Perversidade.

1723 Palavras
Percebo tarde demais que Nate tinha razão. São os demônios, ele havia dito. Ouvindo em meio a névoa escura que me cobria gritos e risadas, pude perceber o tamanho da perversidade que havia em suas mentes. Aprendi desde quando estava no exército a controlar as minhas emoções, superar o medo, reprimir o choro. Eu continuo duro como pedra, apesar de sentir facas afiadas cravadas em meu peito e uma chama viva queimando meu cérebro. Estou deitado. Estou com os nervos explodindo, louco. Estou morrendo. ∾ Não sei ao certo quanto tempo passou, mas meus sentidos pareciam voltar ao normal e o meu cérebro voltou de repente a dar seus impulsos nervosos, fazendo com que eu voltasse a me movimentar lentamente. Primeiro mechi minhas mãos, depois abri meus olhos. Tudo parecia girar e meus ouvidos chiavam. Tatuo o chão ao meu redor, mas parece diferente do que antes. Posso sentir as pequenas argilas através do cimento. Examino o lugar e vejo tudo em mínimos detalhes. Posso sentir o cheiro das três mulheres e por algum motivo que ainda não entendo, elas parecem estar distantes. Ouço uma espécie de chiado e cubro meus ouvidos com as mãos. Um barulho forte. Várias batidas de asas. Algum inseto barulhento que parece bater as asas mais de cinquenta vezes por segundo. E eu não sei como eu sei disso.  Eu não sei onde estou, não sei o que me tornei, não sei nem se ainda estou vivo. Isso seria o purgatório? Uma chance de poder refletir sobre os meus pecados? — Acordou, gracinha? — Ouço uma voz ao longe, mas parece tão perto. Está sendo sussurrada. Sua voz se mistura ao som do vento forte e do som das águas. Rio. Isso.. o som pertence a um rio.. Foi lá onde a conheci.. O rio.. Meus amigos de trabalho.. Dentes afiados em meu pescoço.. Elas que me trouxeram aqui. Fui trazido aqui e me fizeram ficar inconsciente por alguns dias. Devem estar a mando de alguém. Talvez queiram informações da guerra. — Está vendo tudo novo? — Ela pergunta sorrindo e me assusto ao vê-la bem a minha frente, sendo que antes parecia muito distante. Eu ainda estou meio abobado, embora esteja com mais consciência do que antes. Ela segurou minha mão, a beijou e disse: — Olhe — Ela apontou para onde Nattie e Lucy conversavam. — Consegue vê-las? Concordo com a cabeça. — Elas estão a 3 km de distância. Caso duvide, eu posso leva-lo até lá. — Não será necessário. — Digo, a minha voz parecia demorar sair e estava seca. Estou com uma sede que me sufoca e m*l consigo pensar com clareza por causa disso. Ela passa as mãos pelo meu corpo devagar e suavemente. Com o passar dos minutos, eu observo que no balcão há mais pessoas. Tremo de medo ao ver o que eles realmente faziam. Seres estranhos e famintos por outras pessoas. Eles simplesmente estão lá, no balcão, bem perto de mim, degustando (seria essa a palavra?) outras pessoas. — Você parece tão calmo...Um homem elegante e calmo... — Ela sussurra em meu ouvido. Ela tinha um pouco de razão, embora eu esteja tentando entender tudo o que está acontecendo. Estou um pouco zonzo, questionador comigo mesmo e até apavorado. Mas ainda tenho controle das minhas emoções.  — Fico impressionada com essa sua calma. — Ela continua dizendo. — Você nem sequer gritou na sua transformação, você é muito forte. Não é igual a eles. — Eles? — A questiono pela primeira vez. Ela aponta com a mão os seres do lado direito do balcão. — Sou como eles? — Pergunto. — Você é um vampiro como eles. Mas fora isso, parece totalmente diferente. — No que você me transformou? — Pergunto horrorizado, olhando para minhas mãos, que pareciam tão brancas quanto mortas.  — Você era major? — Ela pergunta, me olhando curioso e ignorando a minha pergunta. Assinto com a cabeça. — Você é a minha salvação! — Ela exclama rindo. E quando dou por mim, ela segura minhas mãos com força e me beija. Tentei me afastar, mas ela não deixou. Eu não odiei e nem gostei. Apenas deixei. Foi uma surpresa. Ela me beijava intensamente, desesperada. Como se eu fosse... — Tudo o que eu quero. — Ela diz. — Você é sobretudo paciente. — Ela continuava dizendo. — Eu realmente gosto muito de você. Depois ela pegou minha mão e a pressionou sobre seus s***s. — Você precisa de mim para que eu te oriente.  Eu não preciso, posso me virar sozinho, a culpa não é minha. A culpa não é minha.  A culpa é minha. — Eu acredito que sim. — Falei, retirando minhas mãos rapidamente dos s***s dela. ∾ A minha sede é crescente e não passa em momento algum. Maria me disse que tínhamos o horário certo para caçar, que era a noite. Ainda era de tarde, faltavam duas horas para as sete da noite. Eu contava nos dedos os segundos. Estava ansioso. Queria algo que saciasse a sede. Agora. Agora. Alguém enlaça seus braços em meu corpo. Reconheço pelas mãos finas que é Maria. — O que quer de mim? — Pergunto. — Não trata os outros da mesma maneira. — Claro que não. São um bando de idiotas, só servem para matar e depois morrer. São tão patéticos. Estúpidos. Eu os odeio. — No entanto tirou suas vidas e os transformou em monstros. — Digo com nojo. — Isso não é verdade. Eu os transformei em deuses da noite. Para matarem quem quiserem e ser quem quiserem ser. Ela vira meu rosto com força, me obrigando a olhar pra ela. — Você é diferente e por isso... Lucy e Nettie aparecem na sala, com uma pessoa com as mãos amarradas em uma corda. Elas riem loucamente. — Por isso, caso queira, você fará parte da liderança. E como parte da liderança, você poderá se saciar conosco em qualquer horário que quiser. A pessoa me olha desesperada. Eu solto-me do abraço de Maria e me aproximo. — Se afaste de mim! — Ele grita. Sinto seu cheiro, parece ser tão saboroso. Eu só consigo enxergar veias pulsandos me implorando para que eu as arranque. Eu só quero que pare. Pare! — Faça isso parar! — Grito para as três, apoiando as mãos em meio rosto. Eu não quero fazer isso. Mas.. ao mesmo tempo.. eu preciso disso ou sentirei que irei morrer lentamente. Então ao abrir minha boca e sentir o cheiro de sangue, eu mudo totalmente. Pego aquele homem pelo pescoço, enquanto ele debate suas pernas no ar. Depois o jogo no chão duro, sem forças para gritar ou pedir ajuda. Eu puxo seu braço, e o mordo. Experimento aquele seu sangue maravilhoso. Ás vezes ele recupera o fôlego e grita por socorro. Uma parte de mim diz que não sou assim, que é algo da qual eu não deva fazer. A outra diz que esse é exatamente isso que eu sou: um assassino. Sempre fui, sempre serei. Cenas cortadas do meu passado me invadem. Matando pessoas inocentes, defendendo um governo que não se importa. Ou protegendo pessoas da morte armada, mas as deixando morrer em qualquer outro lugar. Desesperado pela sobrevivência. E apenas isso. Esse sou eu. Poderia me transformar em outra pessoa? Provavelmente não. — Não tenha medo de ser quem você é, Jasper! — Grita Lucy. Eu sorrio em meio ao sangue. — Não tenho.  Não agora, quando o sangue parece ser tudo o que importa. ∾ O sabor do sangue daquele humano ainda preenche a minha boca, embora ele já esteja morto e não tenha mais nada que me sacie.  Rio com meus pensamentos. Logo, logo, quando ver pessoas por toda parte, irei devorar todas elas. Maria para de tentar ficar procurando por restos de sangue e vai em minha direção. Eu estou apoiado em uma das paredes escuras do balcão. Existem mais sete vampiros que tremem covardemente ao meu lado. — Chamam de recém-criados. — Maria está ao meu lado agora, falando pra mim, enquanto passa a mão pelo meu ombro e me puxa para mais perto.— Eles parecem mais calmos desde que você chegou. — Parecem com medo. — Oh, estão. Mas você tirou grande parte do medo deles. — Ela murmura. — Eu?— Pergunto curioso. — Talvez não acredite nisso, mas você é especial, ok? Você, quando chegou perto de nós, queria que Lucy acalmasse...E ela acalmou na mesma hora. — Então foi por isso que me chamou? Nunca pensei que teria esse tipo de poder, mas se sim ou se não, eu não me importo. — Também. Mas, estou pensando em um plano. Quero construir um exército para destruir essa cidade! E acabar com todos esses porcos imundos.. — Ela sussurra, parecendo se divertir com sua ilusão infantil. — Você me tira do sério. - Digo, achando ela totalmente louca. — Talvez você pense errado de mim agora, — ela coloca as mãos ao redor de meu rosto — mas...pense no tanto de sangue, alimento. Mmmmm. Minha sede que parecia tão forte, parece estar mais ainda agora. A imagem de sangue escorrendo de pessoas me invade. Meu apetite aumenta. — Imagine Jasper, — ela fala atenciosamente, — eu e você. Nos saboreando do melhor. Sendo os deuses dessa cidade. Preciso que leve isso a sério, está bem? É claro que não. Essa é a coisa mais ridícula que já ouvi. — Estou levando — Reviro os olhos. — Não parece! Vamos, preciso te ensinar como transforma humanos em vampiros, mas antes disso você ainda vai matar muita gente. O portão do balcão se abre. Lucy e Nettie gritam rindo: — Hora da janta! Os sete vampiros saem famintos. O pensamento de liderar um exército deles sai por completo da minha cabeça. Agora estou com sede. E só. ∾ — Por que a minha sede ainda não passou? — Eu questiono, vendo aquela bagunça que fizemos na cidade, sentindo a minha garganta arranhar. — Vai passar. — Respondeu Maria. — Ainda não passou! Eu nem sei quanto sangue eu consumi, mas foi muito. Eu ainda sinto que estou morrendo! — Confie em mim, Jasper. Com o tempo isso vai passar. — Ela se aproxima de mim e me abraça apertado. Eu não queria confiar nela, mas que outra escolha eu tenho?
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