capítulo 15: Reencontro

1385 Palavras
Você não está fazendo nada de errado, filho," disse, tentando confortá-lo. "Às vezes, as pessoas precisam de tempo. Júlio está lidando com muitas coisas novas, e ele talvez precise de espaço para processar tudo." Sérgio parecia pensar no que eu disse. Ele queria uma solução, algo mais concreto, mas isso não era algo que podíamos forçar. – "Dê a ele espaço. Não precisa insistir. Deixe que ele venha até você quando estiver pronto," continuei. – "Mas isso não vai fazer ele pensar que eu não me importo?" – Sérgio perguntou, preocupado. – "Não, vai mostrar que você respeita o tempo e os sentimentos dele. E isso é o que constrói uma amizade verdadeira." Ele assentiu, mas eu sabia que isso não era fácil para ele. Sérgio queria consertar as coisas, queria resolver rapidamente, mas Júlio era um enigma que precisaria de tempo e paciência. Depois que Sérgio subiu para o quarto, fiquei sozinho na sala. O silêncio da casa parecia amplificar meus pensamentos. Eu não conseguia afastar a imagem de Júlio. Ele era como um espelho que me mostrava o que poderia ter sido, uma vida que escolhi não viver. Não era justo projetar meus arrependimentos nele, mas não podia evitar. "Como ele pode se parecer tanto com Talita?" – pensei novamente, sentindo uma dor profunda no peito. Talvez eu estivesse apenas sendo nostálgico, vendo coisas que não existiam. Mas não conseguia afastar a ideia de que havia algo mais. Cada vez que olhava para Júlio, era como se eu estivesse olhando para ela. Fiquei ali, sentado, mergulhado nas memórias e nas emoções, até que finalmente decidi sair de casa. Eu precisava de ar, de uma distração. Peguei o carro e comecei a dirigir sem rumo, apenas para escapar de meus próprios pensamentos. Duas semanas depois Ainda que eu tentasse seguir em frente, a imagem de Talita e a semelhança de Júlio não saíam da minha mente. Passei os dias no trabalho, mas minha cabeça estava em outro lugar. E foi em uma tarde de sexta-feira que algo dentro de mim mudou. Decidi sair mais cedo do escritório. Algo estava me empurrando para fora daquele ambiente. Entrei no carro e comecei a dirigir sem destino. As ruas da cidade passavam por mim como se eu estivesse em piloto automático. O rádio tocava suavemente, mas eu m*l percebia a música. Meus pensamentos estavam longe, presos em memórias de um passado que eu não conseguia ignorar. Sem perceber, me encontrei dirigindo por um bairro antigo. Um bairro que eu não visitava há anos, mas que conhecia bem demais. Era o lugar onde Talita morava. Cada esquina, cada árvore, trazia uma lembrança. Eu reduzi a velocidade, meus olhos vagando pelas ruas familiares. Então, eu a vi. Lá, na faixa de pedestres, Talita atravessava a rua. Minha respiração parou, e por um momento, o tempo pareceu desacelerar. Ela estava ali, caminhando com a mesma graça de sempre, exatamente como eu lembrava. O mundo ao nosso redor desapareceu. Tudo o que eu conseguia ver era ela. Meu coração disparou, e eu fiquei ali, paralisado, apenas observando. Mas antes que eu pudesse reagir, um carro passou ao meu lado, bloqueando minha visão por um segundo. Quando o carro passou, ela já não estava mais lá. Eu pisquei, confuso. Será que eu realmente a vi? Ou minha mente estava pregando peças em mim? Fiquei ali parado, tentando entender o que havia acabado de acontecer. Olhei ao redor, mas ela havia desaparecido. O que era aquilo? Uma memória vívida demais? Ou será que realmente a vi? Encostei o carro na calçada, minhas mãos tremendo no volante. O que eu faria se realmente a visse de novo? Tantas perguntas passavam pela minha cabeça. Talvez fosse apenas minha mente criando uma imagem do que eu queria ver. Mas o impacto dessa visão me deixou desnorteado. "Não posso continuar assim," pensei, sentindo a frustração crescer dentro de mim. "Preciso descobrir o que realmente aconteceu entre nós. Por que a imagem dela não sai da minha cabeça?" Olhei para a faixa de pedestres mais uma vez, esperando algum sinal. Mas a rua estava vazia. A sensação de perda, de algo que poderia ter sido, me consumia. Com um suspiro pesado, liguei o carro e comecei a dirigir de volta para casa, decidido a encontrar respostas. Eu precisava saber se havia alguma chance de entender o que o destino estava tentando me mostrar. Sandro Enquanto as luzes da cidade brilhavam na escuridão da noite, eu sabia que havia algo maior em jogo. Eu precisava enfrentar meu passado, por mais doloroso que fosse. Não podia mais viver com as sombras das escolhas que fiz. Talita, Júlio... havia tantas perguntas que eu ainda não conseguia responder. Mas uma coisa era certa: não podia continuar fugindo. Eu estava pronto para buscar as respostas, mesmo que elas me levassem a lugares que eu temia revisitar. Talvez, ao confrontar o passado, eu finalmente pudesse encontrar a paz que tanto buscava. Talita Era mais um dia comum no trabalho. Não que eu precisasse trabalhar, claro, mas o que eu fazia me dava uma sensação de realização. Quando saí da sala do meu chefe, os braços cheios de papéis e a mente distraída pelas responsabilidades, minha cabeça estava longe. Estava imersa nas mil tarefas do dia. Sem perceber, entrei no elevador. Apertei o botão sem nem olhar para quem estava ao meu redor, concentrada em tudo o que precisava resolver. De repente, uma voz familiar me tirou dos meus pensamentos. Parecia distante, como um eco de algo que eu conhecia tão bem, mas que há muito tentava esquecer. Uma onda de reconhecimento percorreu meu corpo antes mesmo de eu processar o que estava acontecendo. Virei-me lentamente, como se o tempo tivesse desacelerado, e lá estava ele. Sandro. Ver aquele rosto trouxe à tona um turbilhão de emoções que eu não estava preparada para enfrentar. O choque e a descrença nos olhos dele me acertaram em cheio. E então, o peso de todos os anos que passei tentando me reconstruir caiu sobre mim. Todo o esforço para deixar aquele passado para trás, tudo aquilo desmoronou diante da presença dele. – "Talita? É você?" – A voz dele tremia, cheia de incredulidade. Como se não acreditasse que estava realmente me vendo. Eu fiquei paralisada por um momento, lutando contra o impulso de acreditar que tudo aquilo não passava de um sonho. Mas quando senti a mão de Sandro tocando meu braço, o contato físico me trouxe de volta à realidade. Não era um sonho. Ele estava ali. Na minha frente. Memórias de anos atrás começaram a invadir minha mente. Como se eu fosse sugada de volta para aquele tempo, quando tudo era mais simples, antes de tudo desmoronar. O rosto dele, mais maduro agora, mas com os mesmos olhos que um dia eu tanto amei, me fez reviver todas as feridas que tentei enterrar. Anos atrás, eu estava sentada na minha sala de estar, o controle remoto pendendo frouxamente em minhas mãos enquanto assistia à televisão. As imagens de um casamento passavam na tela, mas cada cena me atingia como uma facada no peito. Lá estava Sandro, o homem que eu amava, trocando votos com Paula, minha amiga. Minha amiga de tantos anos, agora no lugar que eu um dia sonhei estar. Eu me lembro das lágrimas que escorriam pelo meu rosto enquanto via aquilo. O homem que eu amava estava nos braços de outra mulher, e o pior, essa mulher era alguém que eu confiava, alguém que eu considerava amiga. Eu fiquei ali, imóvel, incapaz de acreditar no que estava vendo. Então, como se aquilo não fosse dor o suficiente, a repórter anunciou que Paula estava esperando um filho de Sandro. "Filho?" A palavra ecoou na minha cabeça, me atingindo como um golpe mortal. A traição parecia completa naquele momento. Não havia mais dúvidas. O homem que eu amava estava construindo uma vida com outra pessoa. E eu? Eu fiquei com os pedaços. Foi nesse dia que decidi ir embora. Sem avisar, sem explicações. Eu não tinha forças para enfrentar Sandro, para ouvir suas justificativas. Peguei minhas coisas e fui embora, deixando para trás tudo o que havíamos construído juntos. Deixei um bilhete curto, sem revelar que eu também tinha um segredo: eu estava grávida. Mas isso não importava mais. O amor que sentíamos estava destruído
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