O Triângulo e a Espiral

1075 Palavras
De volta à fazenda, Elaine sentia o peso das palavras de Helena e o olhar vigilante de Gabriel. O que antes era um refúgio de amor e confiança, agora se tingia com tons de dúvida e paranóia. — Precisamos agir — disse Helena. — Antes que esse elo fraco quebre tudo. Gabriel apertou o punho. — Eu já tenho uma ideia. — E se for tarde demais? — Elaine sussurrou, os olhos vidrados em algo que só ela via. — E se a traição já tiver começado há muito tempo? A fazenda estava silenciosa demais naquela tarde. Helena subia a trilha que levava à parte alta da propriedade com uma garrafa de vinho em uma das mãos e a outra segurando o casaco contra o vento frio. Lá de cima, podia ver o galpão, a casa principal e, mais ao fundo, a pequena estufa de Elaine. Mas não era isso que chamava sua atenção. Era a sensação. Aquela pontada incômoda no peito, como se alguém estivesse escondendo algo. Como se um passo em falso fosse suficiente para fazer tudo desmoronar. Ela não disse nada quando voltou, mas seus olhos passaram por Gabriel com mais cuidado. E, quando viu Elaine distraída no sofá, digitando no celular, algo dentro dela apertou. — Quem era? — perguntou casualmente. Elaine ergueu os olhos, surpresa. — O quê? — A mensagem. Você pareceu... afetada. Elaine franziu o cenho. — Era só o jardineiro da antiga fazenda. Estava perguntando se eu queria os livros de contas antigos. Helena assentiu, mas não respondeu. Algo estava fora do lugar. Rafael aguardava no saguão do prédio da antiga sede de Victor. As paredes ainda carregavam o cheiro frio do império que um dia fora construído com sangue e manipulação. Arthur descia as escadas, os olhos vermelhos como se não tivesse dormido. — Precisamos conversar — Rafael foi direto. — Se for sobre os relatórios de Macau, eu... — Não. É sobre o número que você ligou dezessete vezes na última semana. Arthur congelou. Os ombros endureceram. — Você anda fuçando meus registros agora? — Quando se está dormindo com o d***o, Arthur, é preciso verificar se ele ainda tem chifres. Arthur ficou em silêncio. Mas seus olhos se fecharam lentamente, como se calculasse o estrago que poderia vir a seguir. — Eu não sou o traidor, Rafael. — Então quem é? Arthur soltou uma risada amarga. — Talvez você devesse olhar mais para os seus. Você confia demais naquela ruiva, por exemplo. Rafael avançou um passo. — Cuidado com o que diz. — Só estou dizendo o óbvio: todos temos nossos segredos.Na fazenda, Gabriel instalava câmeras novas com sensores térmicos. Mas algo o incomodava. O sistema anterior fora sabotado — por dentro. Ele não falou nada ainda, mas já tinha três suspeitos. E uma certeza c***l: O inimigo estava entre eles. No quarto, Elaine recebeu uma mensagem no celular. Sem remetente. Sem assunto. Apenas uma linha: "Seu passado nunca esteve tão perto." Ela engoliu seco. E, por um instante, imaginou se era hora de contar a verdade sobre algo que todos achavam enterrado. Dante caminhava por uma galeria subterrânea, iluminado apenas pela luz fraca de uma lanterna. Ao seu lado, um capanga o seguia. — O infiltrado já entregou as plantas do local, senhor. Dante parou, girando a lâmina de uma faca entre os dedos. — Ótimo. Vamos deixá-los se devorarem entre si primeiro. Quando a confiança quebrar, eu entro. E tomo tudo de volta. Com juros. O capanga hesitou antes de perguntar: — E se descobrirem quem está passando informações? Dante sorriu, frio. — Então... teremos mais um corpo para esconder. O jantar naquela noite foi silencioso. Helena mexia na comida com o garfo, distraída. Gabriel alternava olhares entre ela e Elaine, que tentava manter uma conversa leve — falhando miseravelmente. — Eu pensei em ampliarmos a estufa — disse Elaine, tentando soar casual. — As condições aqui são melhores do que eu imaginava. Poderíamos cultivar mais ervas medicinais. Talvez até montar um negócio local, como fachada... — Desde quando você quer montar fachada de novo? — interrompeu Gabriel, a voz mais dura do que pretendia. Elaine o encarou, surpresa. — Estou só pensando no futuro. Isso não é r**m, é? Helena apoiou o queixo na mão. — Depende. Quando alguém pensa demais no futuro, geralmente está escondendo algo do presente. O silêncio que se seguiu foi cortante. Gabriel empurrou a cadeira para trás e se levantou. — Terminem sem mim. — Mais tarde, Gabriel desceu até o porão da fazenda. O sistema de vigilância mostrava um ponto estranho nos registros: alguém acessou o servidor às três da manhã na noite anterior. E não foi ele. O IP batia com o da própria casa. Ele gravou os logs em um pen drive e o trancou no cofre. Mas seu coração já acelerava — não era paranoia se alguém realmente estivesse traindo. — Na manhã seguinte, Helena encontrou uma caixa na varanda. Sem remetente. Dentro, um envelope com um bilhete datilografado: “Sua confiança é a arma deles. Use-a bem ou será usada por ela.” E junto ao bilhete, uma foto impressa: Gabriel entrando em uma van preta às escondidas, três meses atrás. Helena empalideceu. — Arthur batia os dedos contra o tampo da mesa. O relógio marcava 3:13 da manhã. Na tela, a localização de um rastreador que ele mesmo colocou na pulseira de Rafael há meses. A marca estava na sede antiga de Victor, local que Rafael garantiu ter abandonado. — Então ainda volta lá — murmurou Arthur. Mas por quê? Ele não queria acreditar, mas... será que Rafael estava montando seu próprio império, escondido? — Rafael observava as câmeras de segurança da sede secundária — o local onde um de seus informantes havia detectado movimentações estranhas. Ele suspeitava que Dante estava voltando. Mas havia algo pior: um dos codinomes usados nas comunicações interceptadas era "Gael" — nome que ele não ouvia há anos. Alguém do passado. Alguém que sabia demais. — Se esse cara aparecer... a guerra vai começar antes da hora. — Helena observava Gabriel no galpão, mãos sujas de óleo, ajustando peças de segurança. Ela se aproximou, lentamente, segurando a foto da van. — Gabriel... — O que foi? Ela hesitou. — O que você fez três meses atrás? Gabriel parou. Um segundo. Dois. — Eu fui buscar suprimentos. Ela mostrou a foto. — Naquela van? Ele não respondeu. E o silêncio, dessa vez, foi alto demais. —
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