Gabriel Salles
Saio da delegacia exausto. Mais um dia atolado em sangue, corpos, pistas frias e criminosos que a justiça não alcança. Ao invés de ir direto pra casa, viro o volante em direção ao apartamento de Tamara. Depois de tudo o que vi hoje... só quero esquecer.
Tamara. Morena de curvas generosas e língua afiada. Nada além de uma distração. Sei que sou casado com a Emma — e não, não me orgulho disso. Mas também não consigo me importar.
Nos casamos por um motivo que nem existe mais: ela engravidou. Eu aceitei o compromisso achando que finalmente teria uma família. Mas o destino foi c***l. Perdemos o bebê. Depois disso... tudo virou rotina, distância e silêncio.
O casamento já morreu. O que restou? Um contrato assinado, talvez um fio de afeto vazio. Ela não me cobra, não me pergunta onde estive, não chora pelas traições — talvez porque no fundo saiba que, quando estamos juntos na cama, ela ainda se sente viva.
Mas Tamara... ela não pede nada. Só abre a porta, me recebe com pernas abertas e sorriso provocante.
Assim que bato, ela abre num pulo e se joga nos meus braços.
— Demorou hoje... — diz manhosa.
— Você sabe que eu odeio cobrança. Não dou satisfação nem pra minha mulher, imagina pra uma v***a.
Ela ri, nervosa. Eu não rio.
A arrasto até o quarto. Brutal. Rápido. Do jeito que eu gosto. Estou quase lá quando o celular começa a vibrar.
— Merda. — rosno, ignorando.
Ele toca de novo.
— c*****o, nem t*****r mais em paz eu posso?! — pego o aparelho, já pronto pra xingar o infeliz.
Júlio.
O que diabos o meu irmão quer essa hora?
📞 Ligação on
— Júlio, c****e! Você me liga bem no meio de uma f**a?!
— Bela recepção, irmão. E eu lá tenho bola de cristal pra saber que você tá trepando?
— O que foi? Fala logo, desgraça.
— Quero te pedir um favor.
— Tô ouvindo.
— Lembra da minha filha, a Jessy? Sua sobrinha?
— Mais ou menos... Por quê?
— Ela passou na NYU. Mas não quero que ela fique sozinha aí em Nova York. Pensei se você e a Emma podiam acolher ela por um tempo.
— Uau... A Jessy já tá na faculdade? Quantos anos?
— Dezenove. Faz vinte em dois meses.
— c*****o, o tempo voa. Da última vez que vi ela, era uma pirralha correndo com fralda no quintal.
— E aí? Pode ajudar ou não?
— Claro. A Jessy sempre será bem-vinda na minha casa. A Emma vai gostar de ter alguém com quem conversar.
— Obrigado, cara.
— Quando ela chega?
— Próxima semana.
— Beleza. Peço pra Emma buscar ela no aeroporto.
— Gabriel... cuida da minha princesa, tá? É a primeira vez que ela vai estar longe da gente.
— Fica tranquilo, irmão. Vou cuidar da sua filha.
— Valeu. Agora te deixo voltar à p*****a.
— Demorou, seu merda.
📞 Ligação off
Tamara me olha, mordendo o lábio.
— Vai ficar mais um pouco?
— Você esqueceu que sou casado?
— Verdade…
— Volto outro dia. — digo, já fechando a porta.
Chego em casa e Emma já está dormindo. Tomo um banho rápido e deito ao lado dela. Amanhã conto sobre a vinda da Jessy. Peço pra ela avisar a governanta, arrumar o quarto de hóspedes. Faz tempo que não vejo a garota… A pequena Jessy. Aposto que ela nem lembra de mim.
Mesmo não sendo filha biológica do Júlio, ele sempre a tratou como filha de sangue. E eu, de certa forma, também a considerei família. Até hoje.
Mal sabia eu o impacto que a chegada dela teria na minha vida.
(***)
DIAS DEPOIS...
Volto à rotina. Mortes. Investigações. Silêncios que gritam dentro da delegacia. Mas uma coisa tira meu sono — Jeremias Brown. O filho da p**a voltou.
A nova vítima: um adolescente. Gay, jovem, iludido com uma promessa de emprego. Saiu de casa contra a vontade da mãe. Uma semana depois, encontraram o corpo jogado em um galpão abandonado no Queens. Sem coração. Sem rins.
É o padrão de Jeremias. Tráfico de órgãos. Um mercado escuro, invisível, que consome os vulneráveis e recompensa os canalhas.
A perícia confirmou. Rins, coração, baço. Removidos com precisão cirúrgica.
A tabela dos horrores está na minha cabeça:
Coração: 119 mil dólares
Fígado: 157 mil
Rins: 262 mil
Litro de sangue: 337
Pele: 10 por polegada quadrada
Dez anos investigando esse maldito. E mesmo assim... ele segue à frente. Um fantasma.
Olho no relógio: 00h17.
Termino os relatórios, deixo os corpos para os pesadelos e vou pra casa. Esperava encontrar a Jessy acordada. Queria ver como ela cresceu, ouvir sua voz. Mas já deve estar dormindo.
Entro na cozinha. E então...
— Ai, desculpa! — diz uma voz suave, esbarrando em mim.
Me viro. E paraliso.
Short rosa mínimo, blusinha branca colada revelando um pedacinho da barriga e o contorno dos s***s. Cabelo loiro preso num r**o de cavalo, rosto limpo, olhos verdes que brilham como os de um felino curioso.
— Tio Gabi? — ela pergunta, sorrindo.
— Jessy? — minha voz sai rouca.
— Que bom te ver! — ela diz, me abraçando.
Retribuo com certa hesitação. O abraço é rápido. E incômodo. Não por ela. Por mim.
— O que faz acordada a essa hora?
— Fome... e sede. Vim buscar água.
— Entendi... Boa noite, pequena Jessy.
— Boa noite, tio. — ela diz, sorrindo e subindo as escadas.
Fico ali, parado. Olhos presos onde ela desapareceu. Mãos fechadas em punhos.
— Ela é sua sobrinha. — sussurra meu subconsciente, nojento.
Mas não é isso que meu corpo diz.
Respiro fundo, volto para o quarto. Mas o cheiro dela ainda está na minha pele. E aquele sorriso... maldito sorriso.
Alguma coisa começou a mudar hoje.
E eu... não sei se vou conseguir controlar.