CAPÍTULO 2

726 Palavras
O choro de Amará naquela primeira noite não foi ouvido. E, com o passar das horas, ele deixou de existir. Não porque a dor tivesse passado, mas porque o corpo pequeno aprendeu rápido demais que ninguém viria. O quarto onde a tia a deixou não parecia um quarto de criança. Não havia cores. Não havia brinquedos. Não havia nada que dissesse “você pertence aqui”. Era apenas um espaço frio, com paredes ásperas e uma pequena a******a alta demais para ser alcançada. A luz que entrava era pouca. E o ar pesado. Amará acordou encolhida no chão, com o rosto úmido e o corpo dolorido. Por um momento, ainda meio perdida no sono, procurou com as mãos o calor da mãe. Não encontrou. — Mamãe ? — sua voz saiu rouca, fraca, quase um sopro. O silêncio respondeu. Foi então que a porta se abriu. O som metálico ecoou como algo definitivo. Amará se virou rápido, os olhos ainda inchados, o coração acelerado com uma esperança que insistia em não morrer. Mas não era a mãe. Era ela. A tia entrou devagar, observando cada movimento da menina como se analisasse algo que lhe pertencia, não com carinho, mas com cálculo. Em suas mãos, trazia um prato simples, colocado no chão sem cuidado. — Coma — disse, seca. Amará não se moveu de imediato. Ainda olhava para trás da mulher, como se esperasse ver alguém surgir. Como se acreditasse que aquilo tudo fosse um engano que logo seria corrigido. — A mamãe vem? — perguntou, com a inocência ainda intacta. A resposta veio em forma de riso curto, Frio e Cortante. — Sua mãe? — a tia cruzou os braços. — Já devia ter entendido. Amará piscou, confusa. — Ela não vem. Não vai vir. As palavras não entraram de imediato. Elas bateram, e ficaram ali, como algo incompreensível. — Não — a menina balançou a cabeça, negando. — Ela disse que me ama… O olhar da tia escureceu, como se aquela frase fosse um insulto. — Amor não enche barriga. Amor não sustenta ninguém. — aproximou-se um pouco mais, abaixando-se até ficar na altura dela. — E sabe o que mais? Quem ama, não abandona. Amará sentiu algo quebrar dentro de si. Pequeno, mas real. — Ela não me abandonou — insistiu, com a voz tremendo. A tia sorriu. Não era um sorriso bonito. Era o tipo de sorriso que destrói. — Foi exatamente isso que ela fez. O silêncio que se seguiu foi diferente. Mais pesado. Mais profundo. Amará não chorou naquele momento. Seus olhos ficaram fixos no chão, tentando entender algo que não fazia sentido. Porque, dentro dela, a memória da mãe ainda era quente, viva, verdadeira. Mas a dúvida, tinha sido plantada. E dúvida, quando regada todos os dias, vira crença. — Coma — repetiu a tia, levantando-se. — Você vai precisar aprender a não ser um peso. Antes de sair, ela parou na porta, olhando por cima do ombro. — Aqui não é casa. Aqui você aprende a sobreviver. A porta se fechou. Dessa vez, o som foi mais alto. Amará olhou para o prato no chão. A fome doía. O estômago se contorcia, lembrando que o corpo ainda precisava de algo, mesmo quando o coração já começava a se fechar. Ela se arrastou devagar até a comida. Comeu em silêncio. Cada movimento era mecânico, como se algo dentro dela tivesse sido desligado. Como se, aos poucos, estivesse deixando de ser criança, para se tornar outra coisa. Os dias seguintes vieram sem aviso. Não havia rotina de amor. Apenas regras não ditas, punições inesperadas e uma constante sensação de que qualquer erro, qualquer mínimo gesto, poderia trazer consequências. Amará aprendeu rápido. Aprendeu a não perguntar. Aprendeu a não insistir. Aprendeu a não esperar. Mas à noite, quando o escuro envolvia tudo e o mundo parecia ainda mais distante, ela sussurrava. — Mamãe, eu estou aqui… Sempre na esperança de que, em algum lugar, alguém estivesse procurando por ela. Mas o tempo passou. E ninguém veio. O berço que antes representava segurança e começo, foi substituído por um chão frio e silencioso. E naquele lugar, sem histórias antes de dormir, sem beijos de boa noite, sem braços que acolhem, Amará foi sendo arrancada, pouco a pouco, de tudo o que um dia foi. Não de uma vez. Mas todos os dias.
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