capítulo 13:

1213 Palavras
Dias se passaram e continuei tentando. Fui paciente, tentei me aproximar de novo. Um dia, encontrei Júlio na biblioteca, imerso em um livro. Parecia uma chance de tentar mais uma vez. – Você gosta de ler? Eu também passo muito tempo aqui – comentei, tentando iniciar uma conversa. Ele nem levantou os olhos do livro. A frieza em seu comportamento era como um muro que eu não conseguia derrubar. Mas eu era teimoso. Queria entender. – Eu realmente não sei o que fiz para você não gostar de mim, Júlio – disse, com a voz baixa, tentando não parecer desesperado. – Talvez a gente pudesse começar do zero? Eu realmente gostaria que fôssemos amigos. Dessa vez, ele levantou os olhos, e o que vi neles me deixou paralisado. Havia uma dor profunda, algo que eu não conseguia entender completamente, mas que senti ser de alguma forma relacionada a mim. – Você não entende, Sérgio – ele disse, sua voz carregada de uma tristeza que não conseguia esconder. – Não é o que você fez. É o que você representa. As palavras dele me atingiram com força. Eu estava confuso. O que eu representava? – Você tem tudo o que eu queria – ele continuou, sua voz agora tremendo levemente. – Um pai presente. Uma vida que eu poderia ter tido, se ele não tivesse me deixado para trás. Toda vez que eu vejo você, lembro de todas as vezes que ele não esteve lá para mim. E isso... isso dói. Você não tem culpa, eu sei. Mas não consigo olhar para você sem sentir essa raiva. Ouvir aquilo me desmoronou por dentro. Eu sempre achei que minha vida fosse normal, que meu pai sempre estivesse ali porque era o que os pais faziam. Mas para Júlio, Sandro era uma ausência. Era a falta de algo que ele nunca teve. Eu nunca havia parado para pensar que, enquanto eu tinha meu pai, Júlio e sua mãe estavam lidando com o vazio que ele deixou. Eu tentei falar, mas as palavras não saíam com facilidade. – Eu... sinto muito, Júlio. Eu não sabia. Nunca pensei que... – comecei, mas ele interrompeu. – Eu sei que você não tem culpa, Sérgio. Mas não sei se posso lidar com isso agora. Talvez, um dia... eu consiga. Mas, por enquanto, só preciso de espaço. Assenti, respeitando o pedido dele. Me levantei e o deixei sozinho, sentindo uma tristeza profunda no peito. Eu só queria ser seu amigo, mas agora entendia que isso não seria tão simples. Talvez o tempo curasse essas feridas. Mas eu não podia ter certeza. Enquanto caminhava para fora da biblioteca, não conseguia parar de pensar nas palavras de Júlio. Eu nunca pensei que meu pai poderia ser a fonte de tanta dor para alguém. Sandro era meu herói, o homem que sempre esteve lá para mim. Mas para Júlio, ele era o fantasma que nunca apareceu. Eu queria ajudar, mas sabia que não podia forçar nada. Júlio precisaria de tempo para processar tudo, e talvez, um dia, ele me visse como alguém além do reflexo do nosso pai. Júlio Depois que Sérgio saiu, senti uma mistura de alívio e tristeza. Finalmente tinha dito o que estava me corroendo por dentro, mas isso não fazia a dor desaparecer. Ainda havia o vazio. O vazio que Sandro havia deixado. Mesmo que Alexandre fosse o melhor pai que eu poderia ter, aquela parte de mim que ansiava pelo meu pai biológico ainda existia. E a presença de Sérgio só intensificava essa dor. Eu sabia que Sérgio não tinha culpa. Ele não escolheu ser o filho preferido de Sandro, ele não escolheu ter uma vida completa enquanto eu ficava com os pedaços. Mas saber disso não fazia com que a raiva dentro de mim diminuísse. Fechei o livro, olhando para a janela da biblioteca. Lá fora, a vida continuava. O mundo girava, como se nada tivesse mudado. Mas para mim, tudo estava diferente. Eu precisava de tempo. Tempo para entender meus sentimentos, tempo para aceitar que, por mais que eu quisesse, algumas coisas nunca seriam como eu imaginava. Mas uma coisa era certa: eu precisava de distância. Distância de Sérgio, de Sandro, e de tudo o que representavam. Talvez, um dia, as coisas mudassem. Mas hoje, a única coisa que eu queria era ficar sozinho com meus pensamentos. O Passado que Volta Enquanto Júlio lidava com seus sentimentos, longe dali, Sandro também estava enfrentando o peso do passado. Ele havia reencontrado Talita meses atrás, e o choque de saber que ela estava prestes a se casar com outro homem o devastou. Talita revelou a ele que estava criando Júlio sozinha e que havia escolhido seguir em frente com Alexandre, o homem que a ajudara a reconstruir sua vida. O reencontro com Talita foi um golpe para Sandro, que, até aquele momento, acreditava que poderia ter outra chance com ela e com Júlio. Agora, ao perceber que Talita havia encontrado felicidade em outra pessoa, Sandro se viu lutando com a culpa e o arrependimento. Talita havia deixado claro que não havia espaço para ele em sua nova vida, e isso me deixou perdido. Agora, enquanto lidava com os sentimentos por sua antiga família e a distância de Júlio, Sandro se via confrontado por escolhas que o levaram a perder o que mais importava. Júlio Eu estava radiante quando terminei a escola naquele dia. Era um daqueles momentos raros em que eu me sentia leve, como se tudo estivesse no lugar. Mas a sensação de vitória logo foi abalada. Quando ouvi alguém me chamar, minha alegria desapareceu no mesmo instante. Me virei lentamente e vi a última pessoa que queria encontrar: Sérgio, e ao lado dele, Sandro. Meu corpo inteiro ficou tenso, e a raiva que eu vinha tentando enterrar ressurgiu como um vulcão prestes a explodir. A presença de Sandro era um lembrete vivo de tudo o que ele me tirou – tudo o que ele e minha mãe perderam por causa da escolha dele de nos abandonar. Apertei os punhos com força, tentando manter o controle, mas cada fibra do meu ser queria correr para longe. Ou melhor, queria gritar, confrontar, fazer com que ele sentisse um pouco do que eu sentia. – Júlio! – A voz de Sérgio me alcançou novamente. Ignorei. Não queria ter que lidar com ele. Para mim, Sérgio era apenas uma extensão do abandono que sentia por parte de Sandro. Como eu poderia ser amigo dele, sendo que ele vivia a vida que eu sempre quis? Ao meu lado, Alexandre notou que alguém estava me chamando. – Filho, tem alguém te chamando? – perguntou ele, sua voz sempre tão calma, sempre tão presente. Eu engoli seco, tentando esconder o turbilhão de emoções que me consumia. Não queria que Alexandre soubesse o quanto aquilo me abalava. – Sim, pai. Mas não me importo. Já disse que não quero nada com aquele garoto – respondi, tentando manter minha voz firme e fria. Alexandre franziu a testa, claramente preocupado, mas não insistiu. Ele sabia respeitar meus limites, e por isso, sempre me senti tão seguro ao lado dele. Mas Sandro, ouvindo nossa conversa, decidiu se aproximar. Ver ele ali, tão perto, me fez sentir um desconforto intenso. Era como se eu estivesse preso entre dois mundos.
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