POV – Inara
O relógio de parede da minha cozinha marca 2:45 da manhã. O teto do meu quarto já se tornou o meu único confidente nestas últimas horas. Eu odeio insónia, mas odeio ainda mais quando a razão para não conseguir pregar olho é o rosto daquele homem prepotente e o cheiro de sandalo que parecia impregnado na minha pele.
— Que inferno — sussurro, virando-me para o lado e afundando o rosto na almofada.
O meu corpo está exausto. O meu tornozelo ainda pulsa um pouco, lembrando-me do escorregão no jardim, mas a minha mente é um carrossel em chamas. Eu não consigo parar de pensar na pequena Chloé. No abraço dela, no sorriso silêncio dela... e depois, na frieza daquele homem. O "Senhor Knight". Um nome que soa a poder e a perigo.
O toque dele debaixo daquela árvore ainda queima na minha cintura. Aquele olhar sombrio... ele olhou-me como se eu fosse um desafio a ser esmagado. E o tapa que eu lhe dei? Deus, a minha mão ainda formiga. Eu sei que foi uma loucura, que ninguém desafia um homem como ele, mas eu faria de novo.
Ele deve achar que é o dono do mundo só porque é rico.
Homem i****a.
E bonito!
Mas também um grande i****a.
E cheiroso!
E…
— Ai não esquece isso, Inara. Ele ofendeu te , praticamente de chamou de prostituta , ele é um i****a e acabou chega de pensar nele .— digo a mim mesma, tentando forçar o meu cérebro a desligar.
Amanhã eu tenho de voltar à estaca zero.
Procurar outro emprego, longe de mansões assustadoras e de homens que acham que podem possuir o mundo com um olhar.
Com um olhar que foi capaz de me fazer estremecer, da cabeça aos pés.
Ai não chega eu não cont…
BUM. BUM. BUM. BUM.
O som violento na porta da frente faz-me saltar da cama com o coração na boca.
Não é uma batida normal. É uma batida de quem quer derrubar a madeira, de quem não tem paciência e não se importa de acordar o prédio inteiro a meio da noite.
Sinto um calafrio percorrer-me a espinha.
O medo gela-me o sangue. Eu moro sozinha, num bairro que nem sempre é o mais seguro. Quem estaria a bater assim a esta hora?
Será o capeta?
Eu morri naquele dia e não me contaram?
BUM. BUM. BUM.
O som reverbera de novo no meu apartamento .
Então eu não morri, mas quem será ?
Eu não costumo a receber visitas no meio da madrugada.
Me levanto da cama.
— Quem é? — pergunto, a minha voz saindo meio trémula enquanto caminho em direção à sala, tentando não mancar.
Pego no cabo de uma vassoura que estava perto da cozinha, a única "arma" que tenho à mão.
O silêncio do apartamento é quebrado apenas pela minha respiração acelerada.
Aproximo-me da porta e olho pelo olho mágico, mas a luz do corredor está baça. Consigo ver apenas uma silhueta alta e imponente.
— Sou eu, Inara. Abra a porta. É o Liam.
O motorista. O homem que me deixou no centro da cidade há poucas horas. O meu coração dispara ainda mais, mas desta vez não é apenas medo, é confusão. O que é que ele está aqui a fazer a esta hora?
Rodo a chave com as mãos a tremerem e abro a porta apenas uma fresta, mantendo a corrente de segurança. O Liam está ali, parado no corredor, com o seu fato escuro impecável, mas o seu rosto está tenso.
Ele parece ter corrido uma maratona.
— Liam? O que aconteceu? — pergunto, a voz carregada de alerta. — São duas da manhã! O que estás aqui a fazer?
— Precisa de vir comigo agora, Inara — diz ele, e a urgência na voz dele é palpável. — Não há tempo para explicações. O patrão mandou-me buscar.
É a Chloé.
O nome da menina faz a minha guarda baixar instantaneamente.
— A Chloé? Ela está bem? O que aconteceu com minha piccola? — O meu coração aperta-se.
— Ela está com uma febre altíssima e não para de chamar por si. A situação está a fugir do controlo da senhora Samantha— Liam dá um passo em frente, olhando-me nos olhos. — Por favor, Inara. Vista qualquer coisa e vamos. O Senhor Knight não é um homem que gosta de esperar, e ele deu ordens claras: eu não volto para casa sem si.
Olho para o Liam, depois para o interior do meu apartamento vazio. Eu devia dizer que não. Devia dizer que não sou médica, que literalmente o seu patrão me odeia , mesmo eu não sabendo do porquê e que não tenho nada a ver com aquela família.
Mas a imagem do rosto sofrido da minha Piccola invade a minha mente.
— Dá-me um minutos — digo,adentrando , e vou e vou para a minha pequena poltrona velha e o puxo o meu sobretudo .
Eu sei que estou a caminhar direto para a boca do lobo. Eu sei que voltar para aquela mansão significa enfrentar o Sebastian Knight de novo. Mas se aquela criança precisa de mim... eu não consigo virar as costas.
— Vamos,estou pronta.
……….
Se alguém me dissesse, há 5 dias atrás , que eu estaria cruzando Manhattan às três da manhã, num SUV preto blindado, vestindo o meu pijama de flanela com desenhos de ursinhos e um sobretudo encardido, eu chamaria essa pessoa de louca.
Mas aqui estou eu. Despenteada com o cabelo loiro até abunda como o r**o de um cavalo a galope, e com o coração na boca e o homem que quase me matou e que eu jurei dar-lhe com as minhas muletas da cabeça, mas eu me esqueci , mas tudo bem ele parece ser uma boa pessoa desastrado igual eu mas tudo bem.
Enfim.
O carro trava em frente à mansão dos Knight, eu nem avia me apercebido o liam correu muito. Salto para fora, quase tropeçando nas minhas próprias pernas , o tornozelo ainda dói , mas tenho que continuar pela minha piccola que está a minha espera, ignoro a dor lancinante no meu tornozelo e começo a adentrar a mansão.
— Ei! Espera! Inara! — o liam grita, mas eu já estou lá dentro.
Corro pelo hall de entrada, o som dos meus passos batendo no mármore ecoando como tiros , fofos por causa das pantufas de urso que eu amo.
Continuo correndo, o Massimo que eu consigo.
Eu não ligo para a decoração cara, para os quadros que valem mais do que o meu bairro inteiro ou para o fato de eu estar parecendo uma sobrevivente de um furacão.
Eu só penso naqueles olhinhos azuis. Na minha Piccola.
Subo as escadas aos tropeços, arquejando.
Sem saber por onde eu estou indo, só segui a força que me puxava para ela .
Quando chego ao topo do corredor, vou de porta em porta e finalmente de pois de segundos que pareceram horas vejo uma porta entreaberta. Uma luz suave escapa de lá, junto com o som de uma voz que eu ouvi só uma voz mas nunca vou ser capaz de esquecer.
Empurro a porta com força.
— Piccola! — o meu grito sai rasgado, desesperado.
O quarto é imenso, mas parece pequeno demais para a tensão que paira ali. A senhora Samantha está num canto, com o rosto preocupado e perto dos armários de livros estava um homem , quase da mesma altura que o sebatian , com o cabelo preto e olhos âmbar .
E no centro de tudo, sentado na beira da cama, está Sebastian Knight.
Ele não está mais com o terno impecável, como naquele dia no parque, nem com uma calça jeans como no jardim.
A camisa branca está desabotoada no colarinho, as mangas dobradas revelando as tatuagens que me fascinaram antes, e o cabelo... o cabelo que parecia seda está todo bagunçado, como se ele tivesse passado as mãos ali centenas de vezes em puro desespero.
Ele levanta a cabeça quando me vê.
Nossos olhares se cruzam no ar como se duas tempestades tivessem colidido. O azul dos olhos dele, que antes era puro gelo e desprezo, agora está turvo. Há medo ali. Uma vulnerabilidade que eu nunca imaginei ver num homem como ele.
Ele abre a boca para falar — talvez para me expulsar de novo, talvez para exigir algo — mas eu não dou chance.
— Sai da frente, Sebastian! — rosno, passando por ele como um furacão de pijama.
Eu não espero permissão. Eu não peço licença. Eu simplesmente me lanço na cama e puxo o corpinho quente e trêmulo da Chloe para os meus braços.
Ela está queimando em febre.
— Piccola mia, io sono qui, andrà tutto bene, ok? Andrà tutto bene. Guardami, io sono qui. Io sono qui, ok amore mio?.
(Minha pequena, eu estou aqui, vai ficar tudo bem, tá? Vai ficar tudo bem. Olhe para mim, eu estou aqui. Eu estou aqui, tá meu amor? )
Sinto as lágrimas dela molharem o meu ombro enquanto ela se agarra à minha camisola como se eu fosse a única coisa sólida num mundo que está desabando.
— Shhh... eu estou aqui, Piccola. Eu voltei. A Ina não vai a lugar nenhum.
Nesse momento, o silêncio no quarto é absoluto. Olho por cima do ombro e vejo Sebastian Knight imóvel. Ele me observa com uma mistura de choque e algo que eu não consigo decifrar. O "Imperador de Gelo" parece ter sido atingido por um raio.
Ele sabe. Eu sei. Todos naquele quarto sabem.
Ele pode ter todo o dinheiro do mundo, todas as armas e todo o poder de Nova York... mas, neste momento, quem tem o controle sou eu. A desastrada de pijama de ursinhos.