Amará
Eu não erro mais.
Não porque eu sei tudo.
Mas porque eu observo.
No começo, eu reagia.
Agora eu antecipo.
Existe um ritmo aqui.
Um padrão.
Nada é aleatório, mesmo quando parece.
O jeito que a porta abre.
A forma como os passos dela ecoam.
O tempo entre um movimento e outro.
Tudo diz alguma coisa.
E eu aprendi a escutar sem ouvir.
Se os passos são mais rápidos, eu não me levanto de imediato.
Se são lentos, eu já estou de pé antes da porta abrir.
Se ela respira mais fundo, eu abaixo ainda mais o olhar.
Pequenos ajustes.
Pequenas decisões.
Que fazem diferença.
Eu não penso mais no que eu quero fazer.
Eu penso no que ela espera que eu faça.
E faço antes.
Isso evita problemas.
Nem sempre.
Mas o suficiente.
Eu descobri que invisibilidade não é desaparecer.
É não provocar reação.
Se eu não chamar atenção, ela esquece.
E, quando ela esquece,
eu existo em paz.
Às vezes, eu fico horas sem me mexer.
Não porque preciso.
Mas porque posso.
E porque isso mantém tudo estável.
Eu não sinto mais fome do mesmo jeito.
Não sinto mais vontade de chorar.
Não sinto mais aquele aperto constante no peito.
Ou talvez eu sinta.
Mas não deixo sair.
Sentir é perigoso.
Sentir muda o corpo.
E qualquer mudança pode ser vista.
Eu me tornei constante.
Previsível.
Controlada.
Hoje, quando ela entrou eu já estava no lugar certo.
Na posição certa.
Respirando no tempo certo.
Ela parou.
Não disse nada.
Eu também não.
O silêncio não me assusta mais.
Eu entendi que ele pode ser neutro.
Nem sempre é ameaça.
Às vezes é só vazio.
— Você está diferente.
A voz dela quebrou o espaço.
Eu não levantei o olhar.
— Não.
Resposta curta.
Segura.
Sem emoção.
Ela se aproximou.
Eu senti.
Mas não me mexi.
— Não erra mais.
Não era pergunta.
Era observação.
Eu esperei.
Sempre espero.
— Está aprendendo.
Algo dentro de mim se moveu.
Pequeno.
Quase inexistente.
Mas eu senti.
Não era orgulho.
Não era alegria.
Era alívio
E isso me assustou.
Porque, por um segundo, eu quis continuar assim.
Quis agradar.
Quis manter aquele equilíbrio estranho onde nada acontece.
Quis ser suficiente
Ela se afastou.
Sem mais palavras.
Sem castigo.
Sem nada.
E eu fiquei ali.
Parada.
Processando.
Eu não ganhei nada.
Mas também não perdi.
E, aqui isso é o mais perto de vitória que existe.
Eu não sou mais a mesma.
Eu sei disso.
A menina que chorava, a que perguntava, a que acreditava.
Ela ainda existe.
Eu acho.
Mas está quieta.
Muito quieta.
E eu, eu estou aprendendo a manter ela assim.
Porque, se ela voltar, se ela sentir, se ela quiser.
Eu posso perder tudo o que aprendi.
E eu não posso perder.
Então eu continuo.
Observando.
Ajustando.
Silenciando.
Até o dia em que ninguém mais me veja.
Porque, quando isso acontecer, eu vou estar viva.
****
No começo eu sabia.
Eu sabia que não era verdade.
Sabia que minha mãe não tinha me deixado.
Sabia que existia algo errado.
Sabia que aquelas palavras não combinavam com o que eu lembrava.
Eu sabia.
Mas saber não é suficiente quando você ouve a mesma coisa todos os dias.
— Ninguém quis você.
— Você foi deixada.
— Você é um peso.
— Você não é importante.
No começo, essas palavras batiam em mim.
Como algo de fora.
Eu sentia ela, Rejeitava.
Tentava empurrar para longe.
Mas elas voltavam.
Sempre.
E voltavam iguais.
No mesmo tom.
Com a mesma certeza.
Sem espaço para dúvida.
Com o tempo eu parei de responder.
Depois, parei de negar.
E, depois, eu parei de pensar sobre isso.
As palavras começaram a ficar,
Não como algo que ela dizia.
Mas como algo que fazia sentido.
Eu não percebi quando aconteceu.
Não houve um momento exato.
Foi devagar.
Silencioso.
Como tudo aqui.
Um dia, eu estava sentada no chão, olhando para minhas mãos.
E pensei:
Eu tenho um peso.
O pensamento veio natural.
Sem esforço.
Sem dor.
E isso foi o que mais me assustou.
Porque não parecia mais uma mentira.
Parecia verdade.
Eu tentei lembrar.
Tentei buscar alguma coisa dentro de mim que dissesse o contrário.
Uma memória, Uma sensação, Um rosto.
Mas tudo estava distante.
Fraco.
Como se não fosse mais meu.
E, pela primeira vez, eu não lutei.
Eu aceitei.
Porque lutar cansa.
E aqui, cansaço é perigoso.
— Repete.
A voz dela veio de repente.
Eu nem percebi quando a porta abriu.
— Eu não sou importante.
Eu não hesitei.
— Eu não sou importante.
Silêncio.
— Mais uma vez.
— Eu não sou importante.
Dessa vez, não doeu.
E isso, foi pior.
Ela se aproximou.
Eu não olhei.
— Agora você está entendendo.
Eu não senti nada.
E, por um segundo, isso pareceu certo.
Ela saiu.
Como sempre.
E eu fiquei.
Mas algo tinha mudado.
Antes, quando ela ia embora, eu pensava.
Pensava no que tinha acontecido.
No que eu poderia ter feito diferente.
No que era verdade, e no que não era.
Agora, eu não pensava.
Eu só repetia.
Ninguém quis você.
Você é um peso.
Você não é importante.
As frases rodavam na minha cabeça como se fossem minhas.
E, quanto mais eu repetia, menos eu lembrava de qualquer coisa diferente.
Eu deitei no chão.
Olhei para cima.
Para o escuro.
E tentei encontrar alguma coisa dentro de mim que ainda fosse minha.
Mas não encontrei.
E, naquele momento, eu entendi.
Não era sobre me machucar.
Não era sobre me prender.
Era sobre me transformar.
Em algo menor, Mais quieto, Mais fácil.
Algo que não questiona.
Algo que não sente.
Algo que aceita.
Eu fechei os olhos.
Respirei devagar.
E deixei as palavras voltarem.
Dessa vez, sem resistência.
Porque, quando uma mentira é repetida o suficiente, ela para de parecer uma mentira.
E vira tudo o que você conhece.