Capitulo 3: Pequena jessy

984 Palavras
Gabriel Salles Saio da delegacia exausto. Mais um dia atolado em sangue, corpos, pistas frias e criminosos que a justiça não alcança. Ao invés de ir direto pra casa, viro o volante em direção ao apartamento de Tamara. Depois de tudo o que vi hoje... só quero esquecer. Tamara. Morena de curvas generosas e língua afiada. Nada além de uma distração. Sei que sou casado com a Emma — e não, não me orgulho disso. Mas também não consigo me importar. Nos casamos por um motivo que nem existe mais: ela engravidou. Eu aceitei o compromisso achando que finalmente teria uma família. Mas o destino foi c***l. Perdemos o bebê. Depois disso... tudo virou rotina, distância e silêncio. O casamento já morreu. O que restou? Um contrato assinado, talvez um fio de afeto vazio. Ela não me cobra, não me pergunta onde estive, não chora pelas traições — talvez porque no fundo saiba que, quando estamos juntos na cama, ela ainda se sente viva. Mas Tamara... ela não pede nada. Só abre a porta, me recebe com pernas abertas e sorriso provocante. Assim que bato, ela abre num pulo e se joga nos meus braços. — Demorou hoje... — diz manhosa. — Você sabe que eu odeio cobrança. Não dou satisfação nem pra minha mulher, imagina pra uma v***a. Ela ri, nervosa. Eu não rio. A arrasto até o quarto. Brutal. Rápido. Do jeito que eu gosto. Estou quase lá quando o celular começa a vibrar. — Merda. — rosno, ignorando. Ele toca de novo. — c*****o, nem t*****r mais em paz eu posso?! — pego o aparelho, já pronto pra xingar o infeliz. Júlio. O que diabos o meu irmão quer essa hora? 📞 Ligação on — Júlio, c****e! Você me liga bem no meio de uma f**a?! — Bela recepção, irmão. E eu lá tenho bola de cristal pra saber que você tá trepando? — O que foi? Fala logo, desgraça. — Quero te pedir um favor. — Tô ouvindo. — Lembra da minha filha, a Jessy? Sua sobrinha? — Mais ou menos... Por quê? — Ela passou na NYU. Mas não quero que ela fique sozinha aí em Nova York. Pensei se você e a Emma podiam acolher ela por um tempo. — Uau... A Jessy já tá na faculdade? Quantos anos? — Dezenove. Faz vinte em dois meses. — c*****o, o tempo voa. Da última vez que vi ela, era uma pirralha correndo com fralda no quintal. — E aí? Pode ajudar ou não? — Claro. A Jessy sempre será bem-vinda na minha casa. A Emma vai gostar de ter alguém com quem conversar. — Obrigado, cara. — Quando ela chega? — Próxima semana. — Beleza. Peço pra Emma buscar ela no aeroporto. — Gabriel... cuida da minha princesa, tá? É a primeira vez que ela vai estar longe da gente. — Fica tranquilo, irmão. Vou cuidar da sua filha. — Valeu. Agora te deixo voltar à p*****a. — Demorou, seu merda. 📞 Ligação off Tamara me olha, mordendo o lábio. — Vai ficar mais um pouco? — Você esqueceu que sou casado? — Verdade… — Volto outro dia. — digo, já fechando a porta. Chego em casa e Emma já está dormindo. Tomo um banho rápido e deito ao lado dela. Amanhã conto sobre a vinda da Jessy. Peço pra ela avisar a governanta, arrumar o quarto de hóspedes. Faz tempo que não vejo a garota… A pequena Jessy. Aposto que ela nem lembra de mim. Mesmo não sendo filha biológica do Júlio, ele sempre a tratou como filha de sangue. E eu, de certa forma, também a considerei família. Até hoje. Mal sabia eu o impacto que a chegada dela teria na minha vida. (***) DIAS DEPOIS... Volto à rotina. Mortes. Investigações. Silêncios que gritam dentro da delegacia. Mas uma coisa tira meu sono — Jeremias Brown. O filho da p**a voltou. A nova vítima: um adolescente. Gay, jovem, iludido com uma promessa de emprego. Saiu de casa contra a vontade da mãe. Uma semana depois, encontraram o corpo jogado em um galpão abandonado no Queens. Sem coração. Sem rins. É o padrão de Jeremias. Tráfico de órgãos. Um mercado escuro, invisível, que consome os vulneráveis e recompensa os canalhas. A perícia confirmou. Rins, coração, baço. Removidos com precisão cirúrgica. A tabela dos horrores está na minha cabeça: Coração: 119 mil dólares Fígado: 157 mil Rins: 262 mil Litro de sangue: 337 Pele: 10 por polegada quadrada Dez anos investigando esse maldito. E mesmo assim... ele segue à frente. Um fantasma. Olho no relógio: 00h17. Termino os relatórios, deixo os corpos para os pesadelos e vou pra casa. Esperava encontrar a Jessy acordada. Queria ver como ela cresceu, ouvir sua voz. Mas já deve estar dormindo. Entro na cozinha. E então... — Ai, desculpa! — diz uma voz suave, esbarrando em mim. Me viro. E paraliso. Short rosa mínimo, blusinha branca colada revelando um pedacinho da barriga e o contorno dos s***s. Cabelo loiro preso num r**o de cavalo, rosto limpo, olhos verdes que brilham como os de um felino curioso. — Tio Gabi? — ela pergunta, sorrindo. — Jessy? — minha voz sai rouca. — Que bom te ver! — ela diz, me abraçando. Retribuo com certa hesitação. O abraço é rápido. E incômodo. Não por ela. Por mim. — O que faz acordada a essa hora? — Fome... e sede. Vim buscar água. — Entendi... Boa noite, pequena Jessy. — Boa noite, tio. — ela diz, sorrindo e subindo as escadas. Fico ali, parado. Olhos presos onde ela desapareceu. Mãos fechadas em punhos. — Ela é sua sobrinha. — sussurra meu subconsciente, nojento. Mas não é isso que meu corpo diz. Respiro fundo, volto para o quarto. Mas o cheiro dela ainda está na minha pele. E aquele sorriso... maldito sorriso. Alguma coisa começou a mudar hoje. E eu... não sei se vou conseguir controlar.
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