Pré-visualização gratuita Dia Triste
Bato os dedos impacientemente sobre a mesa sem nenhum interesse em prestar atenção nas palavras do senhor Thorn, pego meu celular verificando pela nona vez se tinha alguma novidade. Olho ao meu redor, pensando seriamente e fingir uma dor de barriga para ir embora, deito a cabeça sobre meus braços na clara intenção de me desligar daquele ambiente. Passei a noite inteira em claro no hospital, pois minha mãe não tinha mais condições psicológicas para ficar com meu tio. Faziam duas noites seguidas que ela não desgrudava do banco duro e frio da sala de espera, eu tentei de todo modo a persuadir a ir para casa e descansar, mas ela só ficou tranquila em ir quando eu me ofereci para ficar no seu lugar. Meu tio tem uma doença no coração e usa marcapasso dês de criança, estávamos em casa quando os colegas do trabalho dele, que faziam o mesmo caminho que ele na volta do trabalho, ligou avisando que ele tinha desmaiado no caminho de casa, segundo os médicos ele está inconsciente e o coração está muito fraco, a notícia veio como uma bomba para mim e minha mãe.
Meu corpo está quebrado e meu cérebro cansado demais para notar uma voz irritante chamando meu nome. A voz insiste mais algumas vezes.
- Senhorita Harper. - ergo a cabeça e olho para o senhor Thorn com os olhos inchados de sono. - Eu estou lhe entediando?
Conhecendo com o conheço, ele provavelmente estava a ponto de ter um surto psicótico a qualquer momento, seus olhos castanhos mel me fitavam irradiando ondas de desprezo. Com certeza ele já estava me observando a mais tempo do que eu gostaria.
- O que? Você fala nosso idioma? Português é seu idioma certo? - pergunta ficando cada vez mais impacientemente. - Espero que tenha estudado, senhorita Harper, na verdade, eu espero que todos você tenham aproveitado muito bem a minha companhia, já que não são todos os professores que deixam os alunos dormirem no meio da explicação.
- Sinto muito, senhor Thorn. - minhas palavras trazem um sorriso desdenhoso naquele rosto desprezível.
O professor Thorn é um dos meus professores favoritos, minhas notas são sempre exemplares na sua disciplina, admiro a habilidade e a facilidade que ele tem de conseguir explicar o que se propôs na matéria, mas nem tudo são flores, muitas vezes ele chega totalmente sem paciência e qualquer deslize de um aluno, o coitado vira alvo fácil de suas grosserias.
- Bom, como eu estava dizendo e como vocês já bem sabem, eu vou ter que me ausentar por alguns meses indeterminados. O senhor Evans vai ficar em meu lugar apartir de...
- Com licença. - a voz do inspetor interrompe o senhor Thorn que agora o encara sem interesse. - O diretor está chamando a senhorita Harper na sala dele.
Meu coração trava e meus pulmões automaticamente fecham.
- Claro, pode ir Harper. - fala Thorn sem esconder seu contentamento.
Levanto sentindo meu corpo ficar dormente, não a motivos para tal nervosismo mas, quando o diretor te chama na sala dele, não é um bom sinal.
- Leve suas coisas, por favor.
As palavras finais do inspetor aumentam ainda mais o meu nervosismo. O que tá acontecendo? Não me lembro de ter feito nada, não consigo nem imaginar o por quê de tudo isso. O senhor Thorn me encara com um olhar curioso e ao mesmo tempo satisfeito, eu realmente fiz a proeza de irrita-lo logo hoje.
- Boa viagem, senhor Thorn. - desejo ao antes de sair da sala.
Me flago pensando em como seria ótimo se o diretor simplesmente me mandasse para casa por pura piedade, mas sei que não posso perder as provas finais, estamos no final do último bimestre, preciso manter tudo impecável mesmo não tendo cabeça para mais nada, Deus sabe o quanto eu tento focar nas provas que estão vindo, mas minha mente sempre volta para o ambiente mórbido e gélido do hospital onde minha mãe se encontra nesse instante. Hoje antes de vir para a escola parei perto do leito do meu tio, curvei o corpo precionando os lábios em sua testa. A imagem dele imóvel ainda me perturba muito.
Balanço a cabeça forçando meu cérebro a apagar a sua figura da minha mente, nem que seja só por alguns instantes, senão é provável que eu me acabe em lágrimas.
- Oi, senhor Ford? Queria falar comigo? - anúncio minha presença falando atrás da porta fechada.
- Pode entrar e fecha a porta, por favor.
Obedeço suas instruções fechando a porta logo em seguida, sem olhar em sua direção caminho com passo largos até a grande mesa marrom. Pelo o tom da voz dele, não consegui detectar nenhum sinal de alerta, o que me faz franzir o cenho e um certo medo crescer timidamente no meu coração.
- Sente-se. - ele pede com cuidado. Ok. Isso tá ficando cada vez mais estranho. Como um robô, eu faço tudo o que ele pede com êxito. - Sua mãe está vindo aqui te buscar, então você vai ficar aqui até ela chegar, ok?
O que?
- Por que? Eu fiz alguma coisa? - pergunto rápido demais e começo a sentir seu olhar pesar cada vez mais em cima de mim. - Se eu fiz...
- Não senhorita Harper, não se preocupe, sua mãe vai te explicar melhor quando chegar. - ele interrompe minhas palavras, sua tentativa de me tranquilizar falha miseravelmente. No fundo tenho uma pequena suspeita do que seja, mas na realidade não quero aceitar. Essa desconfiança começou quando o inspetor chamou meu nome, eu só não quero ver, não posso ver, não estou pronta pra isso.
Levanto a cabeça e finalmente o encaro, ele sustenta meu olhar por algum tempo e volta para os papéis em sua mesa. Sinto que o diretor estar tenso o que definitivamente joga uma pedra no assunto.
Passo minutos ali olhando para o teto, o que mais parecem ser horas. Checo o celular e não a nenhuma mensagem da minha mãe, ela poderia pelo menos me avisar que está vindo, pelo menos eu não teria sido pega de surpresa assim.
O barulho de sapatos interrompe meus pensamentos, fazendo meu olhar se voltar para a porta, o diretor me acompanha também em seguida se levanta para abrir a porta. Minha mãe entra na sala com os olhos vermelhos, sinto o peso de toda a dor que ali contém, e não consigo ter reação nenhuma, apenas fico parada olhando para seu rosto inchado de tanto chorar. Ela caminha até mim e se ajoelha, segura minhas mãos que repousavam no meu colo dando um beijo nelas, seus olhos voltam a me avaliar como se tentasse buscar palavras mais agradáveis de soltar.
Não. Ela não consegue falar aquelas palavras, está presa na sua garganta, e ela não teria a ousadia de soltar, todo o mundo poderia desabar se as palavras saíssem da sua boca. Meu tio é o pai que eu nunca tive, ele sempre cuidou tão bem de mim, não me imagino sem o seu carinho, o sorriso e principalmente aquele abraço.
Olho para o caramelo dos seus cabelos ondulados, tiro uma das mãos de baixo da sua, e faço carinho nos cabelos da mulher ajoelha na minha frente.
- Tá tudo bem. — falo quando ela tenta dizer algo. Não quero ouvir. — Eu amo você, mamãe.
Ela levanta a cabeça e seus olhos se enchem de lágrimas, lágrimas silenciosas, lágrimas agradecidas, lágrimas de puro desespero.
Pego seus braços, e a ajudo a se levantar do chão, assim que estamos de pé a puxo para um abraço forte.
- Não se preocupe, senhora Harper. — a voz do diretor me faz lembrar onde estávamos. — Acabei de suspender as provas de hoje e do resto da semana da sua filha, vamos conversando durante os próximos dias para ver uma data conveniente para ela voltar a escola e fazer as provas.
Minha mãe se afasta de mim e se vira para o senhor Ford, o homem grisalho lhe lança um sorriso cheio de compreensão.
- Obrigada, senhor Ford. — ela agradece e me chama com a mão. — Vamos, filha. Seu tio não tem muito tempo, ele acordou e quer te ver.
- Ele não...
- Ainda não. — fala com a voz carregada.
Nós despedimos do diretor, e fomos embora direto para o hospital. No caminho só consigo pensar "E se eu não chegar a tempo de falar com ele?" "E se ele se for e eu não consegui falar o quanto ele foi importante para mim durante todo esse tempo?" Respiro fundo resgatando o pouco da calma que ainda me restou. Saiu do carro encarando a grande entrada do hospital, sinto meu coração morrer a cada passo, o largo corredor branco aparece no meu campo de visão, olho com tristeza para a cadeira no qual a poucas horas atrás eu estava sentada.
Uma enfermeira sai do quarto do meu tio, e assim que nós vê faz um sinal para nós aproximarmos.
- Olá, sou a enfermeira Fanny. — se apresenta com um sorriso social. — Acabei de medicar o senhor Harper, então ele pode estar um pouco grogue mas, sugiro que falem com ele agora. — ela para e respira fundo. — Infelizmente ele tem pouco tempo, não posso dar um prazo pois não sabemos, pode ser algumas horas ou alguns minutos. Então aproveitem para se despedir e tranquiliza-lo nessa hora difícil.
Ela vai embora nos deixando sem saber o que fazer.
- Vai mamãe. — peço apontando para a porta. — Eu vou depois de você.
Ela faz menção em protestar mas, eu a deixo indo em direção a porta do hospital.
Minha mãe é casada com meu tio, ela tem que se despedir primeiro do que eu, me sinto melhor assim. Meu tio sempre esteve presente na vida dela dês da sua gravidez. Duas semana depois que meu pai foi embora, ela descobriu que estava grávida. Minha mãe não quis falar nada, preferiu esconder e meu tio sempre foi contra, ele tentou fazer com que ela contasse mas, nada adiantou. Com o passar do tempo, eles acabaram se apaixonando e casaram. Eu tinha uns 5 anos quando eles subiram no altar, ainda lembro do cheiro de rosas e perfume.
Ele é meu pai de coração, e não tenho nenhuma vontade de ir conhecer o biológico.
- Emilly. — minha mãe me chama do corredor. — Vem, ele quer te ver.
Ela deixa a porta aberta e se senta com as mãos no rosto, seu choro silêncio me faz respirar fundo. "Força Emilly."
- Oi. — ele fala me encarando com aquele velho sorriso de sempre. Chego mais perto dele. — Filha. Minha filha.
Com aquelas palavras ele arranca todo o meu alto controle, acaba com qualquer racionalidade que ainda me restava. As lágrimas começam a escorrer pela minha bochecha em um volume considerável, assim que seu olhar cansado alcança o meu, ele estica o braço na minha direção tentando secar as lágrimas das minhas bochechas.
- Não chore, filha. — pede ainda sustentando o sorriso.
- Eu... Eu amo você, pai. — falo morrendo de vontade de abraçar ele. — Está doendo?
Ele ergue a sombrancelha para mim, e balança a cabeça confirmando.
- Me dói ver você chorando. — revela ele com suas lágrimas começando a se formar em seus olhos azuis. Eu sempre achei meu tio um homem lindo, seu cabelo loiro mais puxado pro escuro lhe dava um charme estonteante. Até em seu leito de morte ele continua com a beleza intacta. — Eu preciso te contar uma coisa, filha.
- Pode falar, pai. — falo me aproximando mais dele. — Eu estou aqui.
Sua expressão ficou séria de repente e tem uma coisa no seu olhar que me deu um gelo na espinha.
- É sobre seu pai. — ele fala bem lentamente. — Nunca te contamos a história inteira sobre ele, nunca te contamos o por que dele ter ido embora... — confessa atento a qualquer reação minha. — Eu e sua mãe tínhamos um caso enquanto ela ainda era casada, e assim que seu pai descobriu, ele foi embora. Seu pai não deixou ela de propósito e como você já bem sabe, ele não sabia que sua mãe estava grávida de você. — Assim que ele concluiu sinto meu mundo cair, seguro na beirada da cama para me manter firme.
Minha raiva pelo meu pai biológico foi totalmente em vão todos esses anos? Ele não merecia nenhum pingo do meu ressentimento, como os dois tiveram coragem de me esconder isso por tanto tempo? Afinal de contas, ele continua sendo o meu pai. Nunca quis e nunca tive vontade de procurar pelo meu pai, por que sempre tive raiva por ele ter largado minha mãe, e os dois sabiam disso, sabiam desse meu ódio e não fizeram nada para impedir, por puro medo. Eles temiam que eu ficasse com raiva deles por terem traído meu pai.
Respiro fundo e o braço.
- Eu te perdoo. — minhas palavras fazem seus olhos soltarem as lágrimas que estava ameaçando cair, dês que eu passei pela porta.
- Obrigado, filha. — ele agradece, seus olhos cheios de culpa me encaram com tanta intensidade, que acho que estou começando a sentir a dor dele. — Eu amo você, filha. Sinto muito por nunca termos contado a verdade, eu me sentia muito culpado e doía a possibilidade de você não me perdoar ou ficar brava com sua mãe. Mas, agora vejo que a única pessoa prejudicada foi você. Sua mãe nunca quis contar pro seu pai na época por medo dele achar que você era minha filha, por isso ela nunca quis procurar o seu pai... Tem uma foto do meu irmão na minha gaveta do escritório, atrás dela tem o endereço da casa onde ele mora agora, desculpa por você nunca ter visto nenhuma foto dele. — ele dá uma pausa assustadoramente longa, e por um segundo acho que ele está se desligando do mundo até que ele toma um fôlego enorme, antes de continuar. — Tiramos o direito de você ir procurar ele, e eu nunca vou me perdoar. Se um dia você encontrar com ele, fala que eu sinto muito. Eu o amo, diga a meu irmão que o amo... Me perdoe, filha...
- Fica em paz, eu já te perdoei, pai. — falo na tentativa de acalmar ele.
O que aconteceu em seguida, foi tudo muito rápido, as máquinas apitando, minha mãe ajoelhada no chão chorando, as enfermeiras me arrastando para fora do quarto, meu tio imóvel e uma das enfermeiras fechando os olhos dele com a mão livre.
Tudo o que eu consigo fazer é chorar, só chorar, chorar lembrando os momentos ótimos que passamos juntos, ele me ensinando a andar de bicicleta, ele me levando para o parquinho, ele me defendendo das meninas que queriam me bater na escola, sempre ele, só ele. Ele cuidou de mim, ele foi meu pai.