Tudo começou com pequenas mensagens deixadas nas redondezas da fazenda: anotações em postes, símbolos em pedras, marcas antigas que Gabriel reconheceu de sua antiga organização.
Na terceira noite, Elaine encontrou uma carta sob a sua almofada — um texto que insinuava uma traição de Gabriel no passado, escrita com uma caligrafia delicada. O conteúdo era vago, mas certeiro: “Ele já enganou outros antes… o que o impede de enganar você também?”
Ela não comentou com ninguém. Mas ficou em silêncio o resto do dia, observando Gabriel com um novo tipo de olhar.
Na madrugada seguinte, enquanto Gabriel saía para inspecionar a cerca perimetral, Helena encontrou um bilhete no bolso do casaco de Elaine. Nele, a mesma caligrafia da carta anterior: “Ela ainda pensa em Arthur.”
Helena congelou.
Guardou o bilhete. Não disse nada. Mas durante o café da manhã, a tensão entre ela e Elaine era palpável — olhares trocados, silêncios prolongados.
Gabriel percebeu.
— Está tudo bem? — ele perguntou, olhando para as duas.
— Está. — disseram as duas ao mesmo tempo.
Mentira.
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Na sala escura da organização, a mulher de olhos frios — a figura misteriosa — analisava os arquivos do trio.
Ela parou diante de uma imagem de Gabriel, mais jovem, ainda com o olhar endurecido de um agente.
— Você podia ter me amado. — murmurou, passando os dedos pelo rosto dele na tela. — Mas preferiu fugir com elas.
Cora, a antiga estrategista do núcleo especial da organização, tinha feito mais do que guardar rancor. Tinha construído uma rede, silenciosa e letal, para recuperar o que ela achava que era seu.
E Gabriel era só o começo.
Naquela noite, alguém desligou a energia da fazenda por exatos três minutos. Quando a luz voltou, um colar de Elaine estava pendurado na maçaneta da porta de entrada, com um bilhete:
"Você é a fraqueza dele. E eu vou usá-la."
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Helena começou a acordar no meio da noite. Sempre com a mesma sensação: alguém a observava. Na quarta noite, jurou ter ouvido passos do lado de fora da casa, mas Gabriel não encontrou nada — exceto uma pena vermelha na soleira da porta. Um símbolo que só ele reconheceu.
No passado, a pena vermelha era o aviso final antes de uma missão ser executada.
Ele não contou às meninas.
Mas passou a dormir com a arma sob o travesseiro.
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Elaine começou a agir de forma mais distante. À noite, permanecia na varanda por longos minutos, sozinha, olhando para o escuro. Gabriel a observava de longe. Já Helena mantinha uma vigilância silenciosa, com os olhos âmbar sempre atentos — mas dessa vez, havia algo mais neles. Cansaço. Insegurança.
Na manhã seguinte, o velho rádio de pilha começou a transmitir chiados — entrecortados por vozes distorcidas. Em uma delas, um trecho da voz de Arthur pôde ser ouvido:
"— Ela ainda me pertence…"
O rádio se calou logo depois.
Gabriel o desmontou e encontrou um micro transmissor embutido. Não era algo comprado em loja comum. Era tecnologia da organização.
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À medida que os dias passavam, Helena se tornava mais fechada. Um ciúme surdo tomava conta dela, e não era apenas de Elaine. Era de Gabriel também. Os dois pareciam guardar segredos… E ela sentia que estava sendo deixada de fora.
Elaine, por sua vez, começou a desconfiar de tudo — até de Helena. Uma noite, encontrou no quarto da morena um colar que havia desaparecido semanas atrás. Não questionou. Mas os olhos verdes ficaram frios, analíticos.
O trio, antes coeso, estava rachando por dentro.
Gabriel tentava manter a calma, mas sua mente voltava para um nome que ele não queria pronunciar. Cora.
Ela era especialista nisso: quebrar alianças, provocar falhas. Ele já tinha visto ela fazer isso dezenas de vezes — com inimigos. Mas agora… eles eram o alvo.
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Certa manhã, depois de um banho de Elaine, ela saiu do banheiro e viu a mensagem escrita no espelho embaçado com batom vermelho:
"Você sabe que eles não vão te escolher no fim."
Ela encarou a frase por longos minutos.
Não apagou.
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Gabriel deixou a casa no fim da tarde e dirigiu até a vila mais próxima. Sozinho. Foi buscar suprimentos, mas também precisava de silêncio — e espaço para pensar. No caminho, parou o carro no acostamento. Respirava com dificuldade.
As lembranças vieram como pancadas: Cora sorrindo, Cora sangrando, Cora beijando-o contra a parede de uma missão perdida.
Ela era um erro que ele não conseguiu corrigir.
Agora, parecia que esse erro voltava para cobrar tudo.
Ele voltou para casa depois das onze da noite. As luzes estavam apagadas. E por um instante, ele sentiu o coração gelar.
Mas então viu: Elaine e Helena estavam na varanda. De mãos dadas, em silêncio. As duas olharam para ele, mas sem dizer uma palavra.
O silêncio foi pior do que qualquer discussão.
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