O vento frio bate no meu rosto quando eu abro a porta de casa, desço a varanda indo em direção ao carro. Nunca me imaginei indo para o enterro do meu tio, a pessoa que eu mais amo no mundo, o meu pai, meu herói, e sabe o que é mais engraçado? Depois de tudo o que ele disse antes de falecer, eu não consigo sentir mágoa e nem raiva, só pena de mim mesma. Meu pai biológico não sabe da minha existência, toda aquela raiva gratuita que existia em mim, nunca deveria ter existido. Me pego pensando em como ele está agora, se ainda pensa em minha mãe, e por algum momento dou razão a ele. Minha mãe traiu ele com o próprio irmão, e o próprio irmão ficou com a sua mulher. No lugar do meu pai eu também teria ido embora.
- Olá, senhor Ford. — ouço a voz da minha mãe o cumprimentando com o celular no rosto. Abro a porta do carona, e me ajeito no banco sem olhar em sua direção. — Obrigada. — ela para por uns segundos. — Sim, dia 14 ela pode sim. Muito obrigada de novo, senhor Ford.
"Exausta" é a palavra exata para descrever minha mente neste instante. Espero que tudo ocorra bem, por que eu não estou com cabeça para fazer prova.
- Emilly... Precisamos conversar. — o tom sonoro de sua voz, me faz virar a cabeça em sua direção.
Sua voz parece aflita e ansiosa. Sinceramente não estou a fim de conversar com ela, admiro a tentativa apesar de que ela mesma saiba que é falha. Volto a deitar a cabeça na janela, minha atenção é focalizada nas nuvens cinzas se formando no céu, o tempo está tão escuro que tenho a convicção que o mundo pode acabar a qualquer momento. Respiro fundo sentindo o carro começar a balança com a partida no motor. Com certeza, meu tio deve ter falado com minha mãe sobre conversar comigo, e o que mais me intriga é o fato de que se meu tio ainda tivesse vivo, provavelmente eu nunca saberia da verdade.
Depois do hospital, minha mãe ficou ocupada cuidado de tudo, não teve nenhum tempo livre o que foi ótimo, pois eu precisava de um tempo sozinha para absorver tudo, era muita coisa para a minha cabeça. A casa ficou naquele silêncio estranho, e a sensação de que estava faltando algo era evidente, tudo colaborou para que nenhum sentimento ruím sobre meu tio floresce, só o que eu sentia era saudade, muita saudade.
- Connor me ligou. — fala ela chamando minha atenção. O nome dele me faz congelar. — Emilly.
- Mãe. — as palavras saem esganadas. — Eu não estou bem para conversar agora.
Seus olhos se enchem de lágrimas.
- Filha, sabe que não foi minha intenção te esconder nada. — finalmente ela se prontificou a falar sobre o assunto. — Não foi culpa do seu tio...
- Foi culpa dos dois. — a interrompi, escondendo a indignação que começou a crescer lentamente dentro do meu ser. Seus olhos se enchem ainda mais lágrimas.
- Seu pai não queria ter um filho. — cospe as palavras sem nenhuma piedade.
- Isso é por acaso alguma justificativa para não me contar? — pergunto sem me importar. — Se responsabilize por seus atos, mãe.
Ela fica parada engolindo cada sílaba.
- Não estou me justificando, só estou falando os motivos de eu não ter contado ao seu pai. — fala tentando manter a calma. — Se quiser jogar a responsabilidade em mim, você pode e tem direito disso. Só não faça o mesmo com seu tio.
Mas, ela ainda acha que não é a responsável?
- E em quem mais eu jogaria tudo isso? Afinal, foi os dois que traíram o meu pai. — falo sentindo a palma das minhas mãos suarem.
- Olha como fala comigo, Emilly. — repreende seria. — Eu ainda sou sua mãe.
Paro por um instante para me acalmar, antes de falar algo que não devo. Ela não gostou do rótulo "trair"? Engraçado por que foi exatamente o que fizeram com o meu pai. Com a intenção de ignorar minha mãe, fito as gotas de chuva que escorrem pela janela do carro.
- Ei. Olha pra mim. — súplica. O tom sério de sua voz foi embora em um piscar de olhos.
Continuo olhando para a chuva que agora está mais forte.
- Já disse que não estou bem para conversar. — falei seca.
- Se tiver alguma coisa que queira me perguntar, fique a vontade. — falou desistindo da conversa. — Não vou mentir pra você.
Seco a palma das mãos no vestido, antes de me virar para ela. Minha reação a pegou de surpresa. Espero ela estacionar o carro, e então respiro fundo tentando formular as perguntas em minha mente.
- Você em algum momento amou o meu pai? — as palavras saem como uma bomba, e consigo ver em suas expressões que o impacto a pegou em cheio.
- Claro que sim. — afirma se ajeitando no banco. — Ele foi meu primeiro amor.
Vê-la se referindo a outro homem naquele sentido, é estranho, sempre a vi falando do meu tio com tanta paixão, que nunca acreditei que ela amasse meu pai de verdade, sempre acreditei que fosse um erro de percurso.
- Quanto tempo você passou com ele?
- Namoramos por 8 meses e passamos 4 anos casados. — explica olhando para o nada. — Toda vez que olho para você, eu me lembro dele. — ela fala virando o corpo, e finalmente olhando em meus olhos. Um sentimento de saudade invadiu meu coração, saudade de um contato que eu nunca tive com ele, e que não sei se um dia eu vou ter. — Você é a cara dele.
- Ele era um cara legal? — pergunto por impulso.
Ela sorri com o pensamento longe.
- Sim, ele era um cara incrível. — fala com um sorriso triste. — Me arrependo todo o dia de nunca ter me separado, ele não merecia tudo o que aconteceu.
Na verdade, ninguém merece uma traição dessas. Antes que eu pudesse notar, sinto as lágrimas caírem em meu colo. Me antecipo em sair do carro, para não dar tempo de minha mãe falar algo.
Sem me importar com a chuva encharcando meu vestido, caminho em silêncio ao aglomerado de pessoas. Amigos e familiares estão reunidos envolta do caixão aberto, ignorando todos os olhares me aproximo do corpo do meu tio. Ele está tão sereno e tranquilo, que até parece estar dormindo, seu corpo está vestindo um belo terno azul escuro e uma calça preta social. Era seu conjunto favorito.
Abaixo os olhos analisando cada detalhe.
- Oi. — um voz macia sussurra perto de mim.
Me viro para ele. Nunca o vi tão bem arrumado assim, o cabelo loiro bem penteado para o lado esquerdo, a camiseta branca meio aberta lhe deu um charme estonteante, combinou bem com a calça jeans preta, seus olhos azuis me encaram com preocupação.
- Sinto muito, Emilly. — fala se aproximando um pouco mais, vejo o pedido silêncio de seus olhos, atendo quase de imediato o abraçando com força, sem me importar de estar toda molhada.
Connor protege meu corpo com seu guarda-chuva grande, sorriu contra seu peito o agradecendo mentalmente.
- Connor. — sussurro seu nome, e como resposta, seus braços se fecham mais ainda ao meu redor.
- Tá tudo bem, amor. — me conforta fazendo carinho em meus cabelos.
- Me desculpe não ter falado com você, esses dias foram complicados. — falo tentando conter as lágrimas que ainda insistem em aparecer. — Não queria te deixar preocupado.
- Liguei para sua mãe, ela disse que iria te pedir pra me ligar.
- Me desculpe. — peço novamente.
- Vem cá. — fala me apertando mais. — Não precisa se desculpar, tá tudo bem, meu amor.
Connor é meu porto seguro, sempre quando as coisas estão péssimas eu corro para seus braços, mas desta vez eu precisava encarar isso sozinha. Nós conhecemos na escolinha e dês daí nos tornamos inseparável, já na adolescência conhecemos nossa melhor amiga Júlia. Ela está em Dubai agora, a família dela viaja bastante e como ela já antecipou todas as provas para viajar com eles, não pode vir hoje.
- Amanhã faz 2 anos que estamos namorando, Connor. — falo mais para mim do que para ele. — E eu não consigo pensar em sair de casa, dorme essa noite comigo por favor.
Ele afasta o corpo do meu e ergue meu queixo com a ponta dos dedos, seus olhos transbordando carinho já me dão a resposta que eu preciso.
O enterro foi rápido, a maior dos nossos parentes eram na verdade "meus" parentes, todos familiares do meu tio. Nunca os encontrei, e agora sei o por que, sinto os olhares fortes em cima de mim, e como se tudo o que estivesse acontecendo fosse culpa minha.
Ao observar o caixão do meu tio baixar, o meu coração começa a doer a tal ponto que tenho a certeza de que vou morrer. Mordo meus lábios com força e sinto o gosto metálico de sangre penetrar minha boca. Ele se foi. Meu pai se foi. Quero gritar para que abram a caixa de madeira gigante e tirem ele dali, mas tudo o que consigo fazer é chorar. Connor desarma o guarda-chuva assim que a chuva acaba.
Uma idosa se ajoelha e finca seus dedos na terra recém molhada pela chuva, ela chora copiosamente.
- Eu errei com vocês, me perdoe. — a senhora desabafa. — David, eu falhei como mãe.
Um homem se aproxima e a pega pelos cotovelos, ela resiste por alguns instantes, mas logo aceita a ajuda e se levanta. Observando os dois caminharem para longe, um pensamento cruza minha mente como um relâmpago e assim que me dou conta do fato, meu coração começa a acelerar numa velocidade preocupante. Ela é minha vó.
Eles passam por minha mãe, a senhora lhe lança um olhar de desprezo antes de seguir em frente.
Um casal sussurra entre eles algumas palavras, disfarçadamente viram a cabeça em minha direção.
- Amor. — falo apertando a mão de Connor. — Vamos embora.
Não suporto todos esse olhares curiosos e desdenhoso me encarando, eles podem até serem da minha família, mas eu nunca deixarei que olhem para mim assim. Afinal, que culpa eu tive nesse rolo todo? Eu não pedi pra nascer, e definitivamente nunca pediria se tivesse a opção.
- Vou ao banheiro antes, amor. — Connor anuncia.
- Tudo bem, vou te mostrar onde é.
Voltamos para dentro da grande casa, e em alguns momentos posteriores chegamos ao banheiro.
- Não vou demorar. — fala dando um beijo no topo da minha cabeça.
Assim que ele desaparece do meu campo de visão, algumas vozes chamam minha atenção. Elas vêem do salão onde o caixão do meu tio era velado.
- Quem você pensa que é para aparecer aqui? — a voz flutua até meus ouvidos.
Caminho na ponta dos pés e olho pela fresta da porta entre aberta.
- Sério, Cody? — minha mãe pergunta indignada. — A esposa do seu filho. Preciso de mais motivos?
O homem grisalho fecha a cara, mas em nenhum momento minha mãe se intimida.
- Quanto você quer pra desaparecer de vez? — pergunta sacando um talão de cheques do bolso. — Pense bem, por que é última vez que eu vou te oferecer. Vamos fale seu valor.
Minha mãe levanta a sobrancelha perplexa com a atitude do homem.
- Eu não quero seu dinheiro. — declara minha mãe com o orgulho abalado.
- Aqui está. — fala a ignorando totalmente, ele termina de rabiscar no cheque e lhe entrega.
- Eu já disse que não estou a venda, senhor Harper. — minha mãe cospe as palavras erguendo o cheque, em seguida o rasgando lentamente.
Ele observa a atitude dela, travando a mandíbula de raiva.
- Você já não fez o bastante? Agora aparece aqui com essa... — ele para gesticulando a mão no ar como se estivesse se referindo a algo sem valor. — Essa... Essa garota que nem sabe se é do David ou do Caleb.
Os olhos da minha mãe faíscam se puro ódio, ela se aproxima e joga o que antes significava muito dinheiro, na cara do homem.
- Você pode me xingar, me humilhar, mas nunca mais se refira a minha filha assim. — minha mãe fala apontando o dedo bem no seu rosto. — O que fizemos foi muito errado, mas ela não tem culpa de nada. — ela para por um momento tomando fôlego. — E pra sua informação, ela é sim filha do Caleb, quer você queira ou não.
- Você não passa de uma aproveitadora, que enganou os dois direitinho. È tudo culpa sua que ele não veio hoje.
Minha mãe puxa o ar com força como se tivesse com dificuldade para respirar.
- Talvez seja culpa minha mesmo, mas pelo menos eu sou mulher suficiente para admitir. — fala se segurando no banco atrás de si. — Eu e a Emilly vamos nos mudar em breve, mas não ache que é por sua causa ou da sua família nojenta.
O homem sorri pela primeira vez, um sorriso debochado e cheio de maldade.
- Família nojenta? — ele debocha rindo. — Essa família nojenta corre no sangue da sua filha, minha querida.
- Emilly... - a voz de Connor chama a atenção das duas pessoas no qual eu observava atentamente. Eles me flagram antes que eu consiga me afastar. — O que está fazendo?
Com passos largos me afasto da porta e corro até Connor, ele me olha sem entender.
- Me leva embora por favor. — falo agarrada em sua camiseta.
- Sim, posso passar lá em casa primeiro pra pegar minha coisas pra hoje a noite? — pergunta mais como se tivesse pedindo autorização.
Assinto e puxo ele para fora da casa, quando ouço os passos da minha mãe. Não estou a fim de ouvir mais nada, não por hoje. Que história é essa de que "vamos nos mudar sem nem falar comigo?" E o Connor? A Júlia? Minha vida é aqui, espero que ela só tenha falado isso dá boca pra fora, pois não vou sair dessa cidade e nem desse país.