Jéssica Cortez (JESSY)
Volto pro quarto com o coração acelerado e os pensamentos… bagunçados.
Eu não lembrava que meu tio Gabriel era tão bonito. Quer dizer, eu era criança na última vez que o vi, claro que não notaria isso... Mas agora? Agora é impossível não reparar.
Seus olhos cravados nos meus me causaram um calor estranho, interno, que subiu pelo meu corpo como uma corrente elétrica. E aquele abraço? Por Deus, até o toque dele me fez arrepiar.
A voz dele ainda ecoa na minha cabeça. Firme. Grave. Um pouco rouca. Aquela voz de comando que faz qualquer pessoa obedecer sem pensar duas vezes.
Precisei respirar fundo. Agir como se fosse só mais um "boa noite". Fingir que meu estômago não estava revirando de nervoso.
"Você tá maluca, garota?!" — grita minha consciência, surtando.
Sim, eu devo estar. Porque aquilo não foi normal.
Deito na cama e me viro para o lado, depois para o outro. Fecho os olhos. Abro. Fecho de novo. Mas o sono não vem. É meu primeiro dia na NYU, e se eu não dormir, amanhã vou parecer uma zumbi desidratada.
Suspirei fundo. Respira, Jessy. Pensa em outra coisa. Pensa em... qualquer coisa menos nos olhos do seu tio e no cheiro da colônia dele.
O despertador toca como um trovão no meio do silêncio. O susto é tão grande que caio da cama.
— Ai! — choramingo, esfregando o ombro.
Parabéns, Jessy. Você oficialmente começou seu primeiro dia de faculdade com a classe de um panda bêbado.
Levanto, tomo um banho rápido e escolho o look mais seguro possível: jeans, tênis e uma blusa branca social. Nada de mostrar pele. Nada de atrair olhares.
Olho no espelho e sorrio. Simples, elegante. A cara de quem ralou pra conquistar essa bolsa. Não vou desperdiçar.
Desço as escadas e paro no quarto degrau quando vejo Gabriel e Emma... discutindo. Eles não estão gritando, mas os olhares e os gestos falam por si. Tento recuar em silêncio, mas...
— Jéssica! Good morning! — diz Emma, com um sorriso educado.
— Bom dia… desculpa. Eu não queria interromper. — murmuro, meio sem jeito.
— Você não atrapalhou. — a voz de Gabriel é direta, firme. Olhos nos meus. Coração: ta-ta-ta-ta-ta.
— Vamos tomar café? Depois o Joseph te leva até a NYU. — Emma continua, já indo em direção à mesa.
— Obrigada, mas... posso ir de ônibus. Não quero incomodar.
— Nem pensar. — Gabriel se manifesta imediatamente, me olhando de novo. — Você acabou de chegar em Nova York, não conhece nada. E se algo acontecer com você, o Júlio nunca vai me perdoar.
Tento não desviar o olhar, mas falho. O jeito que ele fala. A intensidade. As palavras simples com aquele tom autoritário que... me desarma.
Ele termina o café e sai. E eu? Fico parada, observando a jaqueta militar que cai perfeitamente sobre os ombros largos, a calça jeans escura moldando as pernas fortes... Nem parece que ele tem quase quarenta anos.
Que inferno.
(***)
A NYU é linda. E enorme. Alunos por todo canto, risos, vozes misturadas com passos apressados.
Mas eu? Perdida no meio do campus.
Dou uma volta. Outra. Tento ler os mapas, mas nada faz sentido.
— Perdida? — pergunta uma voz suave.
Viro e vejo duas meninas sorrindo.
— Acho que sim… — digo, rindo sem graça.
— Oi, eu sou a Abigail, e essa é a Charlotte.
— Jessy. — respondo, estendendo a mão. — Jéssica, mas pode me chamar de Jessy.
— Primeira vez aqui, né? — Charlotte pergunta, já me analisando com simpatia.
— Primeiríssima.
— Então você vai colar com a gente. — diz Abigail. — Vamos te mostrar tudo.
— Sério? Obrigada, de verdade.
Graças às duas, logo estou na porta da sala certa. Entro, escolho um lugar discreto mais pro fundo e abro meu caderno. A professora — Hilary — se apresenta e começa a aula. O inglês dela é rápido. Preciso de atenção total pra acompanhar. Uma palavra aqui, outra ali, eu me enrolo, mas não me deixo abater.
Isso aqui é o meu sonho. E eu não vou tropeçar.
Na saída, reencontro as meninas. Elas me esperam com sorrisos animados.
— Você não é daqui, né Jessy? — pergunta Abigail.
— Não, sou do Brasil.
— Eu sabia! — diz Charlotte, animada. — Adoro o seu país! Meu pai não deixa eu ir por causa da criminalidade, mas um dia ainda vou.
— É… realmente, temos muitos problemas, mas já houve uma queda no índice de violência desde 2011.
— Seu português tem um som tão bonito! — diz Charlotte. — Parece música.
— E você tá morando sozinha aqui? — pergunta Abigail.
— Sozinha, mais ou menos. Estou morando com o meu tio.
— Ahh… então não é total liberdade ainda. — brinca Charlotte.
— Nem tanto. — sorrio, mesmo sabendo que liberdade é a última coisa que sinto quando o tio Gabriel me olha como se lesse minha alma.
Conversamos mais um pouco, até que Abigail lança:
— Jessy, vai ter uma festa na casa do meu primo sábado. Vem com a gente?
— Festa?
— Vai ser divertida. Nada muito louco. Só gente legal. A gente vai juntas, volta juntas.
— Tá bom… eu topo. — digo, meio hesitante, mas no fundo animada.
Nova cidade. Nova vida. Novas escolhas.
Só preciso... não me perder no caminho.
(****)
Entro em casa e, estranhamente, tudo está silencioso. Nenhum som vindo da sala, nem o aroma do café de Emma. Sigo até a cozinha e encontro Naná arrumando algumas coisas na bancada.
— Naná, cadê a Emma?
Ela sorri sem parar o que está fazendo.
— A dona Emma saiu, querida. Foi ao salão dar um jeito no cabelo.
— Ah, entendi. Obrigada. — digo, já subindo as escadas rumo ao quarto.
Me jogo na cama e encaro o teto por alguns segundos. Por mais bonita que a casa seja, esse lugar ainda não é meu lar. E, sinceramente, achei que seria menos solitário. Mas o tédio tem um gosto familiar... igualzinho ao de casa no Brasil.
Nunca fui de ter muitos amigos. E a única que eu realmente considerava minha melhor amiga dormiu com meu ex. O Paulo.
Ele teve a audácia de dizer que a culpa era minha. Que eu o deixei de lado. E, em partes, ele não mentiu. Eu me afastei. Me dediquei demais aos estudos, ao meu sonho. Mas ele sabia o quanto isso era importante pra mim.
Suspiro, caminhando até a janela. A vista de Nova York ainda parece surreal. Me perco na paisagem até ver um carro preto estacionando.
É o Gabriel.
Ele sai do carro com aquele jeito calmo e imponente. Logo depois, outro homem desce também. Alto, bonito, barba por fazer... mas não consigo focar muito nele. Meus olhos voltam pro meu tio.
"Seu tio, Jessy. Lembra disso."
Sou arrancada dos pensamentos quando o celular toca. Na tela, o nome da minha mãe. Um alívio me invade.
📞 Ligação ON
— Filha?
— Oi, mãe!
— Ai, meu amor, que saudade! Como você tá? Como foi o primeiro dia na universidade?
— Calma, mãe. Eu tô bem. O primeiro dia na NYU foi ótimo. Acho que fiz duas amigas. Também tô morrendo de saudade da senhora e do papai.
— Ah, que bom, querida.
— E... como ele tá?
— Seu pai tá bem. Mas sentindo muito sua falta, claro.
— Eu também. Dá um beijo nele por mim?
— Pode deixar. E me diz... O Gabriel e a Emma te receberam bem?
— Sim, muito. Até estranhei. Foram bem acolhedores.
— Fico feliz por isso.
— Mãe... a senhora sabia que o tio Gabriel é... bonito?
— Sim. Mas não mais bonito que o seu pai. — ela responde com humor.
— Nisso a gente discorda, mãe. Sinto muito. — digo rindo.
Silêncio do outro lado.
— Mãe? Tá aí?
— Tô... — ela hesita.
— Tá tudo bem?
— Jessy, meu amor, o Gabriel é bem mais velho que você... E além disso, ele é seu tio. Entende?
— Mãe! De onde você tirou isso?
— Nada, querida. É só que o Gabriel sempre foi um homem bonito... e um tanto mulherengo. Mesmo casado, ele... se diverte.
— Eu sei me cuidar, mãe. E não precisa se preocupar com isso, ok?
— Desculpa. Fico preocupada com você sozinha aí...
— Tá tudo bem. Eu prometo. Amo vocês.
— A gente também te ama. Qualquer coisa, me liga. Tchau, meu amor.
📞 Ligação OFF
Fico encarando a tela por alguns segundos. A voz da minha mãe, sempre tão segura, parecia cheia de receios. E talvez... um pouco de medo também.
Depois de um banho longo e relaxante, coloco uma roupa confortável e me deito com meu livro preferido: Sangue de Lobo, de Rosana Rios e Helena Gomes. Uma história sombria, cheia de suspense e mistério.
Já li essa obra mais vezes do que consigo contar. Mas ela nunca perde o encanto. Ana e Cris, o jogo de RPG, os assassinatos no século XX que voltam a acontecer cem anos depois... tudo me prende. Tudo me puxa pra dentro da trama.
Leio até que as letras começam a dançar na minha frente. O sono me vence.
(***)
Mais um dia de aula.
Dessa vez, recuso a carona do Joseph. Não quero parecer uma boneca rica escoltada por motorista. Preciso aprender a andar por Nova York como qualquer outro estudante.
Chego na NYU e logo avisto Abigail e Charlotte, rindo de alguma coisa.
— Oi, meninas! — cumprimento animada.
— Jessy! — diz Charlotte.
— Hey, my dear! — brinca Abigail.
Conversamos até nos separarmos para as aulas. Infelizmente, não estudamos na mesma sala.
O dia passa voando. Quando saio da última aula, vejo as duas esperando perto do estacionamento.
— Jessy, cadê o seu carro? — pergunta Abigail.
— Eu não tenho carro. Vim de ônibus.
Charlotte arregala os olhos.
— Você anda de ônibus? Que audácia! Quer uma carona?
— Obrigada, mas não precisa. Sério.
— Se não aceitar, a Charlotte vai te seguir até em casa só pra te provar que ela é insistente. — diz Abigail, rindo.
— Ok, ok... eu aceito.
Seguimos até o carro. Mas antes de entrarmos, as duas param e ficam com os olhos fixos em algo.
— UAU... — Abigail sussurra. — Que homem lindo.
Olho na mesma direção. E travo.
Gabriel.
Camisa cinza escura, calça jeans preta, óculos escuros e uma expressão que mistura mistério com perigo. Ele caminha em nossa direção com os passos firmes de sempre.
— Oh, homem gostoso... — cochicha Charlotte.
— Tio Gabriel? — solto, automaticamente.
As duas me olham como se eu tivesse acabado de dizer que era parente do Chris Hemsworth.
— O quê? — pergunta Abigail.
— Ele é meu tio. O que ele tá fazendo aqui?
— Você tá me dizendo que aquele... delegado tentação... é SEU TIO?! — diz Charlotte, quase gritando.
— Sim…
— Bom saber… — comenta Abigail com um sorrisinho estranho.
— Oi, garotas. — diz Gabriel, chegando.
— Tio, o que você tá fazendo aqui?
— Vim te buscar.
— Por quê?
Antes que ele responda, as meninas já se jogam no modo “flertes disfarçados”.
— Sou a Abigail. Muito prazer. — diz com um sorriso sedutor.
— Charlotte. — completa a outra, mordendo o lábio discretamente.
Gabriel apenas acena com a cabeça, com educação, mas sem muita conversa.
— Vamos, Jessy?
— Eu ia com elas...
— Outro dia, quem sabe. — ele diz, já caminhando.
— Tá tudo bem. Pode ir com o… seu tio. — diz Charlotte, piscando pra mim.
— Bye, garotas. — murmuro, um pouco constrangida.
Entro no carro com Gabriel. O cheiro da colônia dele invade o ambiente. Silêncio por alguns segundos.
— Por que não veio com o Joseph? — ele pergunta, sem tirar os olhos da estrada.
— Porque quero aprender a me virar sozinha.
— Isso não vai acontecer de novo. Entendeu?
— Por quê?
Ele não responde. Apenas acelera.
Fico olhando pela janela, mas ainda sinto o peso do olhar dele de vez em quando, atravessando meu campo de visão.
Tem algo ali.
Algo que não deveria existir.
Mas que tá crescendo.
E me consumindo devagar.