto e entro cumprimentando todas as pessoas com quem cruzo. Finjo que não há um vazio no meu peito, finjo que não me sinto destroçada. — Bom dia. Cumprimentei Caroline. — Bom dia. Ela responde, virando-se para me olhar com estranheza. — Você está melhor hoje? — Estou muito melhor. Minto. — Que bom. Diz ela, embora não pareça convencida, mas também não se anima a me interrogar. Começamos o nosso trabalho e, em pouco tempo, já estamos despachando todos. Joelle só para para um café, argumentando que não tem tempo para comer, e Conrad passa sem nem mesmo olhar para mim. Idi*ota. — Acho que terminamos por hoje. Digo a Caroline, não vendo mais ninguém. — Parece que sim. Vou organizar a parte de trás enquanto isso. Ela diz, levantando-se da cadeira. — Vou em alguns segundos. Começo a recolher as sobremesas que sobraram, concentrada na minha tarefa, quando ouço um pigarro. Levanto-me com tanta pressa que a minha cabeça bate no balcão. — Não pensei que contratariam alguém tão desajeitado. Deveriam fazer melhor. Manifesta a mulher à minha frente. Fico quieta enquanto a observo. O seu rosto não me é familiar, e tenho certeza de que a reconheceria em qualquer lugar. Ou seja, ela parece uma modelo de sucesso. O seu cabelo é loiro claro, natural pelo que posso notar, os seus olhos são castanhos e as suas feições lhe dão um ar delicado, angelical. É simplesmente linda. — Não vai me atender? — Sinto muito, senhora. O que você gostaria hoje? Pergunto, recuperando-me do estupor inicial. — Não acho que você tenha o que eu gosto, mas vou tomar uma xícara de chá com um fio de leite, sem açúcar. Ela para para olhar o balcão. — Melhor não, com certeza morro se comer alguma dessas coisas. ‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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