Capítulo 18
O príncipe Adormecido
— E é exatamente sobre isso que vim falar. Já sei de todo plano de afastar a Isadora de mim. Não aceito isso!
— Quem te contou? Aquela moça... Ela pensa que pode ser esposa de um sheik sendo apenas uma ocidental e ainda brasileira comum?
Hassan ergueu-se com dificuldade, sua voz trêmula de raiva.
— Não foi ela. Meu pai, entenda. Eu quero Isadora, ela é minha esposa de alma, mesmo sem papéis. E é com ela que quero viver ou morrer. Ou é ela ou ninguém.
— O quê isso significa…? — pergunta Hassan preocupado.
— Significa que pode dar os títulos que me pertencem aos meus irmãos, pois só quero se Isadora esteve comigo.
— Você é louco? Vai abandonar seu destino por uma mulher? Vou pedir à sua mãe Annia para chamar o médico Rodrigo Otomano para verificar seu cérebro. — disse enérgico.
— Se for preciso, sim. Eu deixarei Dubai e levarei Isadora comigo. Tenho recursos próprios, contatos, empresas. Não dependo de alianças de poder.
O Sheik ficou pálido, levou a mão ao peito. Começou a respirar com dificuldade. Rafique se assustou.
— Pai!
Se ajoelhou até ele, ajudando-o a se sentar para respirar, com calma e cuidado. Em seguida chamou por socorro.
— Médicos! Rápido!
Mesmo em meio à dor da dificuldade de respirar, Hassan ainda sussurrou:
— Fale com sua mãe...
Os médicos chegaram rapidamente, afastando Rafique com delicadeza. Ele beijou a testa do pai, em silêncio, antes de deixar o quarto.
Foi então até a mãe. Annia o recebeu com um sorriso contido, mas a alegria dela durou apenas um segundo.
— Minha mãe, não haverá princesa para mim. Isadora não vai ser concubina do meu tio Malik. Entenda: Isadora é a única esposa que eu aceito. Ou ela ou nenhuma. — disse imediato.
— Rafique, o que aquela mulher te disse? Ela só pode ter manipulado você.
— Não, ela não me disse nada. Eu ouvi tudo. Estava no quarto dela quando você entrou para contar que a levaria daqui, e sei que é para o palácio do tio Malik, ele mesmo me disse.
Annia arregalou os olhos.
— Por Alá… meu irmão não deveria ter contado nada.
— Sim, minha mãe. Eu fiquei escondido. E ouvi quando você a destruiu com palavras. Quando decidiu exilá-la.
— Ela está te seduzindo não é! Você está cego.
— Cego? Cego estava eu antes do coma. Agora vejo tudo com clareza. Sei o que quero. Além disso, foi vocês quem começaram, me obrigaram a gerar três filhos com uma menina inocente. Ela foi a vítima. E mesmo assim, ela me trouxe de volta. Ela me amou quando eu nem pensava em respirava por conta própria.
— Você está confundindo gratidão com amor.
— Não estou. Eu sei o que sinto. Já falei com o meu pai o Sheik Hassan. Agora falo com a senhora princesa. Ou ficam do meu lado, ou vou embora para o ocidente.
Annia estremeceu. Levou a mão à testa.
— Não... Rafique..Você não pode trair o legado do seu pai, ele está morrendo...
— Sim, e eu lamento profundamente. Mas não viverei minha vida como um fantoche após a morte dele.
E sem mais palavras, Rafique virou as costas e saiu.
Apesar de Rafique demonstrar toda sua determinação e firmeza com relação à jovem Isadora, Annia via nela apenas uma estrangeira comum, uma garota simples, indigna de ser a primeira esposa do seu filho príncipe.
Ela conhecia o filho e sabia que Isadora era só uma obsessão de momento, apesar de que Rafique estava mais implacável do que nunca. E enquanto ela tramava formas de afastar Isadora com pressão e isolamento.
Rafique seguiu direto ao quarto de Isadora. Bateu levemente. Ela abriu a porta com olhos vermelhos, mas sorriu ao vê-lo.
Ele a tomou nos braços.
— Você é minha vida...
Em seguida o beijo que veio a seguir foi um manifesto. Uma promessa. A confissão mais pura de amor e desejo que viveram.
Rafique devorou sua boca com a intensidade do deserto, e ela correspondeu como quem se entrega a um destino inevitável.
O mundo lá fora podia queimar. Mas entre aqueles dois corações... havia apenas o incêndio do amor verdadeiro cheio de beijos apaixonados.
Porém, a porta foi aberta com violência brutal, e dez guardas a tiram dele. Mas Rafique ainda teimoso segurava a mão dela.
— Solte ela príncipe, não vamos prolongar isso, são ordens do sheik Hassan seu pai! — ameaçou o chefe da guarda.
— Por favor, Rafique me deixe ir, não quero que eles me machuquem, pelos os bebês.
Rafique a soltou, e com olhar cheio de promessa, fez ela entender que ele a buscaria em breve onde ela estivesse.
Naqueles dias, após sua volta do coma, o mundo inteiro enviava presentes ao precioso príncipe herdeiro. Enchendo vários quartos.
Entre eles um pacote muito luxuoso foi deixado na entrada do palácio uma hora antes, com laços dourados e selos de um suposto aliado comercial. A caixinha de madeira escura, com incrustações em ouro, foi encaminhada à sala principal, onde um dos irmãos de Rafique, Taric, curioso, decidiu abri-la sem aviso.
Um estalo seco. Um clarão.
A explosão não foi devastadora, mas o suficiente para jogar Taric contra a parede. Estilhaços se espalharam pelo piso de mármore. O caos instaurou-se em segundos. Alarme. Gritos. Guardas correndo.
Taric jazia no chão com cortes profundos no peito e nos braços, sangue escorrendo pelo veste. Ele sobreviveria, mas o susto era profundo. A ala feminina do harém entrou em pânico. As esposas do sheik Hassan correram até Rafique, acusando-o em meio ao desespero:
— É sua culpa! Você acordou e trouxe a desordem com você! Você deve investigar quem fez isso, ou trará mais mortes para essa casa!
Rafique, tomado por um sentimento de culpa e de urgência, abraçou o irmão inconsciente antes dos médicos o levarem. Ele não tinha dúvidas: havia algo maior por trás disso. Algo antigo. E obscuro. Mas ele ainda tinha que encontrar Isadora e tirá-la do palácio.
Foi então que, entre as sombras da confusão, Karim apareceu. Seu velho amigo de infância, de risos partilhados e desavenças adolescentes, surgiu com um manto branco, barba bem feita e olhos sorridentes, tentando demonstrar serenidade.
— Rafique, meu irmão! Eu finalmente vim ver você porquê estavam nos EUA. E chegando aqui soube da explosão. É inacreditável como está Taric?
Rafique o abraçou forte, o peito apertado por memórias antigas. Agradeceu sua presença e, como em um rompante de confiança, partilhou tudo com ele. A tensão com os pais. A impossibilidade de manter Isadora protegida no palácio. O medo constante.
Karim, como um ator premiado, franziu o cenho com compaixão.
Autora: Graciliane Guimarães