Acordo no meio da noite, com o suor escorrendo pela testa. Connor dorme tranquilamente agarrado a minha cintura, sua figura serena faz meu coração parar no peito. Como eu vou ir para tão longe e deixá-lo aqui? A ideia parece absurda e quase inimaginável, mas que escolha eu tenho? Apesar de amar a possibilidade de estudar em Frankfurt, sou obrigada a abdicar meu convívio com Connor e Júlia.
De repente uma coisa me vêm a mente. E o meu pai? Se ele morar por aqui, as chances de encontrá-lo seriam nulas. As palavras do meu tio ainda ecoam em meu cérebro, me fazendo levantar da cama tomando os devidos cuidados para não acordar o belo homem ao meu lado. Como eu pude esquecer?
Corro escada a baixo, e caminho com cuidado até o escritório do meu tio, sinto o sentimento de vazio encher minha alma quando passo pela porta, o cómodo ficou mórbido e triste demais para alguém querer ficar aqui sem ficar abalado, balanço a cabeça para afastar qualquer lembrança que queira assombrar meus pensamentos e foco na gaveta onde está a foto.
Acendo o abajur ao lado, meu coração está martelando no peito quando meus olhos encontram um foto, nela está meu tio e outro rapaz, os dois estão com roupas da universidade de Frankfurt, meu tio repousa o braço sobre o ombro do garoto que por sua vez, possui um sorri genuíno nos lábios. Os dois parecem muito felizes. Uma lágrima escorreu sobre minha bochecha assim que viro a foto tenho a confirmação. Sim, é o meu pai.
A foto tem o endereço de Frankfurt, ele mora na Alemanha? Por que minha mãe está querendo me levar até meu pai? É impossível que seja mera coincidência.
Saio do ambiente mórbido que se transformou o escritório do meu tio, e vou me sentar no sofá da sala fria. Nesse momento meu pai biológico pode até saber que eu existo, mesmo duvidando que Cody vá contar, já que tentou subornar minha mãe, mas quem sabe alguém avulso da família não tenha feito o serviço?
Olhando para a foto que transborda felicidade, sorriu sentindo vontade de saber mais sobre ele, aquele homem que me deu a vida e sem nem sabe disso, que foi injustiçado e traído pelo próprio irmão e a mulher e agora aqui estou, morrendo de saudade de momentos que nunca tive e nunca vou ter com ele.
Volto para o meu quarto com a foto em mãos, guardo entre minhas roupas e deito ao lado de Connor, ele assim que sente que estou próxima, puxa meu corpo para um longo abraço apertado.
- Senti sua falta. — Connor sussurra, seus olhos fechados dão a falsa impressão de que estava num sono profundo, meu achismo cai por terra quando ele volta a falar. — Por que está vestida?
- Eu estava com sede, não podia descer sem roupa. — sussurro brincando.
- Quando formos morar juntos, você não vai precisar se preocupar. — sussurra causando quase uma parada cardíaca no meu coração. Ele nunca tinha falado sobre morar comigo, e sinceramente não sei se estou suando ou tremendo.
- Bom, quando vou ter essa honra? — continuo disfarçando minha reação.
- Eu não sei. — fala rindo baixinho. — No futuro quem sabe, senhorita Spenser.
Reviro os olhos dando um tapinha no seu braço, ele abre os olhos com um sorriso enorme no rosto.
- Tá me pedindo em casamento, Connor? — pergunto quando me lembro que ele me chamou pelo o próprio sobrenome.
- Ainda não. — responde ansioso.
Sua postura muda e o rosto se enche de expectativa. A única vez que mencionamos casamento foi na escola quando éramos crianças, apesar de amar o Connor, não acho que seja a hora de pensar em casamento.
- Connor eu...
Meu tom sério entrega cada pensamento meu.
- Está tudo bem. — responde e tudo que vejo é a pura sinceridade em sua voz. O alívio toma meu ser por completo. — Eu nem queria mesmo.
Dou outro tapa nele e ele ri.
- Agora sobre sua roupa. — fala subindo em cima de mim. — Eu posso resolver essa questão imediatamente.
Sorriu com a sugestão. Passo minhas pernas entre seu quadril, seu pênis está enorme sobre minha virilha.
...
Acordo assustada com o barulho do despertador, olho para os lados procurando Connor, suas roupas sumiram denunciando sua partida. De certa forma, o meu sono revigorou minhas forças para lidar melhor com a situação, mesmo que eu ainda não goste da ideia de me mudar.
Coloco uma camisola e desço as escadas com cuidado.
- Obrigada, senhor. — o sotaque alemão da minha mãe e quase perfeito, sorriu lembrando da facilidade que tive em aprender o idioma.
- Bom dia. — falo entrando na cozinha.
Ela levanta a cabeça para mim, os olhos estão profundos e inchados, ela deve ter chorado muito para estar assim.
- Quando vamos? — pergunto contragosto.
Ela sorri.
- Amanhã. — conclui me fazendo notar algumas coisas. — Esqueceu foi? Faz as malas.
Do lado de fora tem dois camiões de mudança.
- Não vou levar nada dessa casa. — fala decidida.
- Então por que?...
- Eu vou doar os nossos móveis. — interrompe sem querer se aprofundar no assunto. — Só por isso os caminhões estão aqui.
Não me interesso pelos móveis. Mas tenho que admitir que vai doer muito ver tudo o que é do meu tio indo embora, como se ele nunca tivesse existido. Minha mãe está fria, fico surpresa por ela descartar os pertences do meu tio com tanta frieza. Penso por mais alguns instantes. Mas por que a surpresa? Se o fato de nós mudarmos já seria exatamente para isso, se livrar da memória dele.
- Emilly.
A voz doce de Connor chama minha atenção. Ele caminha a passos largos até mim, carregando duas sacolas.
- Eu trouxe algumas coisas. — falou erguendo as mãos. — O que acha de um filme enquanto tomamos café da manhã?
Sorriu com a gentileza.
- Vai ser ótimo. — falo sentindo um ponta de entusiasmo.
Sem olhar para a minha mãe, dou as costas voltando para o meu quarto com Connor me seguindo.
- Fecha a porta, por favor. Não quero que nada nos interrompa. — peço sentada na cama.
Ele assente e enquanto fecha a porta, um pensamento surge em meu cérebro... E se eu fugir? Será que Connor aceitaria vir comigo? Ou seria injusto com ele?
Observo suas mãos rápidas arrumando uma toalha de piquenique sobre minha cama, tento pegar as sacolas do lado da cama e ele sorri, bloqueando a passagem se colocando na minha frente.
- Você é muito curiosa. — fala se divertindo.
Sorri.
- Por favorzinho, meu amor. — falo fazendo biquinho.
Ele revira os olhos e pega as sacolas. Aguardo Connor se acomodar ao meu lado, ele ergue os olhos com um sorrisinho de lado.
- Um dos seus filmes favoritos. — ele fala tirando da sacola um DVD de Amor e Inocência. — Sobremesa? — fala tirando um pote de vidro com morangos cortados em cubos, cobertos por chocolate. — Passei em casa e peguei um alguns pedaços de bolo de cenoura com chocolate, eu fiz ontem de manhã. — ele me entrega o pote vermelho com os bolos cortados. — Para beber trouxe suco de laranja natural, sei que detesta os industrializados.
Ele organiza tudo sobre a cama com cuidado, destampo o pote vermelho sentindo água na boca ao ver o bolo. Connor sempre fez o possível para me ver feliz, o intuito dele está bem claro, ele anseia aproveitar o pouco tempo que temos, me agradando.
Pego a mão dele chamando sua atenção. Ele me olha com carinho, esperando qualquer sinal de que está conseguindo alcançar o seu objetivo.
- Obrigada por tudo, Connor. — agradeço e vejo que minha sinceridade arranca um sorriso lindo de seus lábios.
- Vou sentir sua falta. — lamenta e sinto um peso em meu peito.
- Eu também. — falo me forçando a não chorar.
Respiro fundo mordendo um pedaço do bolo de cenoura, a expectativa em seus olhos me faz rir.
- Está uma delícia com sempre. — falo terminando o primeiro pedaço de muitos que viram. — Você devia virar doceiro.
Ele ri se levantando.
- Jamais. — ele balança a cabeça. — Gosto de cozinhar mas não tanto assim.
Ele coloca o filme e assistimos em silêncio, a televisão em meu quarto enfim serviu para alguma coisa. Eu não sou de assistir TV, foi meu tio que me presenteou. Ele instalou ela e pagou para que tivesse os canais abertos, na cabeça dele eu sempre negava ter uma TV por modéstia. Mas, eu raramente usava.
Sorriu com a minha parte favorita do filme, Jane conhecendo Tom. Connor odeia filmes de romance, finge que gosta só pra me agradar. Ele me oferece mais um pouco de morango com chocolate, colocando um generosa colherada em minha boca.
Antes do final do filme, já acabamos com todos os pedaços do bolo, e o morango com chocolate também. Me sento entre as pernas de Connor, deito a cabeça em seu peito.
- Toma um pouco do suco, só tem um restinho. — falo fazendo carinho em sua bochecha.
- Você não vai querer?
- Estou cheia. — falo sentindo o sono chegando.
Ouço meu celular tocando mas, resolvo ignorar.
- Não vai atender? — pergunta Connor. — Pode ser importante.
- Não estou afim de lidar com coisas importantes agora. — falo me ajeitando no seu colo. — A única coisa que importa agora, é esse momento. O nosso momento.
Ele beija o topo da minha cabeça.
- Não lembrava desse final. — reflete quando o filme acaba.
- Claro. — falo revirando os olhos. — Você detesta esse tipo de filme.
- Mentira.
- Vai me dizer que gosta de romance? — falei balançando a cabeça.
- Ah eu gosto sim. — fala escondendo um sorriso.
- Você lembra que semana passada assistimos Orgulho e Preconceito? — pergunto me afastando o suficiente para ver seu rosto.
Ele concorda com a cabeça.
- Qual foi sua parte favorita? — pergunto erguendo a sobrancelha.
Connor pensa por alguns segundos e desiste.
- Foi o que eu pensei. — falo rindo.
- Isso não é justo. — fala fingindo estar bravo.
Rimos juntos.
- Tem falado com a Júlia? — pergunta Connor. — Ela me disse que está voltando para te ver, contei a ela que você vai se mudar.
A breve menção a Júlia fez meu coração parar. Sinto falta dela. Júlia é como se fosse uma irmã para mim.
- Sério? Quando falou com ela?
- Hoje de manhã quando fui buscar as coisas para o café da manhã. — fala coçando a cabeça.
- Ela te ligou? — pergunto curiosa.
- Sim. — responde breve. — Ela mudou de número, sabe como a Júlia é, já é a terceira vez que perde o celular esse ano.
Balanço a cabeça de forma negativa. De novo perdeu o celular?
- Passei seu número para ela, Emilly. — fala olhando para baixo.
- Fez bem. — falo suspirando. — Não acho que ela vai chegar a tempo de nos vermos.
- Bom pelo o que Júlia disse, ela já está comprando as passagens. — fala indiferente.
- Não queria que ela se incomodasse com isso, afinal de contas, essa viagem dela foi planejada.
Connor ergue a sobrancelha.
- É melhor ela saber agora. — fala Connor como se fosse óbvio. — Você sabe tão bem quanto eu que se deixasse para contar depois, ela ia ficar te perturbando pro resto da vida.
Sim, ele tem razão. Conhecendo Júlia como eu conheço, ela iria me infernizar a paciência, e no momento eu preciso de paz.
Passamos o resto da tarde jogando um jogo que ele trouxe dentro da mochila, uma coisa que temos em comum, amamos jogos de tabuleiro.
De vez enquando me pego desejando que esse momento nunca termine. Se pudesse viver aquele dia em lupi infinito, eu o viveria para sempre.