Isadora
Após a saída da jovem, que me disse apenas para aguardar que logo o “senhor” iria vir ao meu encontro, me recostei então a barra de proteção do convés ostensivamente luxuoso e olhei para a noite estrelada, mas sem lua, aguardando ser recebida pelo homem que pôde pagar o valor de dois milhões de dólares para ter o que ele deveria considerar como um grande privilégio, o fato de desvirginar uma mulher, coisa que eu achava bastante arcaico, na verdade. No entanto, ao que parecia, ele não aparentava ter pressa alguma em receber seu “prêmio”, pensei com escárnio.
Fiquei pensando sobre como ele seria, tanto fisicamente, quanto em personalidade, algo que não havia feito em momento algum até então, nem mesmo quando a Rebeca havia me pedido para ir em seu lugar e somente agora aquela dúvida passou a me assolar, tendo em vista que logo em breve, eu estaria cara a cara com esse homem e ele poderia ser simplesmente repugnante, tornando aquela situação ainda mais degradante, em seu modo de ver.
Não sei quanto tempo fiquei recostada, admirando a noite, tentando esquecer o que iria acontecer, mais cedo ou mais tarde, mas, ao mesmo tempo, pensando o tempo todo sobre o homem com o qual eu precisaria f********o, mesmo sem amor. Eu precisaria entregar algo que havia mantido “guardado”, sonhando com o dia em que iria me apaixonar, casar e somente após isso, eu poderia seguir em frente, entregando não apenas o meu amor, mas também provando-lhe que havia me guardado apenas para aquele momento especial.
Apesar do nervosismo de antes, de quando ainda estava na sala opulenta, e mesmo com todos aqueles pensamentos a me encher de questionamentos, a noite, o clima de tranquilidade e o passeio de barco haviam conseguido me trazer tranquilidade e agora eu me sentia mais leve e aquela demora só contribuiu para eu ter um pouco de esperança de que, talvez, por uma jogada do destino, o homem que havia arrematado a virgindade da minha irmã, não a minha, como seria de fato, este houvesse desistido e eu não precisaria mais me entregar a um estranho, que poderia ser extremamente asqueroso ou algo parecido.
Mas as minhas esperanças rapidamente caíram por terra, logo após aqueles pensamentos consoladores, pois ouvi passos pesados se aproximando de maneira tranquila, parecendo não ter pressa alguma, e a angústia foi tomando conta de mim novamente.
Pensei que talvez pudesse ser outro m****o da tripulação, talvez até a mesma jovem de antes, que estava vindo para me dizer que o “senhor” não vinha mais, mas aquela calma no caminhar indicava, de maneira precisa, que a pessoa em questão tinha consciência do poder que exercia naqueles domínios e tive a certeza de que era "ele".
Aquilo realmente se concretizou, pois, quando me virei na direção da pessoa que chegava, constatei que se tratava de um homem muito bonito, mas que estava escrito em sua testa, com letras garrafais, a palavra “perigo”.
Senti um calafrio, que presumi ser de medo e não de excitação, pois aquilo era improvável de acontecer, apenas com o seu olhar duro, que parecia me desnudar e me deixou imediatamente sem palavras. Aquele homem gritava por todos os poros do seu corpo o quão arrogante ele era, e aquilo estava perceptível apenas em olhar para ele e a sua postura de dono do mundo.
— Espero que não tenha ficado chateada pela minha demora. — Apesar das palavras gentis, ele não parecia sentir nenhum pouco de remorso por ter me deixado esperando por horas.
— Não fiquei. — Menti descaradamente, mantendo um tom de voz tranquilo, apesar das sensações que estavam se alastrando pelo meu corpo só de olhar para toda aquela masculinidade exuberante.
— Ótimo, então.
Acredito que o esgar que ele fez foi em uma tentativa de sorriso, mas sem sucesso. Ele me olhou de maneira avaliativa, sem disfarçar a satisfação com o que estava vendo e me senti gelar, ao ser observada daquela forma tão aberta, seus olhos descendo por cada parte do meu corpo, tal qual um Marchand, avaliando a autenticidade de uma obra de arte, mas sem deixar transparecer nada do que estava pensando, me deixando ainda mais tensa do que já me sentia.
— Como posso te chamar? — Perguntei, visto que ele não se apresentara quando chegou.
— Não vejo sentido em apresentações. Não viemos aqui para fazer amizade. — Ele falou de maneira grosseira.
— Mas vamos jantar, pelo que pude deduzir pela mesa posta para dois.
— Imaginei que você gostaria de se alimentar antes de irmos ao que realmente interessa.
— Não entendo porquê. Será breve, não?
— Vai ser do jeito que eu desejar.
Senti meu corpo todo tremer, pelas implicações contidas em suas palavras. Tentei me recordar se a Rebeca havia dito algo sobre como a tal entrega do bem arrematado, ou seja, o ato em si, mas nada me veio a memória e entendi que ela não falou nada sobre aquilo e eu tampouco pensei em perguntar, de tão nervosa eu estava, por ter que participar daquilo.
Perguntei-me como eu poderia estar de maneira tão íntima com aquele homem, se apenas um olhar seu me fazia querer fugir para bem longe? Ele parecia perigoso e eu não me sentia segura ao seu lado, como se pressentisse que ele desejava me fazer algo de r**m.
Olhei em torno e pensei que, no final das contas, eu não teria coragem de ir em frente com aquilo e aquele era o momento de desistir, antes que fosse tarde demais. Eu deveria fugir, enquanto ainda era tempo e estava prestes a dizer exatamente aquilo.
— Pensando em desistir? — Ele perguntou, se antecipando a mim, parecendo ler os meus pensamentos.
— Sim. — Confessei, pois, aquele era o momento de dizer que eu não conseguiria ir em frente com aquilo, antes que fosse tarde demais.
— Já é tarde demais. — Ele falou e seu tom exalava uma frieza que me deixou aterrorizada, mais uma vez conseguindo ler em meu rosto o que estava se passando em minha cabeça.
— Eu não posso… Não vou conseguir! — Falei, alarmada.
— Vamos jantar.
O olhei incrédula. Como ele esperava que nós simplesmente sentássemos para jantar, após eu ter confessado que não conseguiria seguir com aquilo? Eu não conseguiria e ainda não era tarde demais, de forma alguma.
Eu sabia que a Rebeca e eu teríamos um grande problema com o agiota, mas constatei ser preferível ter problema com agiotas, do que ter de estar de maneira tão intima com um homem como aquele, que parecia ter uma pedra de gelo no lugar do coração. Ele não perecia ter sentimentos e eu era emotiva demais para me envolver, mesmo que brevemente, com alguém assim tão frio.
Mas antes que eu pudesse falar algo mais, apareceram dois garçons, que começaram a servir o jantar e ele fez apenas um gesto, que entendi dizer para que eu me mantivesse em silêncio e quando ele indicou que eu deveria sentar, eu o atendi, mesmo que a contragosto.
A verdade é que eu precisava ter em mente que estava em grande desvantagem ali, rodeada pelo oceano, em um iate com um homem que parecia ser frio e calculista e eu não devia brincar com o perigo, sendo que nunca o fiz e não tinha experiência alguma, no que dizia respeito a situações como aquela, visto que sempre me preservei bastante, mantendo-me o mais longe possível de encrencas e de pessoas que eu não conhecia ou que aparentavam ser totalmente diferentes de mim.
Decidi então que o melhor a ser feito naquele momento era tentar conversar com ele, mostrar o quanto tudo aquilo era uma total loucura e o convencer que aquilo não mais iria acontecer, pelo menos não entre nós dois, mas que ele poderia ter seu dinheiro de volta e, quem sabe até, arrematar outra virgem para si, já que aquele poderia ser alguma espécie de fetiche.
Quando já estávamos servidos, pensei em como falar aquilo que pretendia, mas de uma forma que ele entendesse que aquele era o meu desejo e poderíamos resolver tudo de maneira civilizada, sem que ninguém saísse perdendo, mas quando ele me encarou com seus olhos frios como gelo e duros como aço, eu já pude imaginar o que ele diria a seguir.
— Eu não vou mudar de ideia.
Ele falou de maneira tranquila, como se estivéssemos falando do tempo ou algo banal, quando, na verdade, aquele era um assunto muito sério. Eu estava deixando bastante claro que não desejava seguir em frente, que não queria mais me entregar para ele.
Só estando naquela situação pude entender a profundidade e o quanto o ditado popular que dizia que "beleza não é tudo" era verdadeiro, pois aquele era um espécime masculino perfeito, em se tratando de aparência, mas a dureza das suas expressões, assim como a sua falta de gentileza, causava uma sensação de algo parecido com descaso.
Era como se ele não precisasse me tratar bem, tal qual em uma relação normal, se buscava conquistar a outra pessoa, mesmo quando se desejava apenas uma noite de prazer, algo que mesmo sem ter experiência alguma, eu sabia ser assim que funcionava, pois, estava em todos os lugares, desde filmes, livros e até entre o meu círculo de amigos, minúsculo, é verdade, mas eu via acontecer.
Mas ele não parecia se importar com esse detalhe tão insignificante, como tratar bem a pessoa com a qual desejava t*****r, provavelmente por acreditar que por estar pagando para fazer aquilo, não precisasse de boas maneiras.
Contudo, era bem mais que isso, só compreendi quando era tarde de mais.