Novos amigos

1843 Palavras
O shopping perto do condomínio é luxuoso, percebo assim que a minha amiga entra no estacionamento subterrâneo. Assim como no condomínio, a maioria dos carros ali são importados e de primeira linha. Eu a acompanho meio acanhada pois nunca estive em um lugar tão chique assim. Até o cheiro é diferente dos shoppings que eu costumava frequentar. Parecia um mundo paralelo.  No centro exato da construção, uma escultura em mármore de bem uns cinco metros se ergue, imponente. A escultura representa um casal, crianças e animais rindo e se divertindo e eu admiro a obra de arte, mas Nina sequer a olha, acostumada. — Vem — chama, animada, me arrastando para longe da escultura. — Tem uma loja de roupas bem legal ali. — Nina, foco. Decoração. Ela murcha e me olha como um cachorrinho que caiu da mudança. — Certo. Decoração. O andar superior é voltado apenas para casas e tem os sonhos mais loucos de qualquer decorador ou arquiteto. Nina e eu passamos praticamente a manhã toda andando pelas lojas, procurando coisas que chamassem a atenção e tirasse aquela cara de hospital do quarto de hóspedes. Ao meio-dia, estamos ambas com os braços cheios de sacolas com capas para almofadas, esculturas, quadros, luzinhas e outros tipos variados de decoração — além de materiais universitários que Nina jurava que precisava.  Estamos quase no elevador quando uma voz masculina chama Nina. Nos viramos para ver um grupo, dois rapazes e duas moças, acenando efusivamente para a minha melhor amiga. As duas meninas ruivas são tão parecidas que só podem ser gêmeas. Uma veste saia até o joelho com camisa branca de gola alta sem mangas enquanto a outra usa um vestido rodado recatado. Os rapazes, um loiro e um moreno, estão usando camisa e jeans, e ainda assim dá para ver que é de altíssima qualidade. Apesar de bonitos eles não são nada extraordinários, mas a autoconfiança exala de cada poro como se fossem a reencarnação de deuses gregos.  Nina os abraça e dá um beijo na bochecha de cada amigo, animada. — Que bom encontrar vocês aqui! — cumprimenta daquele jeito de quem tá ligada na tomada. — Nath, esses são os meus amigos que te falei ontem. Ariana, Anna, Henrique e Paulo. Aceno na direção geral e eles me cumprimentam da mesma forma. As meninas parecem me medir, focando em especial na minha saia bem mais curta que as delas e as duas trocam um olhar e um sorrisinho. — A Nath está morando lá em casa — Nina explica indicando as nossas várias sacolas. — Estamos arrumando tudo para a estadia dela ficar mais confortável. — Ah, então foi por isso que você não foi para o culto de jovens hoje! — o loiro responde como se tivesse acabado de fazer uma descoberta revolucionária. — Estávamos sentindo a sua falta.  As bochechas de Nina ficam vermelhas e ela abaixa o olhar para os pés dentro de uma sandália nude. Hmm. Interessante. Faço uma anotação mental para interrogá-la sobre esse rapaz quando ficarmos sozinhas. — Então você vai frequentar a igreja, Nath? — o rapaz loiro pergunta, aparentemente sem reparar nesse comportamento doido. — Natália — corrijo. Nath é um apelido que apenas Nina usa comigo. — E não sei… Não sou muito religiosa. Eu só tinha feito a crisma porque meu avô praticamente me obrigou.  — Não precisa ser religioso! — a gêmea de vestido intervém. Sua voz é muito aguda e me pergunto se ela não está forçando para parecer mais fofa. — A igreja é bem legal.  Nina concorda enfaticamente com a cabeça. — Vai ser muito legal, amiga! — tenta me convencer. — Os pastores são bem legais, eles não tratam a gente como um monte de criança boba, sabe? Tenho certeza que você vai curtir. — Quem sabe… — respondo evasivamente, brincando com o meu colar de ouro.   — Nós vamos acampar no próximo final de semana, vem com a gente! — o loiro insiste sorrindo na minha direção. Ele me lembra um pouco o Lucas Till naquela época do clipe “You Belong With Me” da Taylor Swift. Olhos azuis, cabelo loiro jogado para um lado e uma carinha de menino bonzinho que não dá trabalho aos pais.  — Daí você conhece todo mundo e se der vontade vai lá ver um culto também. — Eu me candidatei em alguns freelas — conto, agradecendo aos céus pela desculpa. — Se eu estiver livre vou com vocês. Mas mesmo se não der outro dia eu vou lá. Provavelmente ainda vou ficar pelo menos um mês na casa da Nina. Temos bastante tempo. Vejo os dois rapazes trocarem um olhar rápido e um sorriso.  — Ok, então — o loiro diz e se aproxima de nós e abre um sorriso. — Mas pensa com carinho. — Nós íamos tomar um sorvete — a gêmea de saia comenta absolutamente do nada. Pelo menos a voz dela é menos irritante que a da irmã. — Vocês também querem? Antes que eu possa recusar, Nina diz sim e lá vamos nós atrás de um quiosque caríssimo de sorvete na pedra que Nina jura ser o melhor da cidade. Talvez fosse loucura da minha cabeça, mas posso jurar que vi as gêmeas trocarem um olhar aborrecido antes de enlaçarem cada uma um braço da minha amiga. O trio anda na nossa frente, conversando em voz alta, animadas sobre o começo das aulas. — E aí, Nath — o tal Pedro, o loiro, começa e preciso fazer força para evitar uma careta. — Há quanto tempo você tá na cidade? — Cheguei ontem — conto observando as lojas de grife antes de entrarmos na praça de alimentação. — Tive um problema com o apartamento que aluguei e a Nina foi um amor e me deixou ficar com ela e o pai até resolver isso. — Ah, o tio Rafael é muito bacana mesmo — concorda. — E a Nina é um anjo — afirmo.  Minha amiga fica vermelha. Posso ver pelo seu pescoço, mesmo ela estando de costas para mim. — Muito mesmo — o outro rapaz, Henrique, declara olhando para a minha melhor amiga com um sorriso gentil. Sua voz é grave e ao mesmo tempo suave. Eu nem sei como explicar, mas aquele tipo que a gente pode ouvir por dias sem cansar. As meninas param quando chegamos à fila do tal quiosque. Apenas um casal por volta dos vinte e cinco está ali sendo atendido. Não posso negar que os rapazes são legais, embora um pouco esquisitos para o meu estilo acostumada com os “agroboys”. As duas ruivas, no entanto, parecem que chuparam limão enquanto observam Nina ser o centro das atenções. De repente tudo clica na minha cabeça. Nina, sempre doce e tímida, era aquela amiga quieta do grupo de amigos. As ruivas eram as líderes. E elas não estavam gostando nadinha de perder o holofote, mesmo que por poucos minutos. Vacas. O casal pega seus sorvetes e vão se sentar em uma mesinha por perto. Os rapazes fazem seus pedidos, seguidos pelas gêmeas e, por fim, Nina e eu. Tento entregar o meu cartão de crédito, mas Nina faz careta. — Esqueceu que eu tô com o cartão do meu pai? — pergunta com um sorriso e eu reviro os olhos de brincadeira. — Como pude esquecer? Ai, essa minha cabeça… Nina ri e seguimos na direção dos seus amigos sentados ao redor de uma mesa redonda com seis cadeiras. A conversa na mesa gira ao redor de um filme de super-heróis que está prestes a estrear no cinema e os quatro discutem qual o melhor horário para irem. — Por mim tanto faz — a gêmea da voz chata observa, jogando o cabelo para trás como se estivesse em um comercial de xampu. — Como não consegui entrar no curso que queria, vou ficar livre todos os dias, exceto de manhã, porque tenho academia. — Bem, a Nath e eu estudamos de manhã — Nina comenta. — Eu estudo à noite — Pedro responde com uma carinha de cachorro que caiu da mudança. Ele afasta o cabelo loiro de olhos. — E o Henrique estuda integral, o nerd. — A gente pode vir no próximo fim de semana, sem ser o do acampamento — decido. — Assim não atrapalha ninguém. — Boa ideia, amiga — Nina concorda e leva uma colherada de sorvete à boca. Também provo o meu e ele não é nada mau. Mas não vale os vinte reais que foi pago nem à p*u. O celular de Nina toca e ela atende. — Oi, papai — cumprimenta e eu, como uma i****a, fico à espreita. Nina ouve com atenção antes de dizer? — Ok, nós já estamos indo pra casa também. Vamos fazer o almoço, tá? Aham. Também te amo. Tchau. — Já? — Henrique pergunta para Nina. Ela assente e olha para mim. — Meu pai disse que está saindo da casa do Jorge.  — Beleza, Dá tempo da gente chegar e fazer um almocinho. Nina concorda com a cabeça. Ainda conversamos um pouco com os amigos dela antes de voltarmos para o estacionamento. — Eles gostaram de você — ela me diz saltitando na direção do seu veículo. — Mas quem não gosta? Dou risada. Nina é a melhor amiga do mundo! — As gêmeas não pareceram gostar muito de mim, não.. — Elas são assim mesmo, mais fechadas no mundinho delas — explica dando de ombros.  Mordo a língua para não traduzir para o bom português que elas são duas idiotas e apenas concordo com a cabeça. — Mas eu notei de alguém — dou ênfase na palavra — ficou toda envergonhadinha quando o Pedro estava falando com ela. Nina para de saltitar e vira para mim com o rosto vermelho. — Ai, você reparou? — pergunta meio horrorizada por eu ter notado seu crush. — Em uns cinco segundos. Mas ele parece ser um cara legal. Ela concorda. — Ele foi a pessoa que mais me acolheu quando eu cheguei aqui, sabe? E, bom, ele é lindo — suspira de uma forma romântica, os olhos castanhos perdidos ao longe como se em um sonho. — Mas eu não tenho coragem de chamar ele para um encontro, só nós dois. Estamos sempre em grupo, fica difícil saber se ele sente o mesmo… — Talvez você possa dar um perdido no grupo e ir com ele pra um lugar mais reservado — sugiro. — Faz isso no acampamento! É o momento perfeito.  Seus olhos castanhos brilham como duas estrelas de âmbar. — Você acha que dá certo? — Com certeza! Coloca o time em campo e parte pro ataque, amiga! Seu rosto todo se ilumina. — Certo, vou fazer isso — responde, animada. — Vamos para casa? Faço que sim com a cabeça e Nina sorri. — Eu sabia que trazer você para morar com a gente era uma ótima ideia! — vibra e me sinto a pior amiga do mundo por desejar o pai dela.
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