Capítulo 25

1053 Palavras
Ela respondeu se abaixando pra mexer no cachorro: — É com ele mesmo que eu tô falando, todo folgado, deitado no meio da calçada! O senhor não lembra mais de mim não, mestre? Com espanto, ele ficou olhando, falou ainda desacreditado: — A cenourinha? É você mesma, menina? Ela disse rindo: — É, sem o meu nabinho, ele foi embora, como o senhor está? Faz um tempo que eu não apareço por aqui. Ele disse rindo que o nabinho aparecia por lá às vezes, mas que não era tão legal como antes. Super simpática, ela começou a conversar, falou naturalmente, sem parecer soberba: — Eu estava ali no açougue e o senhor nem deu atenção pra mim, poxa. Posso comprar umas coisinhas pra vocês dois? Ele recusou de imediato, disse que não precisava. Ela falou gentilmente: — Eu trabalho aguentando gente chata todos os dias, vim passear, me divertir, não posso fazer uma gentileza ao senhor? Somos velhos amigos, mestre! Super sem jeito, ele agradeceu e disse que não tinha geladeira pra guardar nada. Ela respondeu: — Então vamos almoçar comigo, eu tô sozinha mesmo. Vamos lá? Ele disse que aceitava só uma marmita pra levar embora, porque estava sujo pra entrar e comer. Ela falou rindo: — Mas o meu dinheiro tá limpo, que bobagem, vamos lá, e o senhor vai esperar aqui fora. Ela se referiu ao cachorro, foi indo para o restaurante. Já na porta, ela se afastou um pouco, olhando as mesas e a tabela de preços. O garçom se aproximou da porta, passando por ela, e falou para o Candinho: — Ooooo, não pode ficar pedindo aqui na porta, depois, se sobrar alguma coisa, a gente te dá. Já falei que não é pra ficar aqui incomodando os clientes! Aquilo foi extremamente constrangedor, ela se virou e falou para o garçom, chegando mais perto: — Ele está comigo e não me pediu nada, é um amigo que eu convidei pra almoçar. Vem, Candinho, vamos sentar! O rapaz falou irônico: — Amigo? Moça, a gente sempre dá comida pra ele, é conhecido nosso já. Com ironia, toda arrogante, ela respondeu: — Ele vai entrar e comer comigo, algum problema? O garçom disse que nenhum, ficou com a cara no chão, todos os clientes olhando, comentando. O senhor estava na porta ainda, constrangido, ela se aproximou dele, sorriu, deu uma piscadinha, falou alto: — Vem, pode entrar, vou fazer o prato do senhor. Ou quer comer em outro lugar? Sempre achei a comidinha daqui meio pesada! Eles foram sentar em uma mesa do canto, perto da porta. Ela disse que ia no banheiro lavar as mãos, ele foi também. Parecendo uma barraqueira, ela ficou por perto, só de olho, encarando os funcionários, ficou resmungando: — Até parece que vão impedir a gente de fazer alguma coisa, tá com fome? Vou fazer uma montanha no seu prato, hein! O que o senhor quer? Tem frango, carne, feijoada! Ele disse que qualquer coisa estava boa. Ela foi pegar comida, colocou bastante mistura, fez dois pratos só pra ele, pediu uma jarra de suco, uma garrafa de refrigerante, ficou conversando, contando das viagens dela, relembrando de quando era nova e ia pegar as latinhas dele com o Neto, juntou um pouco de comida do prato e saiu pra pôr para o cachorro comer. A Alyssa estava chegando bem na hora, falou curiosa: — Oi, filha, o que você está fazendo? Ela respondeu séria: — Eu já almocei, se você quiser, pode comer. O atendimento aqui é péssimo, mas dá pra encarar. Elas foram entrando, quando a Alyssa viu aquele homem na mesa, tentou disfarçar o espanto. Afrontosa, a Rebeca falou que era pra ela sentar ou ir se servir. Ela sentou na ponta da mesa, falou que não estava com fome. A Rebeca falou: — Essa é a minha mãe, mestre Candinho, que não me criou a vida toda. Ele era nosso mestre de capoeira, e também cliente, o Neto e eu buscávamos latinhas com ele, toda semana. A gente andava com uma perua velha recolhendo papelão, reciclagem, e eu sabia dirigir, era gostoso. A Alyssa perguntou do Neto, a Rebeca começou a falar das coisas que os dois aprontavam, disse que ele era o melhor amigo dela, mas que havia ido embora pra longe. O senhor já tinha terminado de comer, disse que ia embora, agradeceu muito à Rebeca. Ela se levantou, comprou água pra ele, colocou na sacola com o refrigerante e o acompanhou até a saída do restaurante. A Alyssa se levantou, foi ao caixa, se ofereceu para pagar a conta. Com o cartão chiquérrimo da Kim, a Rebeca pagou no débito, falou pra ela super séria: — A gente pode conversar ali fora, na pracinha, pode ser? A Alyssa, muito simpática, disse que sim. A Rebeca saiu do restaurante chupando um sorvete, sentou em um banco, ficou quieta, observando as pessoas que passavam. A Alyssa começou a fazer perguntas sobre ela, se tinha namorado, onde morava, se trabalhava. Rindo irônica, ela respondeu: — Não vim aqui pra bater papo com você, vá direto ao ponto. Quer o quê comigo? Ela falou sem jeito, apreensiva: — Sua advogada entrou com pedido de DNA, eu sei que isso vai parecer estranho, mas tem a chance de você não ser filha do Antônio e, se isso vier à tona, você não vai ganhar nada. — Eu sei que você não quer conversar comigo e conhecer o resto da sua família, mas eu sou sua mãe, sei que é difícil e, acredite, eu te amo muito, quero o seu bem, vou lutar por você e nunca mais me afastar. — Só preciso da oportunidade pra te mostrar! Vamos retirar o pedido de exumação, mas para o DNA vão abrir a cova do Antônio, isso vai gerar muito gasto e um transtorno enorme, essas pessoas com quem você está não são boa coisa, eu investiguei e isso me preocupa, você só tem dezoito anos, pelo que sei, nunca foi assim. — Esse tipo de gente não presta, você era uma boa menina, se está com eles pelo dinheiro, saiba que você não precisa se preocupar, seu futuro vai estar garantido com a gente. Essa advogada parece muito próxima a você, ela sabe da sua herança, você precisa tomar cuidado. Alguém sabe? Do seu dom?
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