CAPÍTULO 4

1169 Palavras
Amará Eu aprendi a não fazer barulho. Não foi de uma vez. Não foi uma decisão. Foi necessário. No começo, eu ainda falava. Ainda perguntava, Ainda tentava explicar quando errava, como se palavras pudessem me salvar. Mas palavras chamam atenção. E atenção machuca. Então eu parei. Eu aprendi que o silêncio não é vazio. Ele protege. Ele me esconde. Se eu não falo, não erro. Se eu não erro, talvez não doa. Os meus passos quase não fazem som agora. Eu caminho devagar, encostando o pé no chão como se ele pudesse me denunciar. Às vezes, eu prendo a respiração sem perceber. Como se até o ar pudesse me trair. Eu não olho direto. Os olhos dizem coisas. E aqui, eu não posso dizer nada. Eu observo. Sempre. O jeito que ela anda. O tempo que ela leva para abrir a porta. O som da respiração dela quando está irritada. O jeito que segura as coisas quando está prestes a me punir. Eu sei antes de acontecer. E isso me ajuda. Nem sempre. Mas ajuda. Eu não penso muito no antes. É perigoso. Quando eu tento lembrar dói. E quando dói, eu fico fraca. E eu não posso ser fraca. Aqui, fraqueza chama atenção. E atenção machuca. Às vezes, eu ainda sinto. Um pouco. Como quando vejo minhas mãos e lembro que alguém já segurou elas com cuidado. Ou quando fecho os olhos e quase consigo ouvir uma voz que não grita. Mas eu paro. Eu sempre paro. Porque lembrar é como abrir uma porta e eu já aprendi que portas nem sempre levam para fora. Ela entrou hoje. Eu já estava sentada. Costas retas. Olhos baixos. Respiração controlada. Perfeita. Ou quase. — Levanta. Eu levantei. Sem perguntar, Sem hesitar. — Anda. Eu andei. Cada passo medido. Cada movimento pensado. Eu senti o olhar dela em mim, Sempre sinto. Como se estivesse procurando um erro. Sempre há um erro. Ela parou na minha frente. Ficou em silêncio. Eu também. O silêncio pode ser um teste. E eu aprendi que o primeiro a quebrar perde. — Fala alguma coisa. Meu coração bateu mais rápido. Mas por fora eu fiquei parada. — O quê? Minha voz saiu baixa, Controlada. Ela se aproximou um pouco mais. — Qualquer coisa. Isso é perigoso. Qualquer coisa, nunca é qualquer coisa. Eu pensei rápido. Mas sem parecer que estava pensando. — Eu estou aqui. Ela me olhou por alguns segundos. Longos. Pesados. — É só isso? Eu não respondi. Porque, às vezes, responder é pior. O silêncio voltou. E, dessa vez, eu ganhei. Ela se afastou. Não disse nada. Não fez nada. E foi embora. Quando a porta fechou, eu só fiquei parada. Não comemorei. Não respirei aliviada. Nada. Porque aqui, não perder já é ganhar. Eu me sentei de novo. Do mesmo jeito. No mesmo lugar. Como se nunca tivesse saído dali. Eu não sei quanto tempo passou desde que cheguei aqui. Não sei que idade tenho agora. Não sei se alguém ainda se lembra de mim. Mas eu sei de uma coisa. Eu estou aprendendo. Aprendendo a não sentir. Aprendendo a não reagir. Aprendendo a existir do jeito certo. Porque aqui, existir errado dói. Eu não sou forte. Eu só aprendi. E, se eu continuar assim, quieta invisível, perfeita, talvez um dia ela esqueça que eu estou aqui. E, se ela esquecer, talvez eu sobreviva. **** Eu achei que já tinha aprendido. Achei que o silêncio era suficiente. Que ficar quieta, pequena e invisível, pois isso ia me proteger. Eu estava errada. Foi um erro simples. Tão pequeno que, se fosse antes, ninguém teria notado. Eu levantei os olhos. Só isso. Por um segundo. Eu queria ver se ela ainda estava ali. Eu queria ter certeza. E foi aí que tudo mudou. — Abaixa. A voz veio baixa. Mas pesada. Eu congelei. Meu corpo respondeu antes de mim, descendo o olhar rápido demais, como se pudesse apagar o que já tinha acontecido. Mas já era tarde. Eu senti. Primeiro no corpo. Mas no ar. A mudança. O silêncio ficou mais grosso. Mais difícil de respirar. Eu errei. Ela não falou imediatamente. E isso foi pior. Porque o tempo entre o erro e o castigo, é onde o medo cresce. Meu coração começou a bater forte. Muito forte. Eu tentei controlar a respiração. Tentei não me mexer. Tentei não existir. Mas por dentro eu estava correndo. — Você ainda não entendeu. Eu ouvi os passos. Lentos. Calculados. Vindo na minha direção. Cada passo era como um aviso. Você errou. Você errou. Você errou. Eu quis falar. Quis dizer que foi sem querer. Que eu não ia fazer de novo. Que eu estava tentando. Mas as palavras ficaram presas. Porque eu lembrei. Falar também pode ser um erro. Ela parou na minha frente. Eu não levantei os olhos. Eu não podia. — Olha pra mim. Meu corpo travou. Eu não sabia o que fazer. Se eu olhasse, se eu não olhasse. Qual dos dois doía menos? Eu levantei. Devagar. Os olhos encontraram os dela. E eu me arrependi na mesma hora. Não tinha raiva ali. Não tinha grito. Só decisão. O impacto veio rápido. Mas não foi isso que doeu. O que doeu foi o que veio depois. O silêncio. Eu levei um segundo pra entender. Outro pra sentir. E mais alguns pra não chorar. Eu não queria chorar. Chorar mostra fraqueza. Fraqueza chama atenção. E atenção machuca. Eu segurei. Segurei tanto que meu corpo começou a tremer. Mas eu fiquei quieta. Eu fiquei parada. Eu fiquei do jeito certo. — Melhor. Ela disse isso como se eu tivesse feito algo bom. Como se suportar fosse correto. Eu não entendi. Mas aceitei. Porque aceitar dói menos do que questionar. — Você precisa aprender. A voz dela era calma. Sempre calma. — Seus olhos não são seus. Eu não respondi. — Seu corpo não é seu. Eu senti algo estranho dentro de mim. Como se uma parte estivesse sendo tirada. — Nada em você é importante. Eu ouvi. Eu guardei. Eu acreditei um pouco. Depois disso, ela saiu. Como sempre. Como se nada tivesse acontecido. Como se eu fosse só mais uma coisa no caminho. A porta fechou. E eu fiquei sozinha. Eu sentei no chão. Devagar. Como sempre. No mesmo lugar. Eu levei a mão até o braço. Não doía tanto. Não como antes. Isso me assustou. Porque a dor estava diminuindo. Mas não por fora. Por dentro. Eu fechei os olhos. E tentei lembrar de alguma coisa. Qualquer coisa. Um rosto. Uma voz. Um toque. Mas veio fraco. Distante. Quase inexistente. E, pela primeira vez, isso doeu mais do que o castigo. Porque eu percebi. Não é só o que ela faz. É o que eu estou me tornando. Eu estou esquecendo. E, se eu esquecer tudo, se eu parar de sentir, se eu parar de querer, Então talvez, não doa mais. Eu abri os olhos. Olhei para o chão. Respirei fundo. E fiz a única coisa que eu sei fazer agora. Eu aprendi.
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