A verdade começou a vir à tona, dissipando qualquer ilusão, como se estivesse combatendo uma infecção que permanecera oculta por muito tempo.
Basileia, Suíça
Margareth
Termino de empacotar os poucos pertences que Samuel trouxe para mim. Dei a chave do meu apartamento para que ele fosse buscar algo para mim quando me informaram que eu ficaria hospitalizada por mais tempo do que o previsto. Então, sim, meu vizinho mexeu na minha gaveta de roupa ínt*ima.
Terra, abre-te e engole-me!
Quando termino, abro a porta do quarto e o vejo sentado nas cadeiras em frente. Ele se levanta assim que me vê, tira a minha bolsa da minha mão e depois estende o braço para me guiar para a saída.
— Vou assar algumas sobremesas para você. Quebro o silêncio.
— De acordo.
Os cantos da boca dele se elevam levemente. Estou aprendendo a conhecer os seus gestos e reconheço isso como um sinal de emoção. Assim que chegar em casa, vou pesquisar sobre a síndrome de Asperger. Quero saber qual é a maneira correta de interagir com uma pessoa que o tem.
Paramos na estação de enfermeiras, e o médico que tem acompanhado o meu caso se aproxima com alguns papéis na mão.
— Aqui está a alta assinada, além da incapacidade e das recomendações da obstetra.
— Muito obrigado.
— Cuide-se, Margareth.
Samuel também pega os documentos da minha mão e os guarda no casaco. Acaso não posso carregar nada? Saímos completamente do hospital e ele me leva até a sua caminhonete. Abra a porta traseira para deixar as minhas coisas e depois abra a do passageiro. Espero que ele me dê a mão, mas em vez disso ele me agarra pela cintura e me levanta.
— Ei! Reclamo.
— Assim você não vai se machucar. Ele grunhe.
— Sentar não me matará. Resmungo.
— Nunca se sabe. Ele responde.
Não digo mais nada. Já tem bastante com tudo o que está fazendo, para eu ainda ser ingrata. Em silêncio, ele dirije até o nosso prédio de apartamentos. Repito o mesmo processo e desta vez não me queixo absolutamente nada, por mais que queira fazê-lo.
— Obrigada por me trazer. Digo a ele assim que chegamos à porta da minha casa.
— Abre. Ele indica, apontando para a porta.
Revirei os olhos, embora ele não tenha notado, e acatei a sua ordem. Ele me acompanha ao interior e até leva a minha mala até ao meu quarto. Ao voltar, ele vai para a cozinha e me faz um sinal para que eu o siga. Puxo a cadeira para sentar, mas novamente ele me pega pelos quadris e me levanta.
Ah, como pode ser exasperante. No entanto, no fundo, considero isso um gesto doce.
— Vou ao supermercado e trago o necessário para a sua dieta. Quando eu voltar, enviarei o atestado para a empresa onde você trabalha. O plano é simples: vou te trazer café da manhã, almoço, lanche e jantar, e não aceito reclamações.
— Mas...
— Vou te levar para a cama, o seu descanso começa agora. Ele interrompe a minha objeção.
— Samuel...
Ele ignora o meu chamado. Simplesmente, ele me levanta da cadeira e me leva até o meu quarto, onde me deposita suavemente na cama. Espera que eu me deite para me cobrir. Satisfeito com o seu trabalho, ele me presenteia com um pequeno sorriso que faz o meu coração bater mais rápido.
Ele é tão bonito.
— Volto em uma hora.
Não espera resposta antes de partir. Suspiro. Ficar parada não será fácil, mas é necessário se eu quiser que o meu bebê cresça saudável. Miro a minha barriga que, de forma incrível, começa a aparecer. A obstetra disse que era normal, embora, para a ciência, seja um mistério. É como se o simples fato de saber da sua existência lhe desse permissão para se manifestar. Com um pouco de temor, acaricio a pele inchada e ela responde ao meu toque com um leve bater de asas. O som do meu celular me tira do momento. Inclino-me para pegá-lo na mesa de cabeceira e vejo que é uma mensagem recebida de Conrad.
— Vou te enviar o convite por e-mail. Por favor, não falte.
A festa será amanhã e não tenho permissão para me mover tanto, mas como ele diz, este é um assunto que deve ser tratado pessoalmente e eu não o quero no meu apartamento. Não parece certo tê-lo neste espaço.
— Não faltarei.
Recebo o convite e, ao revisá-lo, noto que o código de vestimenta é formal. Repasso mentalmente o meu guarda-roupa e lembro de um vestido longo verde que comprei impulsivamente, mas nunca tive a oportunidade de usar, até agora. No entanto, embora eu tenha o convite e o vestido, a parte mais difícil do plano será escapar da vigilância de Samuel. Porque se de algo tenho certeza, é que ele não me deixará ir se eu contar.
A porta da frente se ouve, anunciando o seu retorno. Ouço-o a mexer-se na cozinha e, meia hora depois, o aroma a caldo de galinha enche o ar.
— Preparei caldo de galinha... espero que goste. Ele diz ao entrar. — Uma senhora no supermercado me deu a receita. Ela disse que era anti-náusea, então você não deve vomitar. Espero que ela esteja certa, ou vou procurá-la para reclamar por ter mentido para mim. Ele balbucia.
Observo-o com atenção e, embora não veja vermelhidão nas bochechas, noto que as orelhas dele estão ligeiramente coradas. Como pode ser tão grande, sério, rabugento e doce ao mesmo tempo?
— Obrigada, tenho certeza de que vou gostar.
— Isso é bom.
Os seus ombros se tensionam quando levo a primeira colherada à boca, mas relaxam ao me ver assentir e sorrir. Espera pacientemente até que todo o caldo termine, depois retira o prato e volta.
— Precisa de mais alguma coisa? Ele pergunta.
— Não, estou bem.
— Tudo bem, virei na hora do jantar.
E com isso ele vai embora. Pego o meu celular novamente e desta vez abro o navegador para pesquisar sobre a Síndrome de Asperger. Quanto mais leio, mais compreendo Samuel. No entanto, o cansaço me vence, e eu adormeço. Não sei quanto tempo se passa, mas sinto-me a acordar. Com os olhos meio fechados, termino o resto da sopa e depois volto a me deitar. Percebo-o deixando um beijo na minha cabeça antes que eu possa afundar novamente no sono.