Capítulo 20

1981 Palavras
— Estás contratada, Inara Carter. Para seres a babá da Chloé Knight! As palavras dele ecoaram pelo escritório, batendo nas estantes de livros antigos e voltando para mim como um choque de realidade. Por um segundo, o cansaço que me pesava nos ombros pareceu dissipar-se, substituído por uma onda de alívio tão grande que quase sorri. Consegui. Vou poder ter um teto, um salário e, o mais importante, vou poder proteger a minha piccolina. Vou poder estar perto dela, vou poder cumprir as promessas que lhe fiz ontem. Mas, como tudo o que envolve Sebastian Knight, o sol não brilha por muito tempo. Ele acabou com a pequena alegria que eu tive quando disse: — Preciso dos teus documentos originais para o contrato. Passaporte, residência e o teu histórico. O meu coração, que batia de alegria há um segundo, simplesmente parou. Senti o sangue fugir-me do rosto. Documentos? Passaporte? Visto? Ai Jesus, o que eu faço? Como vou resolver isso? Eu era uma sombra, uma rapariga que m*l existia. E é claro que estou ilegalmente nos Estados Unidos. Afinal, eu sou uma fugitiva. Uma fugitiva de um passado sombrio. Com toda a correria, não deu tempo de tratar dos documentos necessários para estar aqui legalmente e agora estou nesta situação que achei que não chegaria tão cedo. Afinal, só se passaram quatro anos desde que estou aqui, quatro anos em que ganhei tão pouco, mas esse pouco que ganhei, eu amo demais. Uma dessas bênçãos é a Micaela West, a minha melhor amiga, e depois de um tempo acabei ganhando a piccola. Mas estou prestes a perdê-la se não der uma resposta agora ao homem que continua a olhar para mim com os olhos tão frios como no primeiro dia em que nos vimos. Só que hoje esse olhar tem uma pequena diferença: está carregado com algo que eu desconheço, uma intensidade que parece… desejo… um puro e obsessivo desejo. Eu só não sei a quem é dirigido esse sentimento, ou talvez seja apenas o seu olhar; afinal, ele é diferente dos outros, ele é o Sebastian Knight. — Você está me ouvindo, italiana? — Ahh! — dou um passo em falso para trás com o susto que ele acabou de me dar. O resultado: acabo batendo com as costas numa parede de aço. O meu tornozelo, que eu já não sentia, voltou a latejar, mas não tão intensamente como o meu coração, que batia forte pela proximidade repentina do Sebastian. Eu juro que não percebi quando ele se moveu pelo escritório. Num segundo ele estava na minha frente e agora está atrás de mim, com os braços em volta da minha cintura, segurando-me para que eu não caísse por causa do susto e do tornozelo. Os lábios dele estão próximos do meu ouvido, soltando lufadas de ar quentes que arrepiam todo o meu corpo. — Ah… sim, eu… entendi. Amanhã eles estarão na sua mesa — as minhas palavras saem entrecortadas pela proximidade dele. Sinceramente, acho que a vida me quer colada ao corpo desse homem. Já me perdi nas contas de quantas vezes senti o seu corpo ao meu e a última vez nem foi há tanto tempo. Tenho de arranjar forma de me manter longe dele, ou vou acabar ficando louca. — Está certo. Espero amanhã sem falta ou você vai sair da vida da minha filha, italiana. Eu não tolero mentiras, nem impostores — Sebastian disse, puxando-me mais para si. Fiquei sem fôlego. Não só por estar colada a ele, mas porque ele disse: Impostora. Mentirosa. Doeu. Doeu porque era verdade; eu era uma impostora, pelo menos no que sou agora. — Sim, amanhã — disse, desvencilhando-me dele. — A Chloé vai acordar em breve, tenho de estar com ela. Tento dar um passo em frente, mas sinto a sua mão grande e quente no meu braço. No mesmo instante, sou puxada de volta para o peito dele, mas desta vez os seus olhos estão cravados nos meus. — Ainda falta uma coisa — a voz dele sai como um sussurro. — Nunca mais… — ele baixa o rosto para perto do meu. — Nunca mais deixe outro homem chamar você de italiana. Não me importo se é o meu primo, o seu tio ou o teu irmão. Não me importo, está bem? Se não, você não vai gostar do que vai acontecer com essa pessoa. Isso só pode ser brincadeira! Eu paralisei por muitos motivos, mas o principal foi não entender qual é a dele. Ele é o meu futuro chefe e não tem nada a ver com a minha vida ou como os outros me chamam. Os meus olhos continuam cravados nos dele, e os dele nos meus. Eu juro que, nos seus olhos, eu podia ver sinceridade. Ele estava a ser sincero sobre eu não gostar do resultado se outro homem me chamasse de italiana. Respiro fundo, puxando o meu braço dele. — Tudo bem. Se é tudo, eu estou de saída — digo, já saindo do escritório. Mas antes de sair, eu vi. Era pequeno, mas eu vi: surpresa. Ele estava surpreso por eu não revidar, por eu não discutir. Mas neste momento eu não consigo, não com tudo o que está a acontecer comigo. A minha identidade, o meu problema de ansiedade que quer atacar me agora... Sinto o meu peito a bater forte, a minha garganta aperta e os meus olhos ardem. Consigo sentir o suor a escorrer na minha testa. Eu não posso ter um ataque agora, e principalmente aqui, nesta casa. Eu não posso, ainda mais com uma criança para cuidar. Então, eu vou ser forte. Não vou deixar isso me atacar de novo. Apoio as minhas mãos em algo sólido, respiro fundo e deixo o ar adentrar nos meus pulmões. Deixo os meus sentidos alertas e, com isso, sinto o vento soprar os meus cabelos e o sol queimar o meu rosto. Sinto o cheiro das flores — elas são doces — e sinto o cheiro da grama e da terra. Respiro fundo mais uma vez e abro os meus olhos. Vejo-me no jardim, apoiada na mesma árvore onde eu estava sentada com a piccola ontem, na mesma árvore onde fui presa pelo corpo gigante do Sebastian. Sendo sincera, eu não sei como acabei por chegar aqui. Acho que foi só o meu instinto que me trouxe. Estou surpreendida; muitas das vezes ele é horrível, mas hoje parece que acertou em cheio. Ele trouxe-me para o lugar mais lindo desta casa. (Eu sei, ainda não fiz o meu tour por aqui, afinal só a conheci ontem e ela é enorme, mas eu sei que este é o lugar mais lindo e calmo daqui). Puxo o ar para os pulmões e solto-o de novo. Faço isso umas três vezes para me certificar de que não há nenhum vestígio da minha ansiedade. — Certo, eu estou bem — repito para mim mesma em voz alta. Agora, o que é que eu tenho de fazer para resolver a parte dos documentos? Eu não posso deixar a piccola sozinha, ainda mais por causa do que aconteceu ontem. E também tenho de fazê-lo por mim: eu não posso ser deportada. Não tenho para onde ir, não tenho família além da Mica. Então, eu tenho de resolver. E a melhor pessoa para me dizer o que fazer sobre esse assunto é ela: Micaela West. Ela vai saber como posso conseguir estes documentos em um dia. — Então, eu vou ligar para ela, mas... Droga! O meu telemóvel. Com toda a pressa de ontem, acabei por deixá-lo no meu apartamento. — Agora o que é que eu… — Eu poss… — Ahhhhh! — Viro-me com as mãos no lado esquerdo do meu peito. É sério, já se está a tornar irritante ser assustada pelos Knight. E este... eu nunca imaginei que seria capaz de fazer isso, que seria capaz de me assustar. Seria mais o Liam, a piccola e talvez o Sebastian, mas este… — Desculpe, não foi minha intenção assustar você, Inara — disse ele, com aquela calma de quem sabe mais que todo o mundo. Derek Knight! Pois é ele o homem que está na minha frente, o homem que quase ia arrancando o meu coração à base de sustos. E eu sei o que vocês estão a pensar: ele não havia acabado de sair com o Liam? É, eu também achei isso… — He... tudo bem, pode deixar para lá, Senhor Derek. Não há nenhum problema. — Derek — responde ele, simplesmente. Eu não entendi o que ele quis dizer com aquilo. Minha cabeça vai para o lado (é um hábito meu que eu não gosto nada) em sinal de que não entendi. Ele soltou um riso pequeno, e eu tenho a certeza de que é pelo meu pequeno movimento com a cabeça. — Pode chamar-me só de Derek. Afinal, ao dono da casa você chama pelo primeiro nome, não é? Então, nada de formalidades comigo, sim? Eu fiquei paralisada de vergonha. Eu juro que não percebi que fazia isso, que o chamava de Sebastian em vez de Senhor Sebastian. Ai, que vergonha! — Não... eu... é que eu... ah... — Não sabia o que falar, não há desculpa para isso, para chamar o seu chefe pelo primeiro nome. — Não te preocupes, está tudo bem. Eu não pedi nenhuma explicação e tenho a certeza de que o Sebastian prefere que você o chame desse jeito mesmo. — Ele faz uma pausa, observando o meu estado. — Eu vi-te aqui no jardim e tu estavas um pouco... confusa. Estás bem? Estavas aqui a falar sozinha aconteceu algo? Respiro fundo, tentando aproveitar a a******a. — É que... eu esqueci-me do meu telemóvel em casa ontem, com toda a confusão. E eu precisava mesmo de fazer uma ligação urgente para resolver um assunto pessoal. Estava aqui a pensar como é que eu ia conseguir um telefone agora… Derek olha para mim com um olhar mais humano, menos gélido do que o do primo. Ele não faz perguntas invasivas, apenas retira um aparelho sofisticado do bolso e estende-o na minha direção. — Podes usar o meu. Sei como é estar incomunicável num momento de urgência. Fico paralisada por um segundo, surpreendida com a gentileza inesperada. — A sério? Eu... Ah... obrigada. Eu prometo que é rápido. — Sem pressa — diz ele, dando alguns passos para trás para me dar privacidade, mas permanecendo no jardim. Pego no telemóvel dele com as mãos ainda a tremer um pouco. Digito o número da Micaela de cor. E eu fico surpreendida com o que vejo. O número da Mica está gravado no telemóvel do Derek e o que me surpreendeu foi o nome que estava lá: “Blazing Joy” (Alegria Flamejante). O nome é idêntico ao modo como eu chamo a Mica; "Alegria", eu a chamo assim. E ela disse que só havia mais uma pessoa no mundo que a chamava assim. De "flamejante", por causa do cabelo vermelho dela. Alegria flamejante. Olho para o Derek, que está do outro lado do jardim. Ele parece alheio, ele nem sabe quantas perguntas se passam na minha cabeça agora. Quem é ele para a Mica? E o que a Mica é para ele? Mas, apesar de tudo isso na minha cabeça, eu tenho coisas mais importantes para resolver, coisas que não podem esperar. Clico no botão de chamar e oiço a música de fundo. Ele tocava e tocava... Cada toque é um passo em direção ao meu destino. Eu só preciso que ela atenda. Eu só preciso de um marido até amanhã, ou o sonho de cuidar da Chloé vai por água abaixo e a minha vida vai tornar-se o meu maior pesadelo nas mãos do Sebastian, se ele descobrir que eu sou uma imigrante ilegal aqui. E também se ele descobrir o que aconteceu no meu passado sombrio.
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