O motor do carro roncava suavemente enquanto Elaine observava a estrada sinuosa à sua frente. A madrugada já havia cedido espaço para o amanhecer, tingindo o céu com tons suaves de laranja e azul. O silêncio entre ela e Helena era quase tão denso quanto os segredos que pairavam sobre elas.
Depois da conversa tensa na noite anterior, Helena não havia pressionado Elaine para explicar como sabia sobre Gabriel. Mas a mudança em seu comportamento foi evidente. Menos toques, menos sorrisos, mais olhares calculados.
Helena dirigia com as mãos firmes no volante, os olhos âmbar fixos na estrada.
— Você está muito calada — disse ela, quebrando o silêncio.
Elaine deu de ombros, fingindo desinteresse.
— Ainda tentando entender tudo isso. Você me arrastou para essa estrada sem me dizer para onde estamos indo.
Helena soltou um suspiro.
— Um lugar seguro.
Elaine soltou um riso seco.
— Seguro para quem?
Os olhos de Helena brilharam por um instante, mas ela não respondeu imediatamente. O silêncio se prolongou até que, finalmente, ela murmurou:
— Para todos nós.
A resposta enigmática apenas aumentou a inquietação de Elaine. Mas antes que pudesse insistir, Helena virou repentinamente para uma estrada secundária de terra.
Elaine olhou ao redor. Nada além de árvores altas e a neblina matinal cobrindo o solo úmido.
— Isso está parecendo cada vez mais um filme de terror — comentou.
Helena sorriu de lado.
— Você tem medo?
Elaine cruzou os braços.
— Tenho medo do que não conheço.
Helena desviou o olhar da estrada por um breve momento e a encarou.
— Então está na hora de conhecer Gabriel.
O nome fez o estômago de Elaine revirar.
Afinal, quem realmente era esse homem? E por que parecia ser a chave de tudo o que estava acontecendo?
O carro seguiu por mais alguns minutos até que Helena finalmente estacionou diante de uma cabana discreta, escondida entre as árvores.
Helena desligou o motor e virou-se para Elaine.
— Chegamos.
Elaine engoliu seco. De alguma forma, sentia que, ao cruzar aquela porta, nada mais seria como antes.
E talvez, naquele lugar isolado, encontrasse as respostas que tanto procurava.
Ou novos segredos que poderiam mudar tudo.
A noite já havia caído quando Helena e Elaine voltaram para a estrada. O carro cortava o asfalto como uma sombra veloz, os faróis iluminando a escuridão adiante. Dentro do veículo, o silêncio pesava, quebrado apenas pelo som suave do rádio tocando uma melodia blues de fundo.
Elaine observava as luzes da cidade distante, cada vez mais próximas, enquanto sua mente girava com perguntas sem resposta. O nome Gabriel ecoava como um enigma em sua mente.
— Você ainda não me disse quem ele é de verdade — disse Elaine, cruzando os braços e olhando para Helena.
Helena, que dirigia com uma expressão neutra, lançou-lhe um olhar de canto antes de voltar os olhos para a estrada.
— Ele é alguém que pode nos ajudar.
— Ajudar em quê, exatamente? — Elaine insistiu, arqueando uma sobrancelha.
Helena soltou um suspiro baixo, como se já esperasse essa pergunta.
— Gabriel é alguém que entende o jogo. Ele sabe como Victor pensa. E sabe como sair vivo disso.
O nome de Victor fez um arrepio percorrer a espinha de Elaine.
— E por que tenho a sensação de que ele é mais do que isso para você?
Helena sorriu de leve, um sorriso sem humor.
— Porque você é esperta.
Elaine sentiu um frio na barriga, mas manteve a expressão impassível.
— O que aconteceu entre vocês?
— O passado — respondeu Helena, curta.
O silêncio se estendeu novamente. Elaine sabia que não adiantava pressionar mais. Helena só revelava o que queria, quando queria.
Pouco tempo depois, as luzes neon começaram a piscar no horizonte. O bar, um estabelecimento discreto e decadente na beira da cidade, emanava uma aura de perigo e mistério. O letreiro piscava em vermelho e azul, formando a palavra "Inferno" em letras gastas.
Helena estacionou e virou-se para Elaine antes de sair do carro.
— Fique atenta. Gabriel pode ser encantador, mas nunca confie completamente nele.
Elaine ergueu a sobrancelha.
— Engraçado. Disseram o mesmo sobre você.
Helena riu baixinho e abriu a porta do carro.
— Então você está aprendendo rápido.
Com isso, ela saiu, deixando Elaine sozinha por um instante. Respirando fundo, Elaine também desceu do carro e seguiu Helena até a entrada do bar.
Ao atravessar aquelas portas, ela sentia que estava prestes a conhecer não apenas Gabriel, mas uma parte do jogo perigoso no qual agora estava envolvida.
E não havia mais como voltar atrás.
— Esse olhar de quem carrega o peso do mundo não combina com você — comentou Helena, inclinando-se ligeiramente para perto.
Elaine sorriu de canto, reconhecendo o jogo.
— E você tem o olhar de quem gosta de decifrar segredos — rebateu, levantando a taça de vinho.
Foi nesse momento que Gabriel apareceu, encostando-se ao balcão ao lado delas. Ele vestia um terno escuro sem gravata, o olhar afiado percorrendo as duas mulheres com um misto de curiosidade e diversão.
— Acho que cheguei no momento certo — disse, com um sorriso calculado.
Helena ergueu uma sobrancelha.
— Depende. Você gosta de enigmas?
Gabriel segurou o olhar dela por um instante, depois o desviou para Elaine.
— Só se forem difíceis de resolver.
O jogo de olhares entre os três era um campo minado, um prelúdio para algo que nenhum deles conseguia nomear, mas que todos sentiam. Entre frases sugestivas e toques sutis, o destino começava a trançar os fios de um triângulo perigoso e inevitável. m*l sabiam eles que aquele encontro não era um acaso, mas sim o início de um jogo que mudaria suas vidas para sempre.
Helena riu baixinho, levando o copo de vinho aos lábios.
— Você parece um homem que gosta de desafios — provocou.
— E vocês parecem mulheres que não gostam de entregar respostas facilmente — rebateu Gabriel, inclinando-se levemente para mais perto.
Elaine observou os dois com interesse, sentindo o jogo se intensificar. Com um movimento sutil, girou a taça em mãos e lançou um olhar sugestivo a Gabriel.
— Talvez algumas respostas sejam mais interessantes quando demoramos para descobri-las.
Gabriel sorriu de lado, intrigado.
— Então me deem uma pista. O que trouxe vocês aqui esta noite?
Helena trocou um olhar rápido com Elaine antes de responder.
— Digamos que estamos em busca de… distrações intrigantes.
Gabriel estreitou os olhos, estudando-as. Havia algo neles três, uma energia inegável que crescia a cada troca de palavras. Ele pousou o copo sobre o balcão e inclinou-se levemente para frente.
— Acho que encontrei a minha distração da noite — murmurou, o olhar percorrendo ambas com intensidade.
Elaine mordeu o lábio, inclinando-se também.
— Cuidado, Gabriel… às vezes, distrações podem se tornar vícios.
O silêncio que se seguiu foi carregado de promessas não ditas. O primeiro jogo de sedução estava apenas começando, mas nenhum deles poderia imaginar que aquela noite seria o início de algo muito mais perigoso e irresistível do que poderiam prever.
Gabriel inclinou-se um pouco mais, sua voz baixa e provocante.
— E vocês, gostam de jogar?
Helena deslizou um dedo pelo aro da taça antes de responder.
— Apenas quando o prêmio vale a pena.
Elaine sorriu, observando Gabriel.
— Mas há uma condição: só jogamos se as regras forem nossas.
Gabriel arqueou a sobrancelha, um brilho de desafio no olhar.
— Justo. Mas me digam… qual será a primeira jogada?
Helena e Elaine trocaram um olhar cúmplice antes de Helena se inclinar para sussurrar no ouvido de Gabriel.
— Você vai ter que descobrir.
O jogo estava lançado, e a tensão entre os três só crescia. Naquela noite, sob as luzes suaves do bar e o mistério que os envolvia, o destino começava a escrever um capítulo perigoso e irresistível. Aquele encontro não era apenas um acaso — era o início de algo que ninguém poderia controla
A noite avançava, e o jogo entre Gabriel, Elaine e Helena se tornava cada vez mais intenso. As faíscas entre os três não eram apenas de atração, mas também de uma conexão inexplicável, um reconhecimento mútuo que ia além do desejo. No fundo, cada um sentia que aquele encontro não era um simples acaso.
Gabriel observava as duas mulheres diante dele. Elaine, com sua elegância fria e olhar calculista, escondia segredos nos gestos contidos e nas palavras medidas. Helena, por outro lado, tinha uma intensidade vibrante, uma chama que parecia prestes a consumir tudo ao seu redor. Ambas o intrigavam, e ele sabia que essa noite seria apenas o começo.
— Então — Gabriel retomou, brincando com o gelo em seu copo —, já que as regras são de vocês, como seguimos daqui?
Elaine sorriu, encostando-se ao balcão, o vestido justo moldando seu corpo escultural.
— Primeiro, terminamos nossas bebidas — disse, levantando a taça de vinho como um convite.
Helena acompanhou o gesto, os lábios pintados de vermelho curvando-se em um sorriso provocante.
— Depois… — Ela fez uma pausa, como se saboreasse a expectativa no olhar de Gabriel. — Vemos até onde a noite nos leva.
Ele segurou a taça de whisky e brindou com as duas, sentindo o calor crescente entre eles. O bar, antes um simples cenário, agora parecia um palco onde os três encenavam um jogo de tensão e mistério.
O tempo passou entre conversas insinuantes e olhares carregados de promessas. O toque sutil das mãos, os sorrisos velados, a forma como os corpos se aproximavam sem pressa — tudo contribuía para uma dança silenciosa de sedução.
Quando finalmente decidiram sair, a cidade noturna parecia conspirar a favor deles. As ruas iluminadas, o vento suave, a eletricidade no ar. Caminharam juntos, os passos sincronizados como se já estivessem acostumados a essa sintonia.
Gabriel parou diante do carro, virando-se para encará-las. Seus olhos escuros refletiam um desejo controlado, mas voraz.
— E então? — Sua voz era um desafio velado. — Ainda estão dispostas a jogar?
Elaine trocou um olhar com Helena antes de responder, sua voz um sussurro carregado de malícia.
— Desde que você esteja preparado para perder.
Helena riu, aproximando-se de Gabriel o suficiente para que ele sentisse a respiração quente contra sua pele.
— Ou para ganhar muito mais do que imagina.
O silêncio entre eles não era vazio, mas cheio de possibilidades. Naquela noite, algo havia sido selado. E, por mais que o desejo os conduzisse, o destino já havia traçado um caminho muito mais perigoso e irresistível.
Eles apenas ainda não sabiam.