Capítulo Vinte e sete

1764 Palavras
Miguel está andando pelas ruas de Tóquio, sua missão agora, além de chegar primeiro até Juliette, é também conhecer cada pedaço do mundo, dos humanos, das culturas, não de uma forma a saber quais são, ele conhece cada uma delas, mas a ponto de sentir o quanto as ações humanas são diferentes, influenciáveis, já passou por todas as partes do Ocidente, agora passeia pelo Oriente, observando, falando, analisando, se convencendo a cada ato que está fazendo a coisa certa, o reconhecimento é intrigante e satisfatório até. Faria aquilo não só para proteger os humanos, mas também para preservar o que seu Pai deixou de mais lindo, o livre arbítrio. Duas piscadas foram necessárias para o arcanjo aparecer novamente pelas ruas de São Paulo, de volta aonde tudo começou, mais uma vez parado em meio a aquelas pessoas passando com rapidez, cada uma com seu problema. O arcanjo olha para o céu, o sol ardente, queimado sua pele clara, os cachos loiros caindo por sua testa, ele abre os braços, invisível aos olhos dos humanos comuns. – Pai, chegou a hora, pare-me agora ou entenderei ser o seu desejo também, convença-me de que estou errado, prove-me que essa não é a solução, por favor, Pai, essa é a hora. _ Ele espera uma reação, uma última chance, mas isso não acontece, para ele foi um sinal, um que se torna interpretativo. – Você deixou de se importar, Pai, você deixou de lutar por eles e também por nós. Então por que teria que me importar? _ Então some, com apenas um destino possível. ................................................ Depois de três horas de viagem cansativa, elas chegam até o destino, é uma casa pequena e simples, afastada do centro da cidade, floresta ao lado, mata, lago, uma casa de campo. As quatro saem do automóvel, Juliette se põe ao lado de Yasmin e segura sua mão, Sofia e Tálaga também se dão força, seria a volta de Safira, esperam que aquilo dê certo. – É esse o lugar? _ A ruiva pergunta. – Sim, é esse o lugar. Mesmo tendo certeza, Tálaga fecha os olhos para confirmar, foi seu sangue usado para aquela localização, ao fazer isso, ela sente a presença da irmã. – Só eu estou achando muito fácil? _ Yasmin é a voz da razão. – Temos que arriscar, eu vou primeiro. _ Juliette se manifesta e encara a morena, Yasmin sabe que aquilo não terá jeito, a ruiva não permitirá que o anjo se arrisque. – Cuidado. Elas trocam um selinho antes de Juliette deixar que sua espada escorregue pelo braço, essas que aparecem quando são convocadas. A ruiva fica em posição de ataque, assim como as outras três estão atrás dela. O cupido sobe os pequenos degraus de madeira na entrada e logo está na varanda. Olha para trás e recebe o aceno de confirmação da morena, o ato deu a coragem necessária para Juliette prosseguir. Ela olha para os lados, apenas os sons de pássaros e vento batendo nas plantas são ouvidos, em outra ocasião aquilo seria lindo, mas agora traz uma paz mentirosa, todas ali sabem que nada é o que parece, pois assim que ela fica de pé em frente a porta, seu corpo vai ao chão se contorcendo, proporcionando uma dor desesperadora na ruiva. – Juliette! _ Yasmin grita seu nome e corre para perto, porém antes que ela toque na outra, Tálaga a impede. – Não! Espera. _ A n***a chega perto do corpo do cupido e entende o que aquilo significa. – Sofia, toque em Juliette. A menor mesmo sem entender faz o que é pedido, quando o faz, aos poucos Juliette vai parando de convulsionar. Aquilo também é um feitiço de sangue, tudo envolve os sangues delas, mas a chave é Sofia. – Tudo bem? _ Yasmin se aproxima e pergunta, depois de ter certeza que pode tocá-la. – Sim, só... Caramba, isso dói demais! – Minha irmã não brinca em serviço. Aconselho a daqui para frente, Sofia fazer as aberturas de portas, a energia dela é a chave. As portas só se abrirão para ela. Todas entendem e torcem para que Tálaga esteja certa, pois se não estiver, aquilo pode valer mais uma vida. Ao se recompor, Juliette encara a mais nova que assente. Aos poucos empurra a porta de entrada, as outras estão armadas para qualquer eventualidade, mas como esperado pela bruxa mais velha, nada acontece, a casa não tem nada de diferente, porém parece limpa demais para não haver ninguém morando ali. – Esse lugar não parece desabitado, tem cinzas na lareira. _ Yasmin diz, mas todas já haviam observado isso. Elas olham para os lados, há uma escada, para onde Juliette logo se encaminha. – Vou subir, fiquem aqui. _ A ruiva vai em direção a escada, mas logo Sofia se põe ao seu lado. – As portas vão se abrir só para mim, quer arriscar? Juliette assente, elas sobem e observam o corredor, abrem três portas, dois quartos e um banheiro, mas nem sinal de qualquer ser, quando retorna para a sala, encontram Tálaga e Yasmin paralisadas no meio da sala. Um homem está ao lado delas com a mão erguida, é um feitiço de paralisação. – Quem são vocês? _ Ele é moreno, careca, aparenta ter seus quarenta anos, mas tem trezentos, por ser bruxo. – Pare! Juliette tenta atacá-lo, mas Sofia a para, encarando seus olhos vermelhos, a ira já quer tomar conta da ruiva, pois ele está machucando Yasmin, mas por um minuto ela se dá conta de que tem que ser racional. – Eu me chamo Sofia. _ A morena diz ao voltar a encarar o homem. – Como vou ter certeza? Ela pensa por alguns instantes e então se lembra do colar que sua mãe lhe deu, mostrando para o desconhecido, nesse momento ele solta as duas mulheres do feitiço, essas que já estavam ficando sem respirar, tossem ao deixar os corpos caírem no chão, Juliette corre para o lado da morena e Sofia para o da tia. – Vocês estão bem? _ Juliette pergunta, olhando para as duas mulheres. – Sim, estamos. Tálaga suspira, logo as quatro estão de pé, o homem que está ao lado também as encara, agora olhando fixamente para Sofia que sente algo estranho ao observá-lo. Uma sensação diferente toma conta do seu corpo, como se já a tivesse sentido, mas é estranho o que a deixa preocupada. – E quem é você? _ Tálaga pergunta, séria. O homem olha para aquelas mulheres, mesmo sem elas terem falado nada, ele sabe o que aquilo significa, se Sofia está ali, sabe o que aconteceu com Safira, e mais ainda, se Tálaga e mais dois seres celestes estão a acompanhando, as coisas são mais graves do que ele imagina. - Eu me chamo Santiago e... _ Ele encara Sofia antes de continuar. – Sou seu pai. _ O silêncio prevalece para todos naquela casa, grandes revelações serão feitas naquele dia. ................................................ Lúcifer está parado em frente a entrada da casa, sabe que está sendo observado, mas não se preocupa, são meros soldados, assim como seus demônios presentes, é um ato normal levando em conta a importância daquela missão. Suas mãos estão para trás, suspirando uma última vez ele vai até a porta, os passos são lentos, está em busca de algo que o ajude a encontrar Juliette, cansou de esperar, agora é hora de agir diretamente. Ao entrar completamente na casa, o arcanjo se depara com energias fortes, não só por ser a casa de uma bruxa poderosa, mas também por ter passado por ali arcanjos, mais precisamente quatro deles. Lúcifer anda pelos cômodos, sentindo, pensando, analisando, concentrando-se em qualquer sinal que pode ter sobre para onde a ruiva tenha ido, mas ainda sem sucesso. – Eu já passei por aqui, irmão, não tem nada. _ O arcanjo não se surpreende com a presença de Rafael, mas ao mesmo tempo está curioso. – Devo me preocupar com a sua vinda até mim? _ Rafael se aproxima do irmão, seria a primeira conversa a sós dos dois. – Esse dia tinha que chegar. – É, tinha, mas esperava que fosse depois, bem depois. _ Nesse momento eles se encaram. – Você está fragilizado, soube da pequena batalha, tenho que admitir, você é corajoso, nem eu me atrevo a enfrentar Miguel sozinho. – Não tenho medo de morrer, Lúcifer, eu tenho medo de deixar que ele faça o que pensa fazer. _ O arcanjo mais velho franze o cenho. – Miguel não está sabendo lidar com as sensações do mundo terrestre. Temo pelo pior. – E o que seria o pior? Rafael se aproxima mais do irmão, ambos abrem as asas, negras e brancas, não é um movimento de ataque, é respeito. – Que ele se iguale a você. Lúcifer começa a gargalhar, sabendo que no mínimo aquilo será trágico, já imagina seu Pai tendo que exilar mais um filho. – Ele nunca se igualará a mim, Rafael, ele nunca decepcionará nosso Pai, seja como for, Miguel sempre será o espelho da perfeição esculpido por Deus. Todos dizem que eu sempre fui o favorito, mas estão enganados, eu nunca fui, sou protegido por ser seu filho também, mas Miguel? Miguel é o escolhido, ele é o líder que nosso Pai criou, porque acha que nosso Pai nunca permitiu que ele descesse? Não seja ingênuo, Rafael, eu nunca fui a ameaça aqui, na verdade, ela sempre esteve ao seu lado. Rafael trava o maxilar, mesmo sabendo que Miguel está sendo influenciado pelos sentimentos humanos, não conseguindo discernir suas ações, acha exagero dizer que ele é uma ameaça pior que o irmão mais velho. Lúcifer é o d***o, aquele título não veio à toa, ele fez por onde merecer. – Não seja extremista, Samael, nenhum ser no mundo chegará ao nível de escuridão que abriga em sua aura. _ Lúcifer chega perto do outro e mais uma vez fica frente a frente. – Então porque está aqui, Rafael? Se acreditas tanto em nosso irmão, por que está aqui? Mesmo acreditando mesmo na fidelidade de Miguel em relação ao Pai, a verdade é que as vezes os humanos agem levados por conceitos que consideram o certo, o conceito de certo varia de mente para mente, e esse é o medo de Rafael, pois isso está acontecendo com seu líder. – Porque o genocídio nunca será a solução para nada. Então Lúcifer entende o real medo do irmão, agora mais que antes ele tem que chegar até Juliette antes de Miguel, pois se ele a tiver, conseguirá fazer o que planeja.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR