Capítulo 16
O Príncipe Adormecido
Após deixar Annia no jardim, inconformada pela desobediência de Rafique.
O Sheik Hassan foi cumprir com seus deveres, e ainda investigando o que ocorreu dias atrás, ouvia as outras esposas.
Lyaza e Zayra se manifestaram na reunião diante dos filhos, com o tom grave de quem quer limpar o próprio nome. A sala do trono estava carregada de tensão, os ares quentes e pesados como uma tarde no deserto antes da tempestade de areia.
— Não temos nada a ver com o que aconteceu ao príncipe. — declarou Lyaza, endireitando-se com dignidade. — Se algo tão terrível ocorreu, veio de fora.
Zayra assentiu, cruzando as mãos delicadas sobre o colo. — Afinal, até o acidente dele de moto antes não é segredo que tudo foi possivelmente programado. Só digo o que se ouve por aí na cidade.
As palavras ficaram no ar, ecoando com insinuações perigosas.
O Sheik Hassan, sentado à cabeceira, suspirou fundo antes de responder:
— Sim… e pela forma como o chefe da guarda Félix partiu tão prontamente, só pode ter sido alguma ameaça vinda de um inimigo.
Hassan não acrescentou que, no íntimo, desconfiava de que esses inimigos poderiam estar bem mais próximos do que se imaginava… talvez até sob o próprio teto: os próprios filhos irmãos de Rafique.
A reunião terminou, mas a tensão não. Quando todos deixaram a sala, Annia entrou, os passos firmes de uma mulher que já havia enfrentado mais de uma batalha velada. Atravessou a porta, ignorando os olhares que pareciam chamá-la de “princesa louca” pelas costas.
Ela não deu atenção. Aproximou-se de Hassan, que permanecia pensativo, e falou em tom baixo, mas firme:
— Precisamos convencer Rafique de que ele deve ser um Sheik forte. E para isso, o casamento com a nobre princesa da pérsia é o único caminho. Você precisa ordenar, Hassan, e ele deve obedecer.
O sheik respirou fundo. Enquanto Annia continua…
— Isadora é só uma incubadora humana, não pode ser esposa…
— Sim, Annia, eu sei. Vou fazer Rafique raciocinar. Mas não podemos impedir os sentimentos que surgiram entre eles.
Annia arqueou a sobrancelha, descrente.
— Isso é só miragem no deserto. Rafique pode tê-la como uma concubina ou serva dele.
— Concordo. — Hassan replicou. — Mas e se essa moça não aceitar?
— Ah Quem é ela, Hassan para não aceitar o meu filho o futuro Sheik! — disse com desdém.
— Annia, não seja tão c***l você e eu sabemos que moça é do ocidente, e ela não está aqui porquê quis. Então acho que devemos devolver a ela sua vida depois que os bebês nascerem, se essa for sua vontade.
— Se ela gosta do Rafique, ficará como ele quiser. — rebateu Annia. — O ensine, Hassan, mostre a ele que ela pode ser dele sem atrapalhar a sua ascensão.
Ele suspirou.
— Apesar de concordar com você, que Rafique pode tê-la de forma a não atrapalhar seu legado, acho que ela deve ir embora. Sinto que ela nos trata problemas para Rafique aceitar o casamento arranjado.
Annia se inclinou, como quem já tem a solução pronta.
— Então, podemos seguir como antes: vamos enviá-la para meu irmão o Sheik Malik.
— Realmente será o melhor. — Hassan assentiu, mas a decisão parecia pesar-lhe no peito.
— Então faça tudo. Hoje à noite, Isadora irá para a casa do meu irmão Sheik Malik. Ele a colocará em seu harém como ela sendo mais uma concubina. Assim, Rafique não poderá fazer nada.
O sheik estreitou os olhos, reconhecendo a dureza do plano.
— Certo, esposa. É drástico, mas necessário.
Hassan pegou o telefone e ligou para Malik, combinando todos os detalhes da entrega de Isadora.
Rafique, ainda estava no quarto de Isadora. Mas assim, que ouviu a batida na porta e a voz da própria mãe, ele optou por se esconder atrás das cortinas de seda clara, mas com proteção de sol, o local era um ótimo esconderijo. Ele não queria que a mãe o visse ali, para evitar um confronto desnecessário, afinal ele sabia bem que Annia jamais aprovaria ele estando ali com Isadora a sós, mesmo ela já estando grávida dele, ainda que por inseminação.
O carinho entre eles ainda era algo puro, mas muito real. Por isso ele esteve até o momento ouvindo ela lendo para ele.
— Abra, Isadora. Sou eu, a princesa Annia.
Isadora, surpresa, respondeu:
— Ah, sim, princesa… só um momento.
Rafique se inclinou para ela, a voz baixa e urgente:
— Não diga que estou aqui.
Ela piscou, confusa. — Tá… não entendi por que você quer se esconder, mas…
— Psiu, é sério. Melhor ela não saber.
Isadora abriu a porta, tentando disfarçar a estranheza.
— Já vou, princesa Annia.
A mãe de Rafique entrou, olhando o quarto como se buscasse algo. Convidou a Isadora a sentar. Seus gestos eram calculados, e o olhar carregava aquela autoridade de antes que fazia a moça sentir-se uma intrusa.
— Isadora, você terá de ir embora. Mesmo agora que Rafique acordou.
Isadora sentiu o coração bater mais rápido.
— Mas… por quê, senhora? Perdão, Alteza.
— Eu poderia não lhe dizer nada. — Annia prosseguiu. — Afinal, você sabe que Rafique não está incluído no contrato que sua tia assinou. Mas, pela gratidão que tenho por tudo, vou explicar.
Isadora respirou fundo.
— Sim alteza..Estou ouvindo.
— Rafique está bem, graças a Alá. Agora deve seguir cumprindo suas obrigações como futuro sheik, como já iria acontecer antes do acidente.
A mulher fez uma pausa, estudando os olhos doces de Isadora antes de prosseguir…
— Meu filho deve casar com uma nobre, uma filha de um sheik. Uma princesa que fortalecerá seu poder. Talvez essa princesa até aceite seus gêmeos como herdeiros diretos deles. Mas não posso obrigá-la. Porém seus filhos terão apoio e uma vida próspera, mas você deve ir embora após o nascimento dos bebês, como está no contrato recebendo seu dinheiro. Por enquanto eu e Hassan decidimos que você ficará em um local seguro até o nascimento das crianças, longe daqui e de Rafique. Ele não pode se confundir por você.
As lágrimas derramaram pelo rosto de Isadora, quentes e silenciosas. Não havia orgulho suficiente para contê-las.
Atrás da cortina, Rafique ouvia tudo. Seu instinto era atravessar a sala e interromper as falas cheia de lâmina da mãe dele contra Isadora, mas ele sabia que um ataque histérico só pioraria as coisas.
Isadora, com voz trêmula, perguntou:
— E minha tia Simone?
— Será enviada logo para perto de você, assim que estiver estável. Você não ficará longe dela.
Annia se levantou.
— Bem, isso é tudo, você parte em seis horas. As criadas arrumaram suas coisas. Agora apenas descanse.
Assim que a princesa saiu, Rafique deixou o esconderijo. Num impulso, envolveu Isadora nos braços, segurando-a como quem quer proteger de todo o mundo.
Sussurrou ao ouvido dela:
— Você é a única que aceitarei como esposa. Já é minha mulher, mãe dos meus filhos. Não se preocupe. Vou resolver isso. Agora, não chore. Olhe para mim.
Ela ergueu o rosto, obediente, o olhar ainda úmido.
— Confie em mim. — ele continuou. — Não será fácil, mas vou lutar por você.
— Mas seu destino já está traçado, Rafique. Por favor… eu não sou adequada. Não sou uma princesa.
— Você é mais do que qualquer princesa, Isadora. Você é…
Ele não terminou. Os lábios dele se encontraram com os dela. O beijo começou suave, como um sopro, mas logo ganhou a intensidade de uma tempestade no deserto, carregado de urgência e sede reprimida.
O corpo de Rafique colou-se ao dela, e Isadora sentiu a pressão inconfundível de seu desejo. O abraço se apertou, as mãos dele explorando-lhe as costas como se quisesse memorizar cada curva. Ela mesmo inocente não recuou ao contrário, se entregou ao momento, os dedos subindo pelo pescoço dele, afundando nos cabelos espessos.
Ele a queria… mais do que qualquer outra coisa. O beijo se aprofundou, quase feroz, até que os dois respiravam ofegantes. Rafique a ergueu levemente pela cintura, e por um instante pareceu que nada os impediria de ir além.
Mas então, como se uma voz silenciosa o chamasse à razão, ele fechou os olhos e recuou apenas o suficiente para encostar a testa na dela.
— Não… não agora. — murmurou, o tom rouco de desejo contido.
— Porque não, Rafique, eu te quero. — declarou com brilho nos olhos frustrada.
— Sim, eu também, Isadora, mas quero que seja com calma no momento certo. Quero que você lembre desse instante sem sombras.
— Mas eu vou embora, para longe de você, Rafique, e talvez eu nunca mais te veja, você não ouviu sua mãe?
— Não acontecerá, você só precisa confiar em mim. — tocou com os dedos lábios dela.
Isadora apenas assentiu, o coração disparado, sentindo o calor dele ainda preso à sua pele.
O deserto podia esperar, porquê a tempestade já estava formada.
Autora: Graciliane Guimarães