Flerte

1621 Palavras
— Amiga, tem certeza que não precisa de ajuda? — Nina pergunta pela milésima vez. Lanço um olhar por cima do ombro para earia.la. — Eu te disse que ia cuidar do almoço — respondo achando graça do seu desespero para ser útil. — Dá para você ficar sossegada tendo um pouco de descanso? As sobrancelhas loiras se franzem e ela faz um biquinho em uma expressão chateada. — É muito estranho ficar sem fazer nada. — Eu sei, mas você tem que se acostumar a ter outra pessoa te ajudando, em vez de chamar toda a responsabilidade para si — replico e lhe dou as costas para voltar a picar os tomates. — Deixa as pessoas te ajudarem, pra variar. — Eu deixo as pessoas me ajudarem! — protesta com a voz mais alta e os cachinhos pulam como molas quando ela salta da banqueta que estava sentada. — Só que eu gosto de ajudar também. Suspiro e balanço a cabeça. Ela não vai desistir. — Tá, faz um suco — cedo por fim. — Mas eu vou precisar usar o liquidificador rapidinho para fazer a polpa de tomate. Termino de picar os tomates e os despejo no liquidificador para bater até conseguir uma polpa firme. Lavo o copo e Nina saltita na direção da geladeira. Ela pega alguns cajus congelados e coloca água no liquidificar enquanto eu  pego o refratário que Nina achou e começo a montar a lasanha. Uma camada de molho à bolonhesa, uma de massa para lasanha, presunto, mussarela, molho branco e depois o oposto, finalizando com molho de bolonhesa e um pouco de queijo ralado no topo. Coloco o refratário dentro do forno e defino o timer do meu celular para apitar em vinte minutos pois duvido que vá ouvir o forno quando ficar pronto. Nina também termina o suco e coloca dentro de uma jarra bonita de vidro que leva à geladeira.  Lavo a louça enquanto minha amiga seca e guarda.  Como ainda temos algum tempo, vamos para o quarto que já não tem mais cara de hospital. Na verdade, agora ele está muito aconchegante com almofadas em tons de cinza e preto, roupa de cama cinza e alguns quadros apoiados na cabeceira. O tapete listrado em preto e branco ao pé da cama dá um pouco de personalidade ao ambiente, assim como o banquinho de pelúcia onde Nina está sentada. A mudança no ambiente foi bem suave e ainda assim mudou completamente a cara dele. De ambiente hospitalar passou a ser um quarto habitável e muito fofo. — Você tá nervosa para o começo das aulas? — Nina pergunta repentinamente. Deixo o celular de lado e olha para ela, surpresa. — Não — respondo dando de ombros. Eu estava bastante animada, isso sim. Um monte de rapazes novos e bonitos para conhecer e festas universitárias para participar. Tudo isso bem longe da insuportável da minha mãe. Eu estava no paraíso. — Você tá? Nina faz que sim com a cabeça. — E se eu não fizer amigos? — pergunta com a voz baixa como se tivesse medo até mesmo de esboçar essa preocupação. Pobre Nina... — Claro que você vai fazer amigos. Você é um anjo que atrai as pessoas com a sua luz. Minha amiga sorri, mas a expressão preocupada não abandona seu rosto. Suspiro e me levanto da cama macia. Caminho até ficar bem do seu lado e a envolvo em um abraço pelos ombros. — Eu vou estar lá, Nina — acrescento em voz baixa, respirando seu perfume de flor de laranjeira. —  Você vai me ter por perto e, com o tempo, tenho certeza que vai fazer amigos. São cinco anos de curso, afinal de contas. Ela parece pesar as minhas palavras cuidadosamente, inclinando a cabeça para uma lado. — Tem razão — admite por fim, soltando o ar lentamente. — É só…. — ela engole em seco. — Não consegui me enturmar na escola. Claro que eu andava com o pessoal da igreja, mas não era a mesma coisa, sabe? Eu me sentia meio de fora com os amigos deles. As coisas deram uma melhorada nesse último ano, mas nunca me senti realmente incluída na escola.  Eu a solto do abraço. — Você só ficou dois anos na cidade — comento dando de ombros. — Eles se conhecem desde as fraldas. Mas na faculdade todo mundo vai estar na mesma página, você vai ver. Vai ser ótimo. Minha amiga não parece 100% convencida, mas meu celular apita informando que a lasanha está pronta.  Nina bate palminhas, animada, mas seus olhos castanhos ainda estão tristes, perdidos no futuro hipotético dentro da sua cabecinha loira. — Vou arrumar a mesa — diz com uma animação forçada e eu faço que sim com a cabeça. Ela é a única pessoa que eu conheço que fica animada para fazer trabalho doméstico. Talvez isso ajude a melhorar o seu humor.   Assisto Nina pegar os talheres e os jogos americanos, assim como o suco, copos e talheres, os quais arruma perfeitamente alinhados como em um restaurante cinco estrelas.  Ela está radiante ao final da sua pequena arrumação. — Chama o meu pai, por favor — pede com um sorriso. — Tenho que pegar o toque especial.  — Onde ele está? — pergunto, já que não vi quando Rafael chegou em casa. — O escritório é aquela porta de vidro perto do lavabo — me instrui. — Só bate à porta e chama ele enquanto eu termino de arrumar tudo. Faço que sim com a cabeça e me dirijo ao escritório. Esse apartamento parece um labirinto cheio de portas. Bato à porta e a voz de Rafael se faz ouvir. — Pode entrar — informa com a voz grave. Deslizo a porta para o lado e me coloco no espaço aberto.  O escritório de Rafael é bem pequeno, com uma mesa de madeira escura que parece ser de madeira maciça. Uma estante de livros está na parede ao seu lado e outra na parede oposta, ao meu lado.  Rafael está sentado na cadeira acolchoada de couro com um par de óculos de leitura na cara que o deixa ainda mais impossivelmente gato. Ele ergue o olhar na minha direção e sorri cordialmente, embora seus ombros estejam tensionados. Seu olhar escorrega pelo meu corpo, pela minha saia curta, e ele limpa a garganta se remexendo no assento como se algo o incomodasse. — Posso ajudar, Natália? — pergunta com a voz baixa que me deixa arrepiada. Enrolo uma mecha de cabelo castanho no dedo indicador. Deus, eu me sinto uma boba com esse crush nele.  — O almoço está pronto — informo tentando ao máximo não soar como uma i****a. — A Nina está arrumando a mesa e me pediu para te chamar. Ele faz que sim com a cabeça e uma mecha de cabelo preto cai sobre seu olho. Rafael a afasta de forma distraída. — Já estou terminando aqui — responde indicando o laptop prateado diante de si. Coloco as mãos na cintura e entro no escritório. Assim como o resto da casa, o ambiente é incrivelmente gelado.  — Hoje é domingo. Você precisa descansar — aponto. — E a lasanha vai esfriar se você não andar logo. E ninguém merece comer lasanha fria. Ele ri baixinho, um som rouco do fundo da garganta que me arrepia inteira. — Você é uma fofa — comenta passando os dedos pelos cabelos escuros. — Eu já vou. — Então vamos. Ele me olha como se eu fosse louca, o que é compreensível. — Eu preciso apresentar esses dados para o meu chefe em uma reunião amanhã. — Você pode fazer isso mais tarde — sugiro. — Vem, a Nina está toda animada para nós três comermos juntos. — Você é insistente, não é? — murmura, mas afasta a cadeira da mesa e se levanta. — Eu sempre consigo o que eu quero — sorrio concordando. — Em geral pelo cansaço. Ele ri uma risada baixa e rouca até parar bem ao meu lado. — Isso eu percebi — responde em um sussurro contra a minha orelha que me deixa toda arrepiada. Uma mão pesada circula meu ombro.  Ele está flertando comigo? Se a resposta for sim, então esse é um jogo para dois. Mordo o lábio inferior e sorrio. — Vamos comer? — oferece. Desço o olhar pelo seu peito dentro da camisa social branca. Sua respiração está acelerada, assim como a minha. Ergo o olhar para o seu rosto. Ele está terrivelmente perto do meu. As pupilas escuras quase engolem o azul, e seu olhar desce dos meus olhos para minha boca. Encurto ainda mais a distância entre nossos rostos, até poder sentir a sua respiração. Meu celular vibra no bolso e Rafael se afasta, piscando como se saísse de um transe. — É melhor você ir — informa. Sua voz baixa está um pouco sem ar. — Preciso lavar as mãos e já encontro vocês. Ele não me dá muita opção e me empurra com um movimento leve, mas firme para fora da sua sala. Por um segundo, tudo o que eu faço é olhar para o ambiente branco à minha frente. Eu não estava louca, estava? Ele tinha correspondido ao flerte. No entanto, eu sei que não posso fazer mais que isso. Ele é o pai de Nina, e ela é a minha melhor amiga. Não posso cair na tentação. Não posso desapontá-la. Respiro fundo e esfrego a testa.  Natália, o que você está fazendo?, pergunto para mim mesma. Infelizmente, não tenho nenhuma resposta para isso. Tudo o que eu sei é que eu não tenho controle sobre mim mesma quando estou no mesmo ambiente que Rafael. E isso é muito excitante. 
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