Tomei um banho relaxante, tomei banho de banheira pela primeira vez na vida, nunca me senti tão bem. A água daqui parece ter passado por feitiços, senti o cheiro do sabonete, do shampoo, condicionador e revirei os olhos com aquele cheiro. Nunca na minha vida senti cheiro de algo igual aquilo, era um cheiro tão suave e tão doce, que impregna mas não incomoda.
Vesti um roupão e fui procurar uma roupa para vestir na minha bolsa, mas mexendo percebi que não parava quieta faziam dias e isso quer dizer que também não lavava roupa fazia dias.
Para quem já não tinha quase nenhuma roupa, agora não tinha mais realmente nenhuma.
Esfreguei o rosto respirando fundo enquanto tentava pensar em alguma coisa, olhei em volta do quarto admirando as coisas e voltei para a realidade novamente.
Penteei meus cabelos e caminhei até à porta do quarto. Roupão também pode ser roupa, cobre bem. Fora que esse tem quase duas vezes o meu tamanho, cobre direitinho minhas mãos, minhas pernas, quase arrasta no chão e vai até metade do meu pescoço.
Abro a porta e me viro para fechá-la, quando viro novamente para frente para ir em direção às escadas vejo um garoto saindo do quarto da frente e quando me nota nós dois ficamos parados olhando um para o outro.
Não é qualquer garoto, é um daqueles garotos da minha antiga escola. A escola de mimados, particular que eu quis entrar acreditando que seria ótimo para o meu futuro, que ia me abrir muitas oportunidades e que ajudou em boa parte da minha dívida com a Ruth.
Mas o final nós já sabemos, as pessoas não apreciaram muito a minha presença.
Eu lembro dele, lembro desse garoto. Esbarrei com ele diversas vezes nos corredores daquela maldita escola, os amigos dele eram uns babacas e fizeram um inferno na minha vida.
Caminho para trás como se estivesse tentando recuar, fugir dele, eu não sei. Só sei que meu choque é tão grande que não sei nem o que estou fazendo, do que estou com medo.
— Ruby? — Ele pergunta com aquele tom de voz grave, o tom de voz um pouco mais baixo como se estivesse tão surpreso quanto eu.
— Mas que… — Ofego. — O que está fazendo aqui? — Meu tom de voz eleva sem querer.
— Eu moro aqui. — Os olhos dele se mexem de um lado para o outro antes de falar através dos fios de cabelo n***o e lisos mais comprimidos que caem sobre o rosto.
— O que… — Começo a pensar sozinha e balanço a cabeça sem acreditar. — Só pode ser brincadeira, não, não, não, não…
— O que, garota? O que você está fazendo aqui? — Enfatiza o “você” caminhando para mais perto de mim mas eu estendo a mão fazendo com que ele pare.
— Não chega perto de mim! — Caminho mais para trás, mas não tem mais para onde andar.
— Está com medo de mim? — Riu consigo mesmo como se fosse algo i****a.
— Você é o filho do Haru, não é? — Questiono mesmo sabendo que é óbvio que sim, mas não queria aceitar que esse garoto mimado e insultante estaria há alguns passos de mim todos os dias, apesar de ser só por um tempo.
— Está muito íntima do meu pai, já o chama até pelo nome. O que está fazendo aqui?
— O que está insinuando? — Franzi as sobrancelhas já começando a me sentir naquele lugar novamente, quando me tratavam como uma vagabunda. — Eu só não nasci em um berço de ouro como você nasceu, não tenho para onde ir, está contente? Gosta de ver as pessoas acabadas?
— Não coloque palavras na minha boca, está bem? Não vou te incomodar. Meu nome é Elay. — Se apresentou acenando com a cabeça e as expressões ainda neutras encarando fixamente os meus olhos e noto que continuou me encarando desde o momento que girou o olhar para me responder até agora.
— Seu nome é Elayja, Elay é só apelido. — Corrigi fazendo descaso e ele riu.
— É, tem razão. Você sabe o meu nome. — Permaneceu com um sorriso enquanto eu continuava o encarando séria.
— Seria de se surpreender se não soubesse, depois de tudo o que você e aqueles seus amigos fizeram comigo.
— Você e seus amigos não, eles não são meus amigos. Nunca fiz nada contra você, estou mentindo. — Ergueu as sobrancelhas me encarando sério e eu apenas desviei o olhar para baixo refletindo.
— Que seja. — Então sai andando pelo corredor, descendo as escadas praticamente correndo sentindo que ele ainda estava me olhando.
Eu segurava nos corrimãos também com medo de cair, mas estava assustada. Não sei explicar, era como se eu sentisse vergonha.
Estava ali por não ter mais o que fazer da vida, e isso já era humilhante, porém agora eu estaria naquela situação humilhante e ainda aquele garoto mimado que inclusive já foi meu colega de escola esbarraria comigo o tempo inteiro e ainda estaria me vendo passar sufocos.
Me perco só ali na sala de estar, caminho para um lado e para o outro sem saber para onde ir.
— Clara! — A chamo na esperança de que ela apareça.
— Senhorita? — Ela surge lá longe e caminha até mim. — Quer que eu deixe sua comida no quarto ou quer comer na mesa de jantar?
— Vou comer na mesa. — Sorri sem mostrar os dentes.
Comer no quarto é um crime, costume que já peguei de casa. Minha mãe nunca deixava ninguém comer no quarto, ela dizia que era nojento e que caía migalhas tanto no chão quanto na cama.
— Clara… onde posso lavar as minhas roupas?
— Ah, pode deixar comigo. Coloco na máquina de lavar para você, onde estão?
— Tudo bem, estão na minha mochila. Onde fica a cozinha?
— Aqui… — Se vira para trás e aponta. — No final do corredor e vire a direita.
— Obrigada.
— Está sem roupas para vestir? — Ela percebe provavelmente por eu estar de roupão e procurando lavar minhas roupas.
— Sim. — Mordo o lábio envergonhada.
— Não trago roupas para cá, eu te emprestaria uma. Mas posso procurar algo para você vestir.
— Ah, eu…
— Pegue uma camisa minha e dê a ela, Clara. — Ouço a voz do Elay atrás de mim me interrompendo e então viro para olhá-lo.
— Não quero nada seu. — Respondo mesmo que ele não tenha falado diretamente comigo.
— Então ande de roupão pela casa, o problema é seu. — Retrucou com um sorriso irônico e caminhou até à porta.
— Onde pensa que vai, Elay? — Clara questionou com o tom de voz rígido e eu achei interessante ela falar tão livremente assim com o filho do patrão.
— Não devo satisfações, Clara. — Ele continuou andando normalmente até à porta vestindo os tênis, calça jeans e jaqueta.
— Seu pai disse que não era mais para você sair assim no meio da noite e voltar de madrugada. — Clara pontuou com o tom de voz de aviso.
— Então volto de manhã. — Elay virou para ela, piscou e em seguida olhou para mim com um sorriso de canto, então saiu.
Franzi o cenho encarando Clara ao meu lado.
— Vá comer, vou deixar uma camisa dele em cima da sua cama e botar suas roupas para lavar. — Disse enquanto ia subir as escadas sem nem esperar por uma resposta.