Desculpe, meu filho deve ter feito algo para que você não queira ser amigo dele. Júlio, certo? – disse Sandro, sua voz carregada de uma formalidade que me irritava. Ele estava tentando se mostrar educado, como se isso apagasse tudo o que ele fez.
O nome dele ecoou na minha mente como uma ameaça. Eu queria responder com raiva, queria despejar tudo o que estava sentindo, mas me contive. Mantive meu tom controlado, mesmo que por dentro estivesse fervendo.
– Sim, sou eu. E não é nada pessoal, mas prefiro ir devagar com as amizades. Sérgio não é o tipo de amigo que quero para mim – disse, tentando deixar claro que não queria me aproximar de ninguém daquela família.
Olhei para Sandro, esperando alguma reação, algo que mostrasse que ele entendia o quanto sua presença me machucava. Mas ele continuava a me observar, intrigado. Algo no jeito como ele me olhava me incomodava profundamente, como se ele estivesse tentando enxergar além da superfície, como se estivesse buscando algo em mim.
– Sou Sandro, pai do Sérgio. E você, Júlio, por que não quer Sérgio como amigo? – Sandro me perguntou diretamente, como se fosse a coisa mais simples do mundo. Ele queria uma resposta clara, mas a verdade era muito mais complicada do que ele poderia imaginar.
Antes que eu pudesse responder, Alexandre interveio, percebendo que a situação estava ficando desconfortável.
– Sou Alexandre, pai do Júlio. E meu filho tem o direito de escolher suas amizades. Não quero forçá-lo a nada que o deixe desconfortável – disse ele, com firmeza, como sempre fazia quando queria me proteger.
Eu senti uma onda de alívio percorrer meu corpo. Alexandre sempre sabia o que dizer para me fazer sentir seguro, para me fazer sentir que eu não precisava enfrentar tudo sozinho. Ele era o pai que eu sempre quis. Olhei para Sandro, esperando que ele entendesse que Alexandre era o meu verdadeiro pai, o homem que me apoiava, que estava ao meu lado.
Sandro, por outro lado, continuava a me observar com atenção. Quando revirei os olhos, impaciente, ele captou o gesto de uma maneira estranha. Algo em seu olhar mudou, como se ele estivesse tentando ligar os pontos, tentando entender algo que ainda não conseguia.
Sérgio olhava para mim com tristeza nos olhos, claramente frustrado por não conseguir se aproximar. Ele queria ser meu amigo, mas eu não conseguia. Como poderia? A presença dele só me lembrava de todas as vezes que Sandro não esteve ao meu lado, todas as vezes que precisei de um pai e só tive minha mãe.
– Tudo bem, Júlio. Talvez um dia possamos ser amigos – Sérgio disse, sua voz cheia de uma esperança que me incomodava. Ele não entendia. E, de alguma forma, aquilo me deixava ainda mais irritado. Como alguém poderia ser tão cego?
Eu olhei para Alexandre, buscando algum tipo de orientação, e ele, como sempre, estava ao meu lado. A conversa entre ele e Sandro continuou, mas eu não queria ouvir. Estava cansado. Queria sair dali, queria fugir daquela situação.
– Alexandre, que tal irmos todos juntos à sorveteria depois da escola? – sugeriu Sandro, tentando, de alguma forma, forçar uma aproximação.
Meu corpo inteiro ficou tenso. Eu não queria isso. Não queria estar perto dele, e muito menos de Sérgio. Alexandre, sempre sensível aos meus sentimentos, percebeu imediatamente.
– Acho que o Júlio está um pouco resistente, Sandro. Talvez em outro momento – Alexandre respondeu, com delicadeza, mas deixando claro que não seria agora.
Sandro tentou disfarçar sua frustração, mas eu pude ver que ele não esperava essa resposta. Ele queria se aproximar de mim, mas eu não estava pronto para isso. Não sabia se algum dia estaria.
– Tudo bem, entendo – respondeu Sandro, com um sorriso forçado. – Vamos deixar que as coisas aconteçam no tempo deles.
Eu soltei um suspiro de alívio quando percebi que Alexandre estava ao meu lado, que ele não me forçaria a nada. Mas, ao mesmo tempo, uma parte de mim se perguntava se eu estava tomando a decisão certa. Será que eu deveria tentar entender mais sobre Sandro? Talvez, se eu soubesse o porquê ele nos abandonou, poderia finalmente ter alguma paz.
Sérgio continuava ao lado de seu pai, em silêncio, claramente tentando entender o que estava acontecendo. Ele queria me entender, queria se aproximar, mas havia algo que ele nunca seria capaz de compreender: a dor de ter sido deixado para trás.
Enquanto eles se afastavam, senti uma mistura de emoções. Parte de mim estava aliviada, outra parte ainda estava com raiva. E no fundo, havia uma pequena voz que sussurrava, me perguntando se eu estava deixando uma oportunidade de entender o passado escapar.
Mas, por enquanto, tudo o que eu queria era distância. Distância de Sandro, de Sérgio, e de todas as lembranças dolorosas que eles traziam. Eu precisava de tempo, precisava processar tudo isso. Talvez um dia, eu conseguisse lidar com o que sentia. Mas não hoje.
Enquanto caminhávamos para longe da escola, ao lado de Alexandre, eu sabia que ainda havia muito a ser resolvido. Mas, pelo menos por agora, eu estava exatamente onde precisava estar.
Sandro
Depois daquele encontro com Júlio e Alexandre, minha mente não conseguia se desprender do que aconteceu. Não era apenas a resistência de Júlio que me perturbava, mas sim o que ele representava. Cada vez que eu o via, algo nele trazia à tona um passado que eu tentei enterrar. Sentado em minha cadeira de couro no escritório da empresa, olhando para a cidade movimentada através da janela, tudo o que eu conseguia pensar era em Talita.
Como Júlio podia se parecer tanto com ela? Seus gestos, a forma como ele olhava para as coisas... era como se, de alguma maneira, ela ainda estivesse presente. Cada vez que eu tentava me concentrar no presente, era como se as memórias invadissem minha mente, tornando impossível focar no que estava à minha frente.
– "Como ele pode me lembrar tanto dela?" – pensei. A cada gesto, cada olhar, Júlio trazia Talita de volta à minha vida, como uma ferida aberta que eu nunca consegui realmente curar.
Havia uma mistura de alegria e dor em lembrar de Talita. Lembranças doces do que tivemos, mas também amargas, sabendo que a perdi. Eu havia feito minhas escolhas, segui em frente, ou ao menos pensei que tinha seguido. Mas agora, ao olhar para o filho de outra pessoa – um garoto com sua própria vida – eu estava revivendo emoções que pensei estarem enterradas para sempre.
Depois de uma tarde improdutiva no escritório, decidi voltar para casa. Mas mesmo lá, no ambiente familiar e tranquilo, minha mente estava a mil. Sentei no sofá, e logo Sérgio se juntou a mim. Era claro que ele também estava sendo afetado por toda essa situação com Júlio.
– "Pai, eu realmente tentei me aproximar de Júlio, mas ele não quer falar comigo."
Olhei para meu filho. Ele estava genuinamente chateado. Sérgio sempre foi alguém que as pessoas gostavam naturalmente, então a rejeição de Júlio estava pesando nele.