13-39 Ruby

1466 Palavras
Ontem dormi com a porta trancada, talvez seja uma mania de perseguição minha. A sensação de que estou constantemente em perigo, e quando acordo caio em si de que estou na casa do Senhor Nakashima. Levanto de uma vez da cama e vejo a camisa do Elay cobrindo o meu corpo. Caminho até a janela e a abro vendo como em uma mansão tão bonita, tão grande e bem cuidada a vista é muito mais bonita. Escovo os dentes, visto o roupão novamente por cima da blusa e saio andando rápido quase correndo pelos corredores. Desço as escadas e paro na sala de estar. — Clara? — A chamo enquanto caminho em direção à cozinha, algo me diz que pela manhã ela estaria por ali. Porém eu continuo caminhando até lá e a chamando, e ela não responde. Quando chego na porta da cozinha estremeço dando um passo para trás vendo Elay sentado na cadeira tomando café e sabe que estou no mesmo cômodo que ele mas nem sequer me olha. Achei que ia viver um inferno, que ele não ia me deixar em paz, que me chamaria de vira-lata e me trataria feito uma vagabunda mas pelo visto não. Não que só por 10 minutos de convivência diga alguma coisa, mas foi a minha primeira impressão. — Onde está a Clara? — Questiono coçando a cabeça, talvez envergonhada mas não seria a palavra certa, porém se não encontro a palavra certa então vai ser essa. — Não está no horário dela ainda. — Fala com descaso continuando a comer sem me olhar e mexe no celular. Fico em pé ali sem saber o que dizer, sem saber o que fazer e nem como agir. Talvez ontem eu estivesse tão cansada que não pensei nessa parte quando vim para cá. Mas é que eu me apoiei na Clara, para mim qualquer coisa que eu precisasse realmente seria apenas chamar ela e perguntar. — E o Senhor Nakashima? — Questionei novamente depois de uns longos segundos. — Foi trabalhar. — Respondeu fazendo descaso novamente. — Mas que c*****o. — Resmungo só para mim pisando fundo indo até a geladeira. — O que foi, garota? — Elay questiona com um tom de quem está sem paciência. — Não interessa para você. — Devolvo o tom. — Por que está de roupão andando pela casa? Está muito acomodada para quem chegou ontem. — Me alfineta e eu viro para trás o encarando séria o fuzilando com os olhos. — Eu estou andando de roupa na merda da sua casa porque a Clara foi gentil ontem e me fez um favor de colocar minhas roupas para lavar, a questão agora é que não sei onde elas estão agora e ela não chegou ainda, o Haru saiu e estou só na companhia de um i****a mimado que não sabe o que é educação. — Retruquei. Parando para pensar, eu estou realmente muito folgada em falar assim. Mas eu pretendia ficar na minha, foi ele quem veio mandar indireta e falar o que não sabia. — E a camisa que te emprestei? Também fui gentil e te fiz um favor. — Agora ele falou com deboche. — Não vou ficar andando só com uma camisa pela casa. — Falei com um tom de voz mais doce tentando ser mais educada, afinal, a intrusa aqui sou eu. Peguei um pouco de leite, coloquei um pouco na tigela e coloquei cereal. Puxei uma cadeira para sentar e me acomodei ali para comer. — Qual o problema? Achei que você deveria estar acostumada, considerando que você morava naquele cabaré nojento daquela velha nojenta. — Elay falou pelos cotovelos me fazendo encará-lo com tanta raiva, eu já estava preparada para arremessar aquele leite no rosto dele e socar a cara dele até cansar mas então ele me olhou assustado consigo mesmo. — Desculpa! Por favor, me desculpa! Não falei para ofender, é o meu jeito de falar, eu odeio aquele lugar e não julgo nenhuma das mulheres que trabalham lá, eu julgo a Ruth. Fico o olhando séria por alguns segundos mas então relaxo ao ver que ele me olha assustado, e por uns segundos sinto até mesmo vontade de rir mas me mantenho séria. — Foi preconceituoso, não é porque eu morava lá que eu sou acostumada a andar de biquíni no meio da rua em um sol das sete da manhã. — Em nenhum momento pensei isso. — Ergueu as mãos como sinal de rendimento. — Que horas o seu pai chega? — Questionei enquanto comia. — Ele não tem horas para chegar, ele tem turnos, e é um só que no caso é o noturno. — Respondeu de um jeito que deu a entender que ele não gostava nem um pouco disso, parecia que estava até mesmo magoado. E mais uma vez, outra portada na cara. Achei que já agora de manhã iríamos conversar, que Haru ia explicar como seria o meu novo trabalho e que então eu poderia tirar as minhas dúvidas de onde eu iria morar e como eu ficaria até ter onde morar e começar a trabalhar. Mas desde ontem apenas me jogou aqui e pronto, nem o vi mais. Apesar de que isso me pareça ser algo bom, se fosse r**m, agora mesmo eu poderia já estar enjaulada enquanto ele me leiloava para um velho podre de rico. Mas estou aqui confortável, para me perder dentro da casa, ninguém nem sequer me vigiou para saber se eu iria roubar alguma coisa, é como se eu só estivesse livre, mesmo não estando exatamente. — E a Clara? — Ah, ela só chega a tarde depois de meio-dia. Meu pai diz que não vai deixar alguém para ficar servindo um marmanjo igual eu, então passo o dia sozinho, se eu quiser alguma coisa tenho que ir lá e fazer. — Comenta dando de ombros como se fosse engraçado e eu realmente achei, gostei do Haru. Superou a impressão que eu tinha sobre ele. — Acho que as suas roupas são as que vi lá na… — Elay pareceu pensar. — Calma aí. Então saiu andando pela casa e quando voltou, estava com um cesto na mão então o colocou no chão ao meu lado. — Estão aí. — Disse e então me deu as costas saindo da cozinha. — Obrigada. — Agradeço mas ele só continua andando. Fui para o quarto depois, organizei as minhas roupas e saí andando pela casa com medo de me perder mas fui conhecer os cômodos. Se eu só veria a Clara a noite, tinha que me virar também se o Haru não mima nem o filho, quem dirá eu. Quando deu a hora, fui fazer alguma coisa para comer antes de ir para a escola e depois fui me arrumar. Só então que meu coração gelou, eu não fazia a menor ideia da localização da casa. Não sabia onde ficava ponto de ônibus, e nem sabia se havia um ponto de ônibus por ali, já que era bairro de bacana cheio de casarões. Nem o dinheiro da passagem eu não tinha mais, acabou meu último centavo ontem. Quando eu estava esperando o Senhor Nakashima no ponto de ônibus eu fui para lá só para deitar no banco, não tinha nenhum centavo para ir para qualquer lugar que fosse. Arrumada para a escola e com a mochila nas costas desço as escadas, saio abrindo as gavetas que encontrava pelos cômodos, olhei as mesinhas de canto, até debaixo dos objetos para ver se eles não tinham mania de pobre de guardar dinheiro debaixo das coisas, fui para a cozinha. Abri as gavetas do armário e encontrei até remédio, mas dinheiro que era bom nada. Abro mais gavetas e nada, quando abro uma porta e olho os potes lá dentro vejo um com algumas cédulas guardadas tipo um cofre. Quando penso em pegar ouço um coçar de garganta no cômodo e quando olho para o lado vejo Elay escorado no batente da porta. — Roubando? — Ergue as sobrancelhas como se tivesse me pegado no flagra. — Não, pelo amor de Deus. Não… — Ergo as mãos assustada com medo dele surtar e fazer sabe sei lá o que. — Eu só estava procurando algum dinheiro para a passagem do ônibus, preciso ir para a escola. Não era muito, só a passagem. — Ah, é verdade. Tinha esquecido que você estudava a tarde, meu pai pediu para eu tomar conta de você no que precisasse e deixasse na escola, eu tinha esquecido. — Bateu na testa aparentando se sentir um irresponsável. — Foi m*l, vamos. — Como é? — Ergui as sobrancelhas surpresa por o Haru ter se preocupado com isso. — Eu estou responsável por deixar você na escola. — Olhou para os lados rapidamente. — Vamos?
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