Capítulo 15

1474 Palavras
POV Sebastian O silêncio é algo que nunca me incomodou. Pelo contrário, eu sempre o vi como um sinal de ordem, de controlo. Mas esta noite, o silêncio grita. Ele ecoa as palavras da minha tia e, pior ainda, ecoa o som daquele tapa que ainda sinto arder, não na pele, mas no meu orgulho. Estou sentado no meu escritório, às duas da madrugada, e a única luz que reverbera é a do ecrã do computador e de um copo de whisky que m*l toquei. O líquido âmbar brilha, tão frio quanto o meu coração deveria ser. Atrevida. A palavra volta a martelar na minha mente. Nenhuma mulher jamais ousou olhar-me com aquele desprezo. Elas olham-me com medo, com desejo ou com interesse, mas a Inara... ela olhou-me como se eu fosse o monstro que eu próprio me convenci de que sou. E, por um segundo, debaixo daquela árvore, eu quis ser esse monstro apenas para a manter ali, presa a mim. Sinto o cheiro das frutas vermelhas impregnado no meu casaco. Uma armadilha doce que ela deixou para trás. — "Ela fez a Chloé falar." — A voz da tia Samantha repete-se na minha cabeça como uma sentença. Fecho os olhos e vejo o rosto da minha filha. O vazio que se instalou nela desde que a Luna se foi é a minha maior falha. Eu construí impérios, derrubei inimigos, mas não consegui arrancar uma única palavra da pessoa que mais amo no mundo. E então, aparece uma italiana desastrada, com um tornozelo inchado e uma língua afiada, e faz o impossível em poucas horas. Como? Porquê ela? O destino é uma piada de mau gosto que eu não estou habituado a ouvir. Se ela é uma espiã, é a melhor que já vi, porque conseguiu infiltrar-se no único lugar que eu julgava impenetrável: o coração da minha filha. E, talvez, nas fendas da minha própria armadura. Dou um gole no whisky , sentindo-o queimar a garganta. Liam já me enviou a mensagem: ela está em casa. No centro. Longe de mim, mas sob a minha vigilância. Inara Carter, quem é você de verdade? O que você esconde de tão sombrio no seu passado? Nenhuma mulher normal é capaz de apagar o seu passado assim. Mas parece que ela não é nada normal, e isso só me dá mais certeza de que ela trabalha com a p***a dos irlandeses. E se isso for verdade, eu irei matá-la sem remorso algum, independente do desejo que eu sinto pelo seu corpo. Sim, eu sou um homem e tenho desejos. Negar isso seria a maior mentira que já contei a mim mesmo. Sinto o meu sangue ferver só de recordar a forma como ela respirava contra o meu peito, o tremor do seu corpo e aquele som... aquele gemido de rendição que ela tentou sufocar. Eu podia ter tomado ali mesmo. Podia ter marcado aquela pele macia e mostrado quem é que manda na p***a da cidade. Mas ela bateu-me. Desafiou o Chefe da Máfia Americana com um tapa que ainda ecoa no meu silêncio. Atrevida! Bebo o resto do whisky, sentindo o calor do álcool misturar-se com a frustração. Inara Carter é uma complicação que eu não previ. Segundo a minha tia, ela é o milagre que a minha filha precisava, mas para mim ela é um incêndio que ameaça queimar as minhas defesas. Se ela for uma espiã, eu vou matá-la. Vou ver o brilho daqueles olhos verdes apagar-se enquanto as minhas mãos apertam o seu pescoço. Mas, porra... até esse pensamento termina com ela nos meus braços, ou debaixo de mim gemendo, com os seus lábios vermelhos entreabertos soltando lufadas de ar. Pedindo para que eu invista mais rápido nela, com mais força para que eu nao pare , para fode-la com mais força. Droga. Estou a ficar e******o só de pensar nela. Pareço um adolescente. Estou a ter pensamentos lascivos com uma suposta inimiga. Levanto-me com o copo vazio e caminho até à janela, olhando para o jardim escuro. O que essa italiana tem para não sair dos meus pensamentos? Maldita. Inferno. Imagino-a ali, em cima desta mesa de carvalho, as minhas mãos a marcarem a pele branca das suas coxas enquanto o seu desafio se transforma em súplica. Eu queria ouvir o som daquela língua atrevida a implorar, não por perdão, mas por mais. Queria possuí-la até que ela esquecesse o próprio nome. — Merda! — rosno para as paredes vazias. Isso é impossível. Eu sou Sebastian Knight. Eu não me deixo levar por impulsos de carne. Ela é apenas uma ferramenta. Eu não a quero. O que sinto é apenas o instinto de um predador que foi desafiado. É biologia, não é obsessão. Tento forçar a minha mente a voltar para os relatórios, mas o meu corpo continua em alerta, gritando por algo que eu jurei nunca mais deixar entrar nesta casa. Estou prestes a atirar o copo contra a lareira quando um estrondo corta o silêncio do corredor. Não são passos calmos. É o som do pânico. — Sebastian! Sebastian, por amor de Deus! — A voz da tia Samantha atravessa a porta, carregada de uma preocupação que me faz gelar o sangue. O meu desejo morre no mesmo segundo. Abro a porta e encontro a minha tia com as mãos inquietas. — O que foi? Tia! — exijo, a minha voz saindo como o rugido de um animal ferido. — É a Chloé! Vem comigo, agora! Saímos do escritório a correr. Subimos a escadaria de mármore em passadas largas, o som dos nossos passos ecoando na mansão adormecida. O meu coração martela contra as costelas, não por desejo agora, mas por um medo puro que eu raramente sinto. Entro no quarto da Chloé como um furacão, o meu instinto de proteção em alerta máximo. Minha tia senta-se à beira da cama com um semblante sério, passando uma compressa húmida na testa da minha pequena. — Tia, que inferno ela pode ter? Ela estava bem, não? — rosno, aproximando-me com a mão já no telemóvel. — Já chamaste um médico? O Dr. Miller já devia estar a caminho! Ela nem me olha imediatamente. Continua o que está a fazer com uma calma que me irrita profundamente. Só depois de alguns segundos vira o rosto, arqueando uma sobrancelha para mim como se eu fosse um miúdo a fazer uma birra. — Estás a brincar comigo, Sebastian? — A voz dela é seca. — Estás a perguntar-me se chamei um médico? Olha bem para mim. Estás esquecido de quem eu sou e de onde eu vim? Engulo em seco. Às vezes esqueço-me que ela era uma das pediatras mais respeitadas em zonas de risco na Tailândia. Ela operou crianças em cima de caixotes com uma lanterna na boca. Ela deixou os seus trabalhos comunitários para estar aqui por causa da Chloé. — Eu sei quem tu és, mas a Chloé está a arder! — retruco, tentando manter a autoridade, embora me sinta diminuído pelo seu olhar. Ela é uma fera perigosa quando quer ser. — Exatamente. Ela está a arder. E eu já fiz a parte clínica — diz ela, levantando-se. — O problema, "chefe", é que eu trato corpos. O que a tua filha tem não se cura com xarope. Ela está a ter uma reação psicossomática. O corpo dela está a protestar. Ela aponta para o tablet. Pego no aparelho e a palavra "INARA" brilha contra a escuridão. — A Inara? — a minha voz sai quase num sussurro. — Ela quer aquela mulher? — Ela não quer "aquela mulher", Sebastian. Ela precisa da pessoa que a fez sentir viva depois de tanto tempo. Coisa que você não fez por egoísmo, achando que ficando longe estarias a protegê-la. Deixa de ser um i****a autoritário por cinco minutos. A febre só vai ceder quando ela se sentir segura de novo. E a segurança dela agora tem nome e apelido. Olho para a minha filha, pequena e vulnerável, e depois para o tablet. Sinto um aperto no peito que nada tem a ver com medicina. É fúria e necessidade possessiva. Como é que aquela mulher se tornou o oxigénio da minha filha em poucas horas? Por que é que o meu corpo reage ao nome dela como um chamado para a guerra? — Sebastian? — A voz da tia Samantha interrompe-me. — Estás a ouvir-me? Se a Chloé não se sentir segura, esta febre vai continuar a subir. E eu não vou deixar a minha neta sofrer por causa do teu orgulho ferido. Porra . Respiro fundo, guardando o tablet. Sinto-me o homem mais fraco do mundo por não ser eu a solução de que ela precisa. — Eu entendo, Tia Samantha — respondo, com um respeito que reservo a pouquíssimas pessoas. — Eu já sei exatamente o que devo fazer.
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