O céu estava nublado naquela tarde, como se a própria natureza sentisse o peso no ar da fazenda. O trio ainda vivia em aparente harmonia, mas agora... havia trincas invisíveis surgindo em cada canto.
Gabriel passou o café em silêncio. Os olhos atentos demais ao que não dizia. Helena sentou-se à mesa, sem cumprimentá-lo, o bilhete ainda dobrado no bolso do roupão. Elaine entrou por último, o cabelo preso num coque bagunçado, os olhos atentos a cada micro expressão.
— Dormiram bem? — ela perguntou, tentando soar casual.
— Não. — Helena respondeu, direta. — E você?
— Não também — Gabriel murmurou, entregando a xícara a Elaine sem encará-la.
A ruiva franziu o cenho, mas manteve o sorriso.
— Que ótimo clima, né?
Silêncio.
Apenas o som do vento batendo nas janelas e o leve gotejar da cafeteira preenchiam a cozinha.
—
Mais tarde, Gabriel voltou à oficina, mas não para trabalhar. Sentado ao lado do painel elétrico, ligou um minúsculo dispositivo e acessou o histórico das câmeras de segurança... descobriu que alguém havia deletado parte dos registros da semana anterior.
— Não fui eu — murmurou.
E pela primeira vez... suspeitou de Elaine.
—
Na calada da noite, Helena saiu da casa com passos silenciosos. Levava uma lanterna e um velho gravador de voz. Havia algo escondido naquela fazenda — e não era apenas tensão.
Dentro do galpão, encontrou caixas trancadas, mas uma delas estava com o cadeado solto. Dentro, registros bancários, documentos com nomes falsos, e um celular descartável.
Ela ligou.
Uma única mensagem de voz gravada:
“O contato em Marselha confirmou. Os rastros foram limpos, mas o trio ainda é monitorado. Precisamos do catalisador. O caos precisa começar de dentro.”
Helena parou. O nome do contato? “E.”
Ela arregalou os olhos.
— Elaine?
—
Na cidade, Arthur observava Rafael de longe. O amigo (ou sócio?) havia mudado. Estava mais frio, mais calculista.
— Você está escondendo algo de mim? — perguntou Arthur, encarando-o por cima do copo de uísque.
Rafael o fitou por um instante longo.
— E se estiver?
— Então quero saber se faz parte do nosso plano... ou do seu.
Rafael se levantou e respondeu com um sussurro:
— Eu não confio em ninguém que sente demais.
Arthur entendeu. Mas isso só piorava sua paranoia. E sua saudade.
—
Naquela mesma noite, Elaine estava no quarto, escrevendo em seu caderno de anotações. Gabriel entrou em silêncio.
— Podemos conversar? — ele perguntou.
Ela fez que sim, mas não parou de escrever.
— Você confia em mim, Elaine?
Ela parou a caneta, mas não olhou para ele.
— Confiança é uma moeda perigosa.
— E você ainda me deve algumas.
Ela fechou o caderno e se virou.
— Você quer mesmo saber a verdade, Gabriel? Porque talvez ela doa mais do que a dúvida.
Ele se aproximou devagar, e por um instante, parecia que tudo voltaria ao normal... mas o olhar de Elaine estava distante. Como se já estivesse em outro lugar.
—
Do alto do morro atrás da fazenda, alguém observava com binóculos térmicos.
A voz saiu abafada por trás de um fone:
— Todos posicionados. Eles estão começando a se quebrar. O catalisador virá por dentro. Ela vai nos dar o que queremos... cedo ou tarde.
Na tela do tablet, uma imagem congelada: Elaine, sorrindo, com os olhos verdes brilhando... e um ponto vermelho marcando a lateral do seu pescoço.
—
As noites na fazenda haviam se tornado mais silenciosas — mas não mais tranquilas.
Helena terminava de fechar as janelas enquanto Gabriel revisava o sistema de vigilância. Elaine, sentada à frente da lareira, mantinha os olhos fixos nas chamas, mas sua mente vagava longe.
— Alguém mexeu nas câmeras do lado norte. — Gabriel disse de repente, sua voz firme, mas tensa.
— Como assim? — Helena se aproximou.
— O código de atualização foi inserido duas vezes... e com um pequeno atraso entre cada linha. Parece humano demais para ser falha técnica.
Helena olhou para a tela, depois para ele.
— Você acha que nos acharam?
— Não tenho certeza. Mas alguém está testando o terreno. Alguém que sabe como encobrir rastros.
Elaine se levantou devagar, os olhos verdes brilhando sob a luz da lareira.
— Talvez não seja o que parece.
— Ou talvez seja exatamente isso. — Gabriel respondeu.
—
Durante a noite, uma figura atravessou a plantação desativando sensores com habilidade precisa, quase coreografada. Usava equipamento escuro e movimentos suaves. Um ruído mínimo no sistema elétrico da fazenda foi suficiente para acionar uma sequência de pequenos alertas no computador de Gabriel. Mas ao revisar... nada estava lá. Como se fosse tudo imaginação.
No dia seguinte, o trio encontrou marcas de pneu perto da trilha principal — recentes. Não eram do carro deles. Helena seguiu o rastro com cautela, mas ele desaparecia pouco antes da entrada da estrada principal, como se o carro tivesse sido levantado ou carregado.
— Isso é profissional. — ela murmurou.
Gabriel assentiu, os punhos cerrados. Havia alguém inteligente por trás daquilo. Inteligente e pessoal.
—
Na manhã seguinte, uma pequena caixa de madeira apareceu misteriosamente na varanda da casa. Sem marcas. Sem digitais. Dentro, apenas um objeto simples, porém perturbador: um medalhão antigo, com o símbolo da organização que Gabriel abandonara anos antes — o símbolo que só os agentes de elite conheciam.
Ele congelou ao ver.
— Isso... isso não pode estar aqui.
Elaine se aproximou, o olhar curioso.
— O que é?
— Um aviso. — ele disse, quase sem voz.
— De quem? — Helena perguntou.
Gabriel não respondeu. Apenas olhou para o horizonte, o medalhão fechado na palma da mão. O peso do passado havia voltado — e ele sentia que estava prestes a cobrar tudo que ele havia esquecido.
—
Longe dali, uma sala escura com monitores e equipamentos de escuta. Uma mulher, de costas, observava os movimentos do trio. Um sorriso imperceptível curvou seus lábios quando viu Gabriel segurar o medalhão.
Ela tocou levemente a tela com a ponta do dedo.
— Hora de reacender as memórias, meu querido.