Nikolas estava deitado no sofá preto e confortável da sala, com os fones de seu discman, escutando o CD da trilha sonora do filme A Rainha dos Condenados. Esperava que o céu anunciasse, com sua claridade, o momento de ir para o caixão.
Eram 3:00 da manhã. Era o que o relógio digital em seu pulso indicava.
A música em questão era Forsaken, dublada pelo novo ator Stuart Townsend, que interpretava Lestat.
Nikolas lamentava. Tom Cruise havia sido o primeiro ator a viver Lestat, no perfeito Entrevista com o Vampiro. Já o segundo fora Townsend, em A Rainha dos Condenados, filme que Nikolas simplesmente odiou. A adaptação dilacerou o livro, impediu que o lado ambíguo de Lestat fosse mostrado, mas, em compensação, tinha uma boa trilha sonora.
Até que sua audição captou, acima do rock pesado, um som incômodo de batidas.
Pá. Pá. Pá.
O ruído se repetiu de forma insistente.
Pá, pá, pá, pá.
Quando um imortal colocava a audição em algo, mesmo sem estar totalmente focado, o som que desejava ouvir se sobrepunha aos demais, como uma mira, mas feita de som.
Ele retirou os fones e percorreu a escuridão com os olhos brilhantes de um predador.
Niko se dirigiu, com sua velocidade vampírica, um piscar de olhos para os humanos, à cozinha ampla e sem luzes, de onde vinha o barulho.
Notou a menina parada ali, batendo a cabeça na parede, os olhos abertos, porém vazios de expressão. Era dali que vinha o pá, pá, pá de uma pancada leve.
Era uma cena simplesmente sinistra.
Ela usava uma calça de pijama rosa com estampas de ursos e um blusão de mangas compridas combinando. O cabelo longo estava despenteado.
Nada de sedutor ou teatral como as camisolas de algodão dos filmes de terror sobre possessão, mas isso não diminuía o caráter bizarro da cena: ela batendo a própria testa contra a parede da cozinha, como um zumbi.
Nikolas colocou a mão entre a parede e a testa dela. A sorte era que as batidas eram fracas, e ele chegara a tempo de evitar que ela se ferisse gravemente.
Por que não a acordou? No passado, acreditava-se que, ao despertar um caminhante dos sonhos, como antes se chamavam os sonâmbulos, a alma poderia se desconectar do corpo pelo susto e fugir para o mundo dos sonhos para sempre, deixando o corpo vulnerável a espíritos malignos.
Por isso, quem entrava em transe lúcido sempre tinha um guia no mundo humano para cuidar do corpo. Já os sonâmbulos que vagavam de forma inconsciente corriam grandes riscos.
Quando ela disse que era sonâmbula, ele não imaginou que fosse tão grave a ponto de se machucar assim. Ainda assim, ela continuava batendo a testa contra a mão dele, que agora era o que a impedia de se ferir na parede de textura branca e descascada.
Nikolas fora um mortal medroso que teria saído correndo diante de uma manifestação como aquela quando ainda era um jovem italiano no século XIX.
Com o passar dos anos de sua eternidade maldita, concedida por uma vampira c***l que o abandonara ao se entediar dele e que agora dormia no sono das eras, seu inglês se tornara tão perfeito que matou o jovem Nikola, o italiano patético que tinha medo da própria sombra.
Ele suspirou, mantendo a mão firme na parede.
A menina ainda exibia uma expressão vaga.
Mas, de repente, ela cessou o autoflagelo, e sua voz ecoou:
— Sei o que está fazendo com ela. Deixe-a em paz. Você não tem esse direito, Nikola De Médici.
Ora, Nikolas saiu do tédio absurdo que era guiar o corpo da garota em sonambulismo.
Ele analisou a menina discutindo com ele, ainda fora de si, mas usando seu nome verdadeiro, o de quando fora humano.
O tom confiante, o nome e o sobrenome que ele havia apagado de sua existência ao adotar Nikolas Raven, revelados, em toda a sua eternidade, apenas a duas de suas amadas, Miranda e a vampira Diana, e a um vampiro que transformara, mas que o odiava, Dante, fizeram-no reconhecê-la imediatamente. Abriu um sorriso debochado.
— Miranda… não é errado possuir corpos?
— Você, um sanguessuga, acha que pode falar de mim? — acusou o espírito, usando o corpo da caminhante dos sonhos. — Acha que ela é uma substituta para mim?
— Eu só quero puni-la pelo que fez comigo, através dela — confessou Nikolas com um risinho. Mirou o corpo de Dalilah, sério. — Você é uma v***a c***l que só pensa em si mesma, Miranda. Bem… esta é mais empática. Até que gosto dela.
Ainda com Dalilah em transe, veio a resposta do espírito:
— Ela não sou eu. Se está brincando com ela porque se parece fisicamente comigo, esqueça. Pare de me atormentar. Sou uma das bruxas ancestrais e protetora dela. Todas as outras me julgam sempre que você aparece, maldito…
— Odeia ser julgada por elas por ter se relacionado com uma aberração do ciclo da natureza, não é? Pois bem, Miranda, vou profanar ainda mais sua relação sagrada com essas outras vadias que você escolheu no lugar do nosso amor…
— Nunca houve amor entre nós. Você é um morto que, para continuar existindo, precisa roubar o sangue e o calor de outras pessoas — retrucou o espírito.
— Como se canalizar e roubar o poder vital da natureza não fosse o mesmo que eu faço com os humanos… — rebateu Niko, ofendido.
Nikolas beijou Dalilah, rancoroso, apenas para provocar Miranda. Mas Dalilah despertou do sonho. Abriu os olhos azul-esverdeados num piscar e o analisou, confusa, sentindo os lábios gelados dele pressionados aos seus. Ao perceber o frio, empurrou-o de imediato.
— Então, seu doente maldito, é em troca de sexo que você vai me dar o que eu quero? — disparou Dalilah, avaliando-o, furiosa e ofensiva.
Nikolas também estava tomado pela fúria da aparição de Miranda. Ao mesmo tempo, desejava calor, o corpo quente dela, a troca espiritual que humilharia Dalilah perante todas as ancestrais e constrangeria Miranda no plano espiritual. Queria feri-la onde mais doía, tocando na protegida dela: Dalilah.
— Sim — respondeu, c***l e emotivo. Egoísta. Vingativo. Mimado e profundamente rancoroso.
O ódio fervilhava nele como gelo, em rajadas cortantes.