- Emilly! — a voz agitada de Julia ecoa em meus ouvidos.
Pego o travesseiro e sem abrir os olhos arremesso nela, ela ri.
- Acorda! Não vim até aqui para te ver dormir! — ela grita jogando o travesseiro no meu rosto.
Abro os olhos me deparando com a minha velha amiga Júlia, os seus lindos olhos castanhos estão me fitando com ansiedade. Sento na cama usando os dedos para esfregar a testa.
- O que foi? Você não dormiu direito? — ela estreita os olhos.
Olho para minhas mãos sentindo minhas bochechas esquentarem.
- Bom dia pra você também, Júlia. — falo tentando tirar o assunto em questão, mas não dá muito certo.
- Connor não te deixou dormir? — pergunta com um sorrisinho sacana.
Connor realmente estava querendo aproveitar a nossa última noite aqui, ele não me deu folga um minuto. Passamos a madrugada namorando e quando o cansaço falava mais alto, ele me dava uma pausa me entretendo com suas brincadeiras. Sexo não era muito o ponto forte dele, mas pra mim o amor que sentimos um pelo outro sempre compensa tudo.
Minha falta de resposta confirma tudo.
- Ele te destruiu. — fala me analisando como se fosse uma especialista.
Balanço a cabeça dando um sorriso constrangido.
- Você não tem jeito. — falo finalmente olhando para ela. — Não aconteceu nada de mais.
- Como não? Olha o seu estado. — ela fala rindo muito. — E esse chupão enorme no pescoço?
Droga.
Tento cobrir o pescoço com o lençol, minha reação desesperada faz Júlia rir até perder o fôlego.
- Qual é, Emilly? Somos amigas não precisa se esconder. — fala deitando do meu lado. — Além disso, você se entrega demais. Não tem chupão nenhum no seu pescoço.
Sim, Júlia está certa. Ela sabe sobre como o sexo com Connor é frustrante, mas eu ainda sinto vergonha do assunto.
- Não estou me escondendo... É só que é complicado e você sabe disso.
Ela me encara com atenção.
- Você deveria contar a ele como você se sente em relação ao sexo. Os dois poderiam resolver juntos.
Sorriu triste.
- Isso não importa mais pra mim. — falo convicta. — O nosso amor é mais forte.
Ela senta na cama e pega minha mão.
- Emilly, f********o só por obrigação não é sexo de verdade. — ela fala com o pensamento longe. — Agora sexo com amor, isso sim é o puro prazer.
- Está dizendo que eu não amo o Connor?
- Não. Estou dizendo que você não expressa seus sentimentos enquanto estão transando. — conclui jogando os braços pro alto.
E mais uma vez eu tenho que concordar com ela, seria mais sensato se eu conversasse com Connor, não estou sendo honesta em esconder. Mas, foi um decisão minha e não pretendo voltar a trás. Até por que ele ficaria extremamente chateado se descobrisse que escondi essa questão por tanto tempo.
- Não faço por obrigação.
- Quer parar de mentir? — fala revirando os olhos.
- Não estou mentindo. Só não quero ter que falar pro meu namorado que não sinto prazer no sexo.
Ela pensa por alguns instantes e quando volta a olhar pra mim, já tem uma pergunta na ponta da língua, mas logo desiste.
- O que foi? — pergunto curiosa.
- Até quando vai aguentar essa situação?
- Eu amo ele, e sexo pra mim é só um detalhe. — falo refletindo sobre todas as vezes que tivemos momentos maravilhosos juntos.
Ela balança a cabeça rindo. E aí está, o seu bom humor rotineiro voltando.
- Já aconteceu algo parecido com você? — minha pergunta faz seu rosto ficar reflexivo.
- Só uma vez, aí tive que fingir orgasmo também. — conta com um tom de reprovação. — Foi a pior experiência s****l da minha vida. Por isso que vou continuar insistindo pra que um dia você tome coragem e conte pro Connor.
Abaixo a cabeça pensando sobre como é cansativo ter que fingir sempre, nenhuma vez ele desconfiou e dou graças por isso.
- Júlia, ele vai ficar muito chateado se souber. Não quero e não posso voltar atrás. — as palavras saem da minha boca como um desabafo.
Ela bufa desistindo da conversa.
- Tudo bem, a vida é sua. — conclui cansada. — Mas, escute o que eu vou falar. Connor é o seu primeiro namorado e vai chegar uma hora que você vai olhar para os lados, é inevitável, e então cuidado pra não achar em outro homem, o que você nunca teve com o Connor. Sexo de verdade. Então sugiro que arrisque conversar com ele, antes que seu relacionamento acabe.
Olho para ela chocada.
- Não vou chegar ao ponte de trair ele. — falo intrigada.
- Emilly. Me escuta. — ela se aproxima mais. — Somos seres humanos, temos defeitos e falhas. Você vai se sentir atraída por alguém, isso é normal, só cuidado para a curiosidade não falar mais alto, por que você nunca experimentou ter prazer e é fácil cair em tentações.
Levanto da cama caminhando até o guarda roupa, reviro minhas regatas e apanho a foto do meu pai e guardo no bolso sem que ela veja. Não é que eu não confie em Júlia, é que eu quero ter que conversar sobre o assunto, não estou com cabeça.
- Desculpa se te deixei chateada. — pede Júlia, ouço ela se virando na cama para me observar.
Ela não me deixou nenhum pouco chateada, eu entendo a suas intenções e sei que está apenas tentando me proteger. Mas, mesmo assim não acho que vou trair Connor, ele é bom demais para mim. Não gosto nem de pensar nessa possibilidade.
Pego minhas três malas surradas e jogo elas no chão.
- Me ajuda a fazer as malas, Júlia?
Meu pedido logo é atendido, ela pega minhas roupas e separa uma por uma na cama, formando colunas alinhadas de shorts, calças, camisetas, regatas, blusas de frio e até meus sapatos ficaram bem organizados ao pé da cama.
- Cadê o viado do Connor? — pergunta fingindo indignação.
- Ele saiu de manhãzinha, disse que voltaria para levar eu e minha mãe ao aeroporto. — falo colocando a última peça de roupa terceira mala, guardo com cuidado a foto do meu pai dentro do meu diário.
- Pra onde você está indo se mudar mesmo? — Júlia pergunta distraída com o zíper da mala.
- Frankfurt. — respondo triste.
Ela sorri empolgada.
- Me conta tudo quando chegar lá. Se tiver muitos gatinhos, você me fala que eu vou correndo te visitar. Dizem que os alemães são uns gostosos. — ela fala rápido demais, dá pra ver o quanto ela queria estar no meu lugar.
- Sossega, Júlia. — finjo indignação e ela ri alto.
- Se eu fosse o Connor não deixaria você ir nem fodendo. — brinca gargalhando. — É muita concorrência pro coitado.
Dessa vez eu não me aguento, as gargalhadas de Julia são contagiantes, perco o ar de tanto que me divirto rindo junto com ela.
- Não fala assim dele. — falo tentando parecer seria diante da brincadeira.
Júlia ri ainda mais, ela se joga na cama com a mão na barriga.
- Tadinho, se ele não se apressar em agradar a namorada, vai perder para um altão loiro dos olhos azuis. — fala entre gargalhadas, ela abana o rosto sem fôlego para respira. — Pobre Connor! A concorrência pira!
Caiu na cama ao seu lado sem me conter, me obrigo a para de rir sentindo minha barriga doer muito.
- Preciso tomar banho. — eu falo levantando.
- Vai lá, você precisa ficar bem na fita. — ela brinca massageando a barriga. Provavelmente está sentindo mais dor que eu.
- i****a. — xingo me segurando para não começar outra sessão de risos.
- Do que vocês duas estão falando? — a voz de Connor chama nossa atenção.
Seu corpo está encostado na parede ao lado da porta, com os olhos vidrados em mim. Ele está todo bonito, incrível como qualquer roupa que ele coloque fique perfeito nele, por um momento tenho que fechar a boca pra não babar.
- Oi... Aham...
- Oi, Connor. — Júlia me interrompe em voz alta chamando sua atenção. — Estávamos falando da Emilly me arrumar um namorado na Alemanha.
Connor estreita os olhos, desconfiado talvez? Sua expressão não demonstra nada.
- Talvez não seja uma má ideia, você tá precisando mesmo desencalhar, Júlia. — ele fala encarando Júlia da cabeça aos pés, me fazendo rir.
Júlia lhe lança um olhar de presunção.
- Queridinho, pra sua informação, eu não preciso que me arranjem homens mas, como minha amiguinha vai pra a Alemanha, eu só preciso que ela me indique o mais bonito que eu faço o resto. — ela fala com desdém.
Prevendo o seu ciúmes, pego minhas roupas que separei pro banho e caminho para o mais longe possível deles.
- Covarde. — grita Júlia.
Olho para trás erguendo a toalha e as roupas.
- Ué vou tomar banho, não posso perder o vôo. — eu falo ignorando um Connor muito bravo de braços cruzados.
Quando estou entrando no banheiro ouço a voz de Julia falar "Connor, eu disse que era para arranjar um namorado para mim, e não para ela, desmancha essa cara vai. Foi só uma brincadeira."
A essa altura do campeonato, não me imagino mais sem o Connor, prefiro namorar a distância por um tempo do que perder ele.
Depois de um bom banho, encontro Júlia deitada na minha cama, com o celular na mão digitando.
- Cadê o Connor?
Ela levanta os olhos do aparelho.
- Levou suas malas para o carro, agora tá ajudando sua mãe com as dela. — ela informa dando ombros.
Só agora notei a falta das malas, pego uma sacola encima da escrivaninha e coloco minhas roupas.
A viagem até o aeroporto foi tranquila, Júlia não parava de falar que iria sentir muito minha falta, me fez prometer várias vezes de ligar e mandar mensagem e por um instante achei que estivesse chorando. Connor não disse uma única palavra, seu olhar já demonstrava que não estava nada bem. Aquilo fez meu coração morrer.
Me pego desejando que tudo isso fosse um sonho, um pesadelo muito r**m. Olho pra fora sentindo meu peito afundar.
O carro estaciona e já me apresso em sair. Connor sai logo em seguida para abrir o porta mala. Com as malas em mãos caminhamos todos juntos para fazer o check-in e ir direto para o portão de embarque.
- Acho que é isso, obrigada pessoal. — agradece minha mãe.
Os dois lhe lançam sorrisos educados, que não combinam nada com o estado de espírito deles.
Júlia mexe nos dedos tentando desesperadamente não chorar.
- Vem cá. — falo puxando ela para um abraço longo e forte.
Seus braços me apertão com força, as lágrimas escorrem pelas bochechas dela molhando toda minha blusa.
- Não é um adeus.
- Me manda mensagem, não esquece de mim. — ela pede pela décima vez naquele dia.
- Pode deixar.
Assim que ela se afasta, Connor me abraça e me levanta, retribuo automaticamente. Seu abraço me desarmou, toda a força que eu estava tendo para me despedir, sumiu em um piscar de olhos.
- Nos veremos logo. — sussurra em meu ouvido.
- Promete?
- Prometo. — fala com um pesar em sua voz. — Não vai escapar fácil de mim, Emilly. Eu amo você.
Ele me solta, minhas pernas ficam bambas e simplesmente acho que vou desmaiar se o encarar.
- Eu também te amo.
Sem ser capaz de encara-lo, pego minhas malas e caminho para o avião, ouço os passos da minha mãe acompanham os meus. Isso tem um nome, e se chama covardia. Estou sendo muito covarde em não olhar em seus olhos e dizer adeus.
Quando finalmente sento no meu lugar me arrisco a buscar meu namorado e minha melhor amiga. Júlia bate nas costas de Connor, tentando consolar sua tristeza. Os dois caminham para longe, até que enfim não consigo mais vê-los.
Respiro fundo, fecho os olhos e não preciso me esforçar tanto para dormir, já que Connor me deixou a noite inteira acordada, tenho que me lembrar de agradecer ele por isso.