Capítulo 19

1623 Palavras
Jesus, Maria, José! Que vergonha. Se o objetivo dele era deixar-me envergonhada, conseguiu. Neste momento, eu devo estar mais vermelha do que um tomate maduro. Sinto o meu corpo pesado, como se tivesse sido arrastada para o fundo de um oceano escuro e denso. E, talvez, tenha sido mesmo — pelos olhos dele. Ao dizer aquelas palavras, as pupilas dele delataram-no, mudando de cor para um azul tão escuro e profundo que chegava a assustar. Ele olhava para mim como se quisesse devorar-me. O problema é que eu não sabia de que maneira ele pretendia fazer isso. — Sebastian, por favor... — a voz doce, mas firme, da senhora Samantha quebra o transe. Olho para o lado e vejo-a sentada à mesa, impecável. Ela observa-nos com um sorriso pequeno e cúmplice, enquanto toma o seu chá com uma calma irritante. Espera... ela está a ver-nos? Há quanto tempo estou aqui em cima dele? Será que toda a gente viu? O Liam... o moço de ontem também? Sinto uma vontade súbita de me enfiar debaixo da mesa e nunca mais sair. Olho de novo para o Sebastian, que continua com aquele olhar de predador. Tento levantar-me, apoiando as mãos no seu peito firme, mas ele puxa-me de volta tão rápido que os nossos rostos quase colam. Consigo sentir a respiração dele quente contra a minha pele. Os seus lábios entreabertos estão tão perto dos meus... são lindos, tentadores. O aroma intenso de café puro que emana dele mistura-se com o calor da nossa proximidade, embriagando os meus sentidos. É um cheiro forte, amargo e másculo, que faz o meu coração martelar contra as costelas. Por um segundo louco, sinto uma vontade absurda de colar os meus lábios nos dele, só para descobrir que gosto têm. Não, Inara! Controla-te! Há pessoas a olhar e eu nem sei há quantos minutos estamos nesta posição ridícula. No primeiro dia nesta casa e já acabo em cima do dono da mansão. Daqui a dois meses estarei onde? Na cama dele? Só de pensar nisso, o meu corpo estremece num arrepio que me percorre a espinha. O Sebastian aperta-me mais intensamente. Tenho a certeza de que ele sentiu o meu tremor. — Pode soltar-me, por favor? Não foi minha intenção cair em cima de si — sussurro, tão baixo que só ele consegue ouvir. Graças a Deus, ele escuta. Solta-me devagar, mas a palma da sua mão demora-se na curva da minha anca, queimando através do tecido do pijama antes de nos levantarmos. Ele levanta-se com uma elegância absurda, como se cair no chão com uma mulher de pantufas de urso fosse parte da sua rotina matinal. Estende-me a mão e, quando a seguro, a força dele puxa-me com tanta facilidade que volto a colidir com o seu peito largo por um breve segundo. — Senta-te — ordena ele, a voz voltando ao tom frio e autoritário, embora as pupilas ainda estejam dilatadas. — Temos assuntos a tratar daqui a pouco. Sento-me com a cabeça baixa, sem coragem de encarar o resto do pessoal. Ao meu lado, a senhora Samantha estende-me uma chávena. — Bebe, querida. Vais precisar de energia para o que o meu sobrinho chama de "conversa". — Então, Inara... — o Liam quebra o silêncio, limpando os cantos da boca com um sorriso atrevido. — Já recuperaste o fôlego da maratona de ontem à noite? Olho para ele, confusa. — Maratona? — Subiste aquelas escadas como se o mundo fosse acabar, italiana. Deixaste-me lá em baixo a falar para as paredes! — O Liam ri, balançando a cabeça. — Ahem... — O som seco de Sebastian a limpar a garganta corta o riso do Liam. Ele não levanta os olhos da chávena, mas a pressão no ar muda. Fica pesado, carregado de eletricidade. Sebastian levanta os olhos lentamente, fixando-os no Liam com uma intensidade gélida. O clique seco da porcelana a bater na mesa parece um tiro no silêncio da sala. Eu olho de um para o outro, sem entender por que é que o clima ficou tão tenso de repente. E o que é que o "motorista" faz sentado à mesa connosco? Bem , é melhor não pensar nisso afinal , eu também estou sentada á mesa e nem empregada eu sou. — Eu ia avisar-te sobre os degraus escorregadios, mas quando dei por mim, já tinhas desaparecido — continua o Liam, ignorando olimpicamente o olhar assassino do primo. — Desculpa, Liam — respondo baixinho. — Eu só precisava de encontrar a Chloé. Tinha medo que algo pior acontecesse. O homem sentado à esquerda do Sebastian, que ontem parecia planear um m******e, pigarreia. — Ignora o meu irmão, Inara — diz ele, com uma voz profunda. — O Liam tem a língua tão solta quanto o pé no acelerador. Já agora, eu sou o Derek. — Irmãos? Mas... o Liam não é o motorista? — Arregalo os olhos. Como assim, o irmão deles é o motorista? Derek solta um riso curto. — O Liam é meu primo — intervém Sebastian, o tom cortante como uma navalha. — E é motorista porque é um i*****l que destruiu três Ferraris da frota da família em menos de dois meses. Digamos que está a cumprir uma "pena alternativa" até aprender o valor do que conduz. Olho para o Liam a tempo de o ver dar de ombros, sem um pingo de remorso. — Foram erros técnicos, e já estou a pagar por eles. Vocês até já me consideram o motorista oficial... e sabem como eu odeio servir-vos. Mas... — Ele desvia o olhar para mim com uma piscadela que me faz querer sumir. — Por esta belíssima mulher aqui ao lado, eu continuaria a ser o motorista para sempre. Sinto o meu rosto queimar de novo. A sério? Outra cantada? Só que desta vez é de um Knight diferente.Olho para a senhora Samantha e ela sorri; parece habituada às palhaçadas do sobrinho. Derek parece apenas entediado. Mas na ponta da mesa, o "dragão" Sebastian parece pronto para incinerar alguém. Ele pega no telemóvel, os dedos movendo-se com uma fúria contida, enviando uma mensagem rápida. O Liam também puxa o seu telemóvel, rindo de algo no ecrã antes de olhar para o Sebastian. — Recebido, patrão. Não precisas de me mandar trabalhar por mensagem quando estou à tua frente — diz o Liam, guardando o aparelho com um sorriso desafiador. — Mas tens razão. Castigo severo, Knight, mas justo. Bem, surgiu um "imprevisto" no porto. Derek, vens comigo? Derek assente e levanta-se, fazendo uma pequena vénia na minha direção. — Prazer em conhecer-te finalmente, Inara. Um conselho: tenta não destruir esta casa como o Liam destrói os carros dele. E com esse aviso enigmático, eles saem com a agilidade de quem lida com crises antes das nove da manhã. Fico ali, em silêncio, sentindo o peso daquelas palavras. Destruir a casa? Eu m*l consigo manter-me de pé com o cansaço que me invade os ossos, quanto mais destruir uma mansão destas. Sinto o meu corpo a reclamar; a noite em claro e a adrenalina de ter caído literalmente nos braços do "imperador de gelo " estão a cobrar a fatura. O sono pesa-me nas pálpebras, uma névoa densa que tenta puxar-me para baixo, mas o olhar do Sebastian, ainda fixo em mim, funciona como um choque elétrico que me mantém alerta. — No meu escritório em dez minutos, Inara — diz ele, levantando-se. — Temos detalhes contratuais para finalizar. Ele lança um olhar significativo para a Tia Samantha. E eu nem sei de que detalhes contratuais nos temos de falar . Ai senhor Jesus onde eu fui me meter? Sebastian lança um olhar significativo para a Tia Samantha antes de sair. Ela assente suavemente, como se comunicassem sem palavras, e aproxima-se de mim com um toque gentil no ombro. — Vem comigo, querida — diz ela, conduzindo-me até a um closet no andar de cima . — Vamos encontrar algo que te faça sentir mais... tu mesma. Olho para as opções luxuosas, mas o meu corpo ainda vibra com o cansaço da noite anterior. A muita coisa aqui! A senhora Samantha separa um monte de roupas, caras e luxuosa. Mas concerteza elas não são para mim. — Senhora Samantha... — hesito, tocando num tecido de seda. — Eu agradeço os vestidos, são lindos, mas prefiro calças. São mais... ágeis. Gosto de estar pronta para qualquer situação. Se precisar de correr ou de me baixar para cuidar da Chloé... as calças dão-me uma segurança que um vestido não dá. Ela para e olha-me fixamente, com um brilho de compreensão nos olhos. É como se ela visse a Inara que sobreviveu a tudo sozinha até aqui. — Eu entendo perfeitamente, Inara — responde ela, com a voz carregada de uma ternura que me desarma. — A elegância não está na saia, mas na forma como carregas o teu próprio peso. Ela entrega-me um conjunto de alfaiataria impecável. Enquanto me visto, o sono tenta fechar-me os olhos, mas a presença dela é como um porto seguro no meio desta tempestade chamada Knight. — Obrigada senhora.— Não é uma calda jeans , mas já dá para alguma coisa. Dez minutos depois, após trocar as minhas pantufas pelo conjunto de alfaiataria que a senhora Samantha me deu — calças, porque se eu precisar de fugir deste manicómio, vestidos não ajudam —, bato à porta do escritório. — Entra. Entro e encontro o Sebastian atrás da secretária de carvalho. Ele observa o meu novo visual com um brilho de aprovação que tenta esconder. Idiota orgulhoso. E do nada sem dizer uma palavra qualquer para me prepar para a bomba ele diz: — Estás contratada, Inara Carter. Para ser a babá da Chloé Knight!
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