— Amiga, tem certeza que não precisa de ajuda? — Nina pergunta pela milésima vez.
Lanço um olhar por cima do ombro para earia.la.
— Eu te disse que ia cuidar do almoço — respondo achando graça do seu desespero para ser útil. — Dá para você ficar sossegada tendo um pouco de descanso?
As sobrancelhas loiras se franzem e ela faz um biquinho em uma expressão chateada.
— É muito estranho ficar sem fazer nada.
— Eu sei, mas você tem que se acostumar a ter outra pessoa te ajudando, em vez de chamar toda a responsabilidade para si — replico e lhe dou as costas para voltar a picar os tomates. — Deixa as pessoas te ajudarem, pra variar.
— Eu deixo as pessoas me ajudarem! — protesta com a voz mais alta e os cachinhos pulam como molas quando ela salta da banqueta que estava sentada. — Só que eu gosto de ajudar também.
Suspiro e balanço a cabeça. Ela não vai desistir.
— Tá, faz um suco — cedo por fim. — Mas eu vou precisar usar o liquidificador rapidinho para fazer a polpa de tomate.
Termino de picar os tomates e os despejo no liquidificador para bater até conseguir uma polpa firme. Lavo o copo e Nina saltita na direção da geladeira. Ela pega alguns cajus congelados e coloca água no liquidificar enquanto eu pego o refratário que Nina achou e começo a montar a lasanha. Uma camada de molho à bolonhesa, uma de massa para lasanha, presunto, mussarela, molho branco e depois o oposto, finalizando com molho de bolonhesa e um pouco de queijo ralado no topo.
Coloco o refratário dentro do forno e defino o timer do meu celular para apitar em vinte minutos pois duvido que vá ouvir o forno quando ficar pronto.
Nina também termina o suco e coloca dentro de uma jarra bonita de vidro que leva à geladeira.
Lavo a louça enquanto minha amiga seca e guarda.
Como ainda temos algum tempo, vamos para o quarto que já não tem mais cara de hospital. Na verdade, agora ele está muito aconchegante com almofadas em tons de cinza e preto, roupa de cama cinza e alguns quadros apoiados na cabeceira. O tapete listrado em preto e branco ao pé da cama dá um pouco de personalidade ao ambiente, assim como o banquinho de pelúcia onde Nina está sentada. A mudança no ambiente foi bem suave e ainda assim mudou completamente a cara dele. De ambiente hospitalar passou a ser um quarto habitável e muito fofo.
— Você tá nervosa para o começo das aulas? — Nina pergunta repentinamente.
Deixo o celular de lado e olha para ela, surpresa.
— Não — respondo dando de ombros. Eu estava bastante animada, isso sim. Um monte de rapazes novos e bonitos para conhecer e festas universitárias para participar. Tudo isso bem longe da insuportável da minha mãe. Eu estava no paraíso. — Você tá?
Nina faz que sim com a cabeça.
— E se eu não fizer amigos? — pergunta com a voz baixa como se tivesse medo até mesmo de esboçar essa preocupação. Pobre Nina...
— Claro que você vai fazer amigos. Você é um anjo que atrai as pessoas com a sua luz.
Minha amiga sorri, mas a expressão preocupada não abandona seu rosto.
Suspiro e me levanto da cama macia.
Caminho até ficar bem do seu lado e a envolvo em um abraço pelos ombros.
— Eu vou estar lá, Nina — acrescento em voz baixa, respirando seu perfume de flor de laranjeira. — Você vai me ter por perto e, com o tempo, tenho certeza que vai fazer amigos. São cinco anos de curso, afinal de contas.
Ela parece pesar as minhas palavras cuidadosamente, inclinando a cabeça para uma lado.
— Tem razão — admite por fim, soltando o ar lentamente. — É só…. — ela engole em seco. — Não consegui me enturmar na escola. Claro que eu andava com o pessoal da igreja, mas não era a mesma coisa, sabe? Eu me sentia meio de fora com os amigos deles. As coisas deram uma melhorada nesse último ano, mas nunca me senti realmente incluída na escola.
Eu a solto do abraço.
— Você só ficou dois anos na cidade — comento dando de ombros. — Eles se conhecem desde as fraldas. Mas na faculdade todo mundo vai estar na mesma página, você vai ver. Vai ser ótimo.
Minha amiga não parece 100% convencida, mas meu celular apita informando que a lasanha está pronta.
Nina bate palminhas, animada, mas seus olhos castanhos ainda estão tristes, perdidos no futuro hipotético dentro da sua cabecinha loira.
— Vou arrumar a mesa — diz com uma animação forçada e eu faço que sim com a cabeça. Ela é a única pessoa que eu conheço que fica animada para fazer trabalho doméstico. Talvez isso ajude a melhorar o seu humor.
Assisto Nina pegar os talheres e os jogos americanos, assim como o suco, copos e talheres, os quais arruma perfeitamente alinhados como em um restaurante cinco estrelas.
Ela está radiante ao final da sua pequena arrumação.
— Chama o meu pai, por favor — pede com um sorriso. — Tenho que pegar o toque especial.
— Onde ele está? — pergunto, já que não vi quando Rafael chegou em casa.
— O escritório é aquela porta de vidro perto do lavabo — me instrui. — Só bate à porta e chama ele enquanto eu termino de arrumar tudo.
Faço que sim com a cabeça e me dirijo ao escritório. Esse apartamento parece um labirinto cheio de portas.
Bato à porta e a voz de Rafael se faz ouvir.
— Pode entrar — informa com a voz grave.
Deslizo a porta para o lado e me coloco no espaço aberto.
O escritório de Rafael é bem pequeno, com uma mesa de madeira escura que parece ser de madeira maciça. Uma estante de livros está na parede ao seu lado e outra na parede oposta, ao meu lado.
Rafael está sentado na cadeira acolchoada de couro com um par de óculos de leitura na cara que o deixa ainda mais impossivelmente gato.
Ele ergue o olhar na minha direção e sorri cordialmente, embora seus ombros estejam tensionados. Seu olhar escorrega pelo meu corpo, pela minha saia curta, e ele limpa a garganta se remexendo no assento como se algo o incomodasse.
— Posso ajudar, Natália? — pergunta com a voz baixa que me deixa arrepiada.
Enrolo uma mecha de cabelo castanho no dedo indicador. Deus, eu me sinto uma boba com esse crush nele.
— O almoço está pronto — informo tentando ao máximo não soar como uma i****a. — A Nina está arrumando a mesa e me pediu para te chamar.
Ele faz que sim com a cabeça e uma mecha de cabelo preto cai sobre seu olho. Rafael a afasta de forma distraída.
— Já estou terminando aqui — responde indicando o laptop prateado diante de si.
Coloco as mãos na cintura e entro no escritório. Assim como o resto da casa, o ambiente é incrivelmente gelado.
— Hoje é domingo. Você precisa descansar — aponto. — E a lasanha vai esfriar se você não andar logo. E ninguém merece comer lasanha fria.
Ele ri baixinho, um som rouco do fundo da garganta que me arrepia inteira.
— Você é uma fofa — comenta passando os dedos pelos cabelos escuros. — Eu já vou.
— Então vamos.
Ele me olha como se eu fosse louca, o que é compreensível.
— Eu preciso apresentar esses dados para o meu chefe em uma reunião amanhã.
— Você pode fazer isso mais tarde — sugiro. — Vem, a Nina está toda animada para nós três comermos juntos.
— Você é insistente, não é? — murmura, mas afasta a cadeira da mesa e se levanta.
— Eu sempre consigo o que eu quero — sorrio concordando. — Em geral pelo cansaço.
Ele ri uma risada baixa e rouca até parar bem ao meu lado.
— Isso eu percebi — responde em um sussurro contra a minha orelha que me deixa toda arrepiada.
Uma mão pesada circula meu ombro.
Ele está flertando comigo?
Se a resposta for sim, então esse é um jogo para dois.
Mordo o lábio inferior e sorrio.
— Vamos comer? — oferece.
Desço o olhar pelo seu peito dentro da camisa social branca. Sua respiração está acelerada, assim como a minha.
Ergo o olhar para o seu rosto. Ele está terrivelmente perto do meu. As pupilas escuras quase engolem o azul, e seu olhar desce dos meus olhos para minha boca.
Encurto ainda mais a distância entre nossos rostos, até poder sentir a sua respiração.
Meu celular vibra no bolso e Rafael se afasta, piscando como se saísse de um transe.
— É melhor você ir — informa. Sua voz baixa está um pouco sem ar. — Preciso lavar as mãos e já encontro vocês.
Ele não me dá muita opção e me empurra com um movimento leve, mas firme para fora da sua sala.
Por um segundo, tudo o que eu faço é olhar para o ambiente branco à minha frente.
Eu não estava louca, estava? Ele tinha correspondido ao flerte.
No entanto, eu sei que não posso fazer mais que isso. Ele é o pai de Nina, e ela é a minha melhor amiga. Não posso cair na tentação. Não posso desapontá-la.
Respiro fundo e esfrego a testa.
Natália, o que você está fazendo?, pergunto para mim mesma. Infelizmente, não tenho nenhuma resposta para isso. Tudo o que eu sei é que eu não tenho controle sobre mim mesma quando estou no mesmo ambiente que Rafael. E isso é muito excitante.