CAPÍTULO 3

1283 Palavras
No começo, Amará ainda procurava luz. Era instintivo. Seus olhos vagavam pelas paredes, pelo teto, pela pequena a******a alta demais para alcançar, tentando encontrar qualquer sinal de dia, qualquer prova de que o mundo lá fora ainda existia. Mas, com o tempo, ela percebeu. A luz não chegava ali para ficar. Ela apenas passava. E sempre ia embora. O lugar onde Amará vivia não tinha nome. Não era casa, Não era quarto, Não era abrigo. Era um espaço onde tudo parecia feito para esquecer que alguém poderia viver ali. As paredes eram frias, ásperas, marcadas por pequenas imperfeições que seus dedos já conheciam de cor. O chão nunca era confortável, não importava como ela se deitasse. E o ar, sempre carregava um cheiro úmido, como se o tempo tivesse apodrecido naquele lugar. Não havia cores. Não havia vozes. Não havia vida. Só ela. E o silêncio. Os dias não eram contados por relógios. Eram medidos por aberturas de porta. Quando a porta abria, significava que o tempo tinha passado. Quando a porta fechava, significava que ela estava sozinha de novo. E, entre esses dois momentos, existia o vazio. Amará começou a perceber algo diferente dentro de si. As lembranças da mãe já não eram tão nítidas. Antes, ela conseguia sentir o cheiro. O toque. O som da risada leve, como música. Conseguia lembrar da forma como era chamada com carinho, como se seu nome fosse algo bonito. Agora estava tudo distante. Borrado. Como um sonho que escapa ao acordar. — Não — sussurrou uma vez, levando as mãos à cabeça, como se pudesse segurar aquilo dentro dela. Mas não conseguiu. E isso a assustou mais do que qualquer castigo. Porque, se ela esquecesse o que restaria? **** A porta se abriu. Amará não se levantou imediatamente. Aprendeu que se mover rápido demais também podia ser um erro. A tia entrou, carregando um pequeno objeto. Era um espelho. Pequeno, Simples, Frio. Amará arregalou levemente os olhos. Fazia tempo que não via o próprio rosto com clareza. — Olhe — disse a mulher, estendendo o objeto. Hesitante, Amará se aproximou. Pegou o espelho com cuidado, como se fosse algo proibido. E então viu. A menina refletida ali não era a mesma. Os olhos estavam mais fundos. O brilho é diferente. O rosto mais magro, mais sério. Havia algo ali que não existia antes. Algo que não era infância. — Você está vendo? — perguntou a tia, cruzando os braços. Amará não respondeu. — Ninguém sentiria falta disso. As palavras vieram calmas, Calculadas. — Uma menina fraca, sem valor, que foi deixada para trás. O espelho tremeu levemente nas mãos dela. — Eu não fui — tentou dizer, mas a voz falhou. A mulher se aproximou, segurando seu queixo com firmeza, obrigando-a a olhar novamente para o reflexo. — Repita. Silêncio. — Repita. Amará apertou os lábios. Seus olhos começaram a encher de lágrimas, mas ela não desviou. — Eu, fui abandonada. A frase saiu quebrada. Errada. Mas foi aceita. A tia soltou seu rosto. — É melhor assim, Verdades doem menos quando você para de lutar contra elas. O espelho foi tirado de suas mãos. Levado embora. Como tudo que pudesse lembrá-la de quem ela foi. Naquela noite, Amará não tentou lembrar do rosto da mãe. Não tentou ouvir a voz. Não tentou sentir o calor. Porque, pela primeira vez, teve medo de não conseguir. E esse medo foi maior que a saudade. O lugar onde ela estava não matava rápido. Não deixava marcas visíveis que o mundo pudesse apontar. Ele fazia algo pior. Apagava. Apagava memórias, Apagava identidade, Apagava qualquer ideia de que ela já foi amada. Até que só restasse o que diziam que ela era. Nada. Amará se deitou no chão, olhando para a escuridão acima dela. E, pela primeira vez, não procurou a luz. Porque, naquele lugar, a luz não sobrevivia. ***** Desde começo, Amará ainda tentava entender quem era aquela mulher. Não pelo nome. Mas pelo papel. Porque, em algum lugar dentro dela, ainda existia a ideia de que uma tia deveria significar algo menos frio. Menos duro e Menos vazio. Mas, com o tempo, ela aprendeu. Aquela mulher não comete um erro. Era uma escolha. Ela não gritava. E isso tornava tudo pior. A voz da tia era sempre controlada, quase calma, como se cada palavra fosse pensada antes de ser dita. Não havia explosões, não havia caos. Apenas uma frieza constante que moldava tudo ao redor. Era um tipo de crueldade silenciosa. Precisa. — Senta. Amará obedeceu imediatamente. O corpo já respondia antes mesmo da mente processar. Sentou-se no chão, com as costas retas demais, as mãos apoiadas sobre as pernas e os olhos baixos. A postura perfeita de quem aprendeu que existir do jeito errado podia custar caro. A tia caminhava lentamente ao redor dela. Observando. — Você sabe por que está aqui? Silêncio. Amará sabia que precisava responder. Mas também sabia que a resposta errada era perigosa. — Porque a senhora quis — disse, hesitante. A mulher parou atrás dela. — Não. Uma única palavra. — Você está aqui porque ninguém te quis. O golpe foi direto. Amará sentiu o ar falhar por um segundo. — Sua mãe escolheu a própria vida, Seu pai escolheu o próprio conforto. — continuou, com a voz baixa, quase didática. — E você ficou. Cada palavra era colocada com cuidado. Como peças de algo maior. — Eu te trouxe porque tive pena. Amará apertou levemente os dedos contra o próprio tecido do vestido. Pena. Era isso que ela era? — Você deveria agradecer. O silêncio voltou. Mas, dessa vez, ele era pesado. Carregado. — Obrigada — sussurrou Amará, quase sem som. A mulher sorriu. Satisfeita. Ela não precisava bater para machucar. Sabia exatamente onde tocar. Nos dias seguintes, o padrão se repetiu. Palavras. Sempre palavras. — Você ocupa espaço demais. — Anda como se fosse importante. — Olha como se alguém fosse olhar de volta. Frases simples. Mas repetidas. Repetidas até que começassem a fazer sentido. Amará começou a se diminuir. Sem perceber. Seus passos ficaram mais leves, quase inexistentes. Sua voz, mais baixa, Seus olhos, sempre no chão. Como se, ao ocupar menos espaço, pudesse ser menos percebida. Menos punida. Menos rejeitada. Uma tarde, a tia trouxe algo diferente. Um pedaço de pão maior do que o habitual. Amará olhou, surpresa. — Pra mim? — Depende. O coração dela acelerou. — Depende do quê? A mulher inclinou levemente a cabeça, observando. — Diga, Eu não sou importante. O silêncio caiu como um peso. Amará engoliu em seco. Algo dentro dela resistiu, Pequeno, fraco mas ainda vivo. — Eu A tia não se moveu. Apenas esperou. E o silêncio pressionou. Pressionou até doer. — Eu não sou importante — disse, finalmente. A frase saiu baixa. Mas suficiente. O pão foi colocado no chão. — Viu? Não é difícil quando você aceita o que é. Naquela noite, Amará comeu. Mas não sentiu gosto. Porque algo havia mudado. A manipulação não vinha mais só de fora. Ela começou a crescer dentro dela. Os pensamentos já não eram apenas lembranças da mãe. Nem ecos do passado. Eram frases novas, repetidas na própria mente. "Você não é importante. Ninguém te quis. Você é um peso.” E, quanto mais ouvia, mais acreditava. A mulher que se dizia tia não precisava trancar portas o tempo todo. Porque, aos poucos. Amará estava aprendendo a se prender sozinha. Naquela noite, antes de dormir, ela não chamou ninguém. Não tentou lembrar. Não lutou contra as palavras. Apenas fechou os olhos, e aceitou o silêncio. E foi assim que a mulher deixou de ser apenas uma carcereira. Ela se tornou algo pior. A voz dentro da cabeça de Amará.
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