POV Inara
O peso do meu corpo parece ter triplicado. Sinto-me mergulhada num nevoeiro espesso, mas há algo que me puxa para a superfície. Um cheiro: sândalo, whisky e... perigo.
Abro os olhos devagar, a minha vista ainda turva pelo cansaço extremo. A primeira coisa que vejo não é o quarto luxuoso da Chloé, mas sim um par de sapatos de couro italiano, impecavelmente engraxados, a poucos centímetros da minha poltrona. Subo o olhar lentamente: calças de alfaiataria pretas, uma camisa branca ligeiramente amarrotada e, finalmente, o rosto dele.
Sebastian Knight.
O coração dá um solavanco no meu peito, despertando-me num segundo. Ele está ali, parado como uma estátua de mármore n***o, com os braços cruzados e aquele olhar azul gélido cravado em mim. A luz cinzenta da manhã atravessa as cortinas, iluminando as olheiras leves que o tornam ainda mais intimidador.
— Bom dia, italiana — a voz dele sai rouca, vibrando no ar parado do quarto. — Espero que tenhas descansado. Porque hoje, as regras desta casa mudam.
Tento ajeitar-me na cama, mas percebo, com um horror crescente, que ainda estou com o meu pijama de ursinhos. As pantufas de urso estão caídas de lado e o meu cabelo deve parecer um ninho de ratos. Eu sou o caos personificado, e ele... ele parece um predador que acabou de encurralar a sua presa favorita.
Olho rapidamente para a cama. A Chloé ainda dorme, a respiração calma, a pele finalmente fresca. Um suspiro de alívio escapou-me, mas logo voltei a focar no "monstro" à minha frente.
— Estiveste aqui a noite toda? — a minha voz sai falha, seca.
— Eu não deixo o que é meu sem vigilância italiana. Especialmente quando o que é meu está nas mãos de uma desconhecida que não sabe o seu lugar.
Ele dá um passo em frente, diminuindo o espaço entre nós. O cheiro dele envolve-me, sufocando os meus sentidos.
Ele inclina-se, apoiando as mãos na cabeceira da cama. O rosto dele está tão perto que sinto o calor da sua respiração na minha bochecha.
— Tens quinze minutos para te recompor.
Quero-te lá embaixo para o pequeno-almoço. E não me faças esperar... detesto impontualidade tanto quanto detesto desobediência.
Ele afasta-se com a elegância de um lobo e sai do quarto sem olhar para trás, deixando-me ali, com o coração aos pulos e a certeza de que o dia de hoje vai ser uma guerra. Uma guerra da qual eu não quero fazer parte; eu só quero ir para casa, endireitar o meu cabelo que está uma bagunça e tomar um banho.
E, sinceramente, eu não sei o que deu nesse cara. Um dia diz que vai me matar, no outro me prende em uma árvore, e hoje me convida para tomar café — se é que podemos chamar aquilo de convite; estava mais para: “você vai fazer o que eu mando, sem questionar, porque eu odeio desobediência”.
Idiota.
Quem ele pensa que é? Ele não manda em mim, então eu não vou.
Olho para o outro lado da cama, onde está a minha piccola, dormindo como um anjo.
Meu coração se enche de paz e gratidão por ela estar bem. Eu não sei o que faria se ela fosse embora também. Como ela... a Chloé. A vida é uma caixinha de surpresas; ele me deu um outro ser maravilhoso com o mesmo nome para proteger. E eu vou proteger. Mesmo não tendo conseguido no passado, eu vou conseguir agora. Não vou cometer o mesmo erro.
Faltam 10 minutos para o tempo que aquele imperador do gelo me deu para acabar. Suspiro, chegando à conclusão de que eu vou ter que descer para poder ter a conversa com ele e assim tentar convencê-lo — coisa que eu acho impossível — a me deixar continuar a ver a minha piccola.
Lanço um olhar para a cama. A Chloé está profundamente adormecida, com as bochechas agora rosadas por um sono saudável e não pela febre. Não tenho coragem de a acordar; ela precisa disto.
Cubro-a com cuidado e dou um beijinho na sua linda testa.
— Eu te amo, minha piccola — digo baixinho no ouvido dela e, inconscientemente, os seus lábios formam um sorriso fofo.
Respiro fundo e tento me recompor.
— Tu consegues, Inara. São só escadas.
É só uma sala de jantar. É só o "Imperador de Gelo" e os seus capangas, e a senhora Samantha e outros — sussurro para mim mesma, tentando ignorar que estou vestida de ursinhos da cabeça aos pés.
Bem, eu não trouxe uma mala de roupa comigo; afinal, ninguém avisou que eu ia sair correndo por toda Manhattan às três da manhã.
Saio do quarto e o corredor da mansão parece ainda mais vasto e frio do que ontem à noite. O silêncio é absoluto, interrompido apenas pelo som ridículo das minhas pantufas de urso contra o mármore: flap, flap, flap. Cada passo parece um anúncio da minha presença.
Desço a escadaria monumental sentindo-me uma intrusa num museu de arte moderna. Tudo aqui é minimalista, caro e intimidador. Quando chego ao átrio principal, sigo o cheiro a café acabado de fazer e o murmúrio de vozes masculinas e uma feminina que vem da sala de jantar. Paro diante das grandes portas duplas. O meu coração martela contra as costelas.
Endireito o pijama, tento baixar a camisola que insiste em subir, passo a mão no meu ninho de pássaro e empurro a porta.
O cenário lá dentro é digno de um conselho de guerra. Sebastian está na cabeceira, a ler o que parece ser um relatório num tablet, com um café expresso ao lado. À sua direita, o Liam está a devorar ovos mexidos e, à esquerda, o homem que estava ontem no quarto da minha pequena observa a janela com aquele ar de quem já planeja três assassinatos antes do pequeno-almoço. E a senhora Samantha, que depois de um dia parece ter ficado dois anos mais jovem.
É sério, essa mulher é linda demais!
Todos estão impecáveis. Fatos escuros, camisas passadas a ferro, vestidos simples mas que custam mais que o meu apartamento e, por fim, cabelos perfeitos.
E depois... apareço eu.
O som da porta a abrir faz com que os quatro pares de olhos se virem instantaneamente para mim. O Liam quase se engasga com uma torrada. O homem de olhos âmbar arqueia uma sobrancelha, um sorriso ladino a brincar-lhe nos lábios. E o Sebastian... o olhar dele escurece, percorrendo-me de cima a baixo, detendo-se nas orelhas de urso das minhas pantufas.
— Bom dia... — começo, sentindo o meu rosto arder.
Isso é humilhante pra caramba. Tento caminhar com dignidade em direção à mesa, mas a umidade de uma gota de água no chão — ou talvez apenas o meu azar crônico — decide agir. A minha pantufa direita desliza no tapete de seda, o meu pé esquerdo tropeça no próprio calcanhar e, de repente, o mundo inclina-se.
Solto um grito agudo enquanto os meus braços giram no ar, procurando apoio. O meu corpo projeta-se para a frente com força total. Na minha frente, o Sebastian m*l tem tempo de se levantar da cadeira quando eu o atinjo como um furacão de algodão e ursinhos.
O impacto é seco. O meu peito colide com o dele, as minhas mãos agarram-se desesperadamente à sua camisa branca e, com o peso do meu corpo desequilibrado, puxo o homem mais poderoso de Nova Iorque comigo para o chão.
BUM.
Caímos com um baque surdo no tapete caro. O ar sai dos meus pulmões num suspiro. Quando abro os olhos, estou estendida por cima dele. As minhas pernas estão entrelaçadas nas dele e as minhas mãos... as minhas mãos estão espalmadas no seu peito largo, sentindo o batimento cardíaco dele acelerado sob a seda da camisa. O rosto do Sebastian está a centímetros do meu. O azul dos olhos dele está em chamas, uma mistura de choque, fúria é algo muito mais sombrio que me faz o ventre contrair.
O cheiro dele é inebriante aqui tão perto.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Sinto o peito dele subir e descer rapidamente sob as minhas palmas. O cheiro de sândalo, couro e café puro que emana da sua pele é tão forte que me deixa tonta. Estou literalmente montada em cima do "Imperador de Gelo", com o meu pijama de ursinhos colado ao seu fato de milhares de dólares.
O Sebastian não diz nada de imediato. As mãos dele, grandes e quentes, sobem e apertam a minha cintura com uma força possessiva que me faz soltar um suspiro curto. O olhar azul dele está em brasas, fixo nos meus lábios. Ele inclina o rosto, o nariz roçando no meu pescoço, inspirando profundamente o meu cheiro de frutas vermelhas. Sinto um arrepio elétrico a percorrer-me a espinha quando a barba rala dele arranha a minha pele sensível.
— Estás a tentar matar-me, italiana? — a voz dele é um rosnar baixo, vibrando contra a minha pele. — Ou isto é apenas um convite para terminarmos o que começaste no jardim?
A lembrança do que aconteceu no jardim ontem só me deixa mais vermelha e envergonhada, ao lembrar dele colado a mim, mas só que agora eu estou em cima dele, literalmente.
— Eu... eu tropecei — sussurro, sentindo o meu coração martelar contra o peito dele.
A mão dele aperta mais a minha carne, puxando o meu corpo contra o dele no chão, como se quisesse marcar território ali mesmo, na frente de todos.
— É sério? Que pena... — Ele solta um riso seco, sem qualquer vestígio de diversão. — Eu achei que tinhas vindo entregar-te por vontade própria.
Ele aproxima-se ainda mais, o nariz roçando no meu, e o mundo inteiro desaparece, restando apenas o cheiro dele e o meu batimento cardíaco descontrolado.
— Se querias tanto sentir o meu corpo no teu, italiana, bastava pedires — ele sussurra, a voz tão baixa e densa que me faz estremecer. — Não precisavas de te atirar aos meus pés... mas já que estás aqui, habitua-te. É este o teu lugar agora: em cima ou em baixo de mim.