Dario
O retorno da escola naquele dia ensolarado prenunciava uma nova tempestade na vida de Dario. Agnese o esperava na porta, um sorriso forçado e pegajoso em seus lábios finos. Assim que o menino cruzou a soleira, ela se abaixou, seus dedos frios apertando seu rosto pequeno.
"Diga, Dario," sussurrou, a voz melosa e artificial. "Diga 'mamma'. Eu sou sua mamma agora, não sou?"
O corpo de Dario enrijeceu. A palavra era um eco sagrado de um tempo feliz, um som que Agnese profanava com sua presença opressora. Seus pequenos punhos se cerraram.
"Não," ele disse, a voz firme apesar do tremor. "Você não é minha mamma. Minha mamma é Isabella."
O sorriso de Agnese se desfez, revelando a fúria cintilando em seus olhos. "Como ousa?!" gritou, sua voz estridente ecoando pelo hall de entrada. "Depois de tudo que eu fiz por você? Ingrato! Eu sou sua família agora! Diga 'mamma'!"
Ela tentou forçar seus lábios a formar a palavra, seus dedos apertando suas bochechas com força. Dario resistiu com todas as suas forças, balançando a cabeça freneticamente, as lágrimas brotando em seus olhos.
A frustração de Agnese se transformou em um desequilíbrio assustador. Ela começou a gritar e chorar histericamente, batendo nas próprias coxas com os punhos cerrados, o rosto contorcido em uma máscara de raiva e dor fingida.
"Olha o que você me faz! Olha o que essa criança ingrata me faz!" ela soluçava, seus gritos atraindo a atenção do tio de Dario, que apareceu na sala com uma carranca sombria.
Agnese, num instante, mudou sua postura, correndo para os braços do marido, agarrando-se a ele como se Dario a tivesse atacado. "Ele... ele se recusa a me chamar de mãe! Ele ainda se apega àquela... àquela mulher! Eu tento tanto, Giovanni, mas ele é tão... tão teimoso e c***l!"
O tio lançou um olhar furioso para Dario, que observava a cena com medo e confusão. Negava com a cabeça sem dizer uma palavra, ele agarrou os cabelos de Dario com força, puxando sua cabeça para trás.
"Você não vai criar um mentiroso nessa casa!" rosnou, a voz carregada de raiva. "Ingrato! Depois de tudo que sua tia faz por você!"
Ele arrastou Dario pelos cabelos, ignorando seus gemidos de dor, até a pequena sala de produtos de limpeza no fundo da casa. O cômodo era abafado e fedia a alvejante e outros produtos químicos. Ele empurrou Dario para dentro, fazendo-o tropeçar e cair no chão frio.
"Pense no que você fez," sibilou antes de trancar a porta, deixando Dario sozinho na escuridão pungente.
Um ano se passou. Dario completou nove anos em meio ao silêncio opressor da mansão Patrone. Sua aparência havia mudado drasticamente. O menino rechonchudo e de cabelos encaracolados dera lugar a uma figura franzina, com os fios antes cor de caramelo agora picotados de forma irregular, sem nenhum cuidado. Seus olhos, antes cheios de curiosidade e alegria, agora eram fundos e vazios, fixos em um ponto distante que só ele parecia ver. As emoções pareciam ter sido cirurgicamente removidas de seu rosto, deixando para trás uma máscara de apatia. Agnese e o tio Giovanni haviam, de fato, conseguido criar uma tela em branco, desprovida de qualquer cor vibrante, pronta para ser pintada com as cores sombrias de sua própria loucura e crueldade.
O salão suntuoso da Villa Patrone fervilhava com um burburinho elegante e perigoso. Lustres de cristal refletiam a luz em cascatas douradas sobre os rostos sorridentes e as roupas caras. Era a anual "celebração da família", um eufemismo para uma reunião da cúpula da organização mafiosa, onde negócios sombrios eram sussurrados entre brindes de champanhe e apertos de mão firmes. Tio Giovanni e tia Agnese, agora com Dario de onze anos ao seu lado, pairavam no centro do salão, irradiando uma falsa aura de felicidade conjugal e familiar. Giovanni, com seu sorriso forçado e braço possessivo nos ombros magros de Dario, o apresentava a cada figura importante como "nosso filho, Dario". A palavra soava estranha e forçada aos ouvidos do menino, uma tentativa grotesca de reescrever sua história. Agnese, vestida em um vestido de seda vermelho berrante, distribuía sorrisos exagerados e comentários superficiais, tentando encarnar a matriarca acolhedora.
"Ah, Don Vincenzo," Giovanni dizia, com uma risada grave que não alcançava seus olhos frios, "como está sua adorável esposa? Agnese e eu sempre prezamos a união familiar, não é, querida?" Ele apertava a mão do outro homem com uma força que prometia mais do que cordialidade.
Agnese entrava na conversa com uma voz melosa: "Certamente! A família é o alicerce de tudo, não é mesmo? E Dario... ele é nossa maior alegria!" Seus olhos percorriam o salão até encontrarem o menino, parado a seu lado, a sombra silenciosa naquela festa barulhenta. Seus olhos fundos e inexpressivos observavam a encenação, sem qualquer vestígio da alegria infantil de outrora. Vestido em um terno impecável que parecia sufocá-lo, ele era uma pequena estátua de luto em meio à celebração hipócrita.
Em meio ao fluxo constante de cumprimentos, uma mulher elegante de cabelos escuros e olhos penetrantes se aproximou. Era emma Rossi, uma figura influente na organização, conhecida por sua franqueza afiada e uma rivalidade silenciosa com Agnese. Ela parou diante do trio, um sorriso sutil curvando seus lábios.
"Giovanni, Agnese," disse Emma, sua voz suave, mas com um tom inegável de escárnio. Seus olhos percorreram Dario por um instante antes de se fixarem em Agnese. "Como a família está florescendo! Dario está ficando um rapaz. É uma pena que vocês não tenham outros para lhes fazer companhia, não é mesmo, Agnese?"
O sorriso de Agnese vacilou por um microssegundo, seus olhos estreitando-se ligeiramente. A infertilidade era um tema delicado, raramente mencionado em sua presença, e a alfinetada de Emma não passou despercebida por ninguém ao redor. Um silêncio desconfortável se instalou brevemente.
Giovanni pigarreou, tentando contornar a situação. "Bem, Dario nos dá muita alegria. Ele é o futuro da família Patrone." Ele apertou o ombro de Dario com mais força, como se para reafirmar sua posse.
Emma, no entanto, não se deixou dissuadir. Seus olhos permaneceram fixos em Agnese, com um brilho malicioso. "Claro, Giovanni. Mas sabe como é, a continuidade da linhagem... é sempre importante, especialmente em nossos círculos. Uma pena que Agnese nunca tenha conseguido dar-lhes herdeiros. Uma bênção que seu sobrinho esteja aqui para carregar o nome."
O rosto de Agnese ficou pálido sob a maquiagem pesada. Seus dedos se crisparam na manga do casaco de Giovanni. A máscara de matriarca feliz havia rachado, revelando a frustração e a amargura que ela tanto se esforçava para esconder. Dario, parado entre os dois adultos tensos, sentiu a mudança na atmosfera, embora não compreendesse totalmente a troca de palavras. Ele percebia a hostilidade velada e o desconforto de sua tia, mantendo o olhar fixo no chão, desejando desaparecer. Giovanni lançou um olhar furioso para Emma, mas ela manteve seu sorriso sutil, como se tivesse acabado de fazer um comentário inofensivo sobre o clima. A tensão entre as duas mulheres era palpável, uma corrente fria correndo sob a superfície da festa. Agnese, visivelmente abalada, agarrou o braço de Dario com mais força, quase o puxando. "Vamos, querido. Há outras pessoas que querem conhecê-lo." Ela se afastou rapidamente, arrastando Dario consigo, tentando se afastar do olhar perscrutador e das palavras venenosas de Emma Rossi. A breve troca havia exposto a fragilidade da fachada de família perfeita que ela e Giovanni tanto se esforçavam para manter, deixando Dario mais uma vez preso no meio de um jogo de poder adulto que ele não compreendia.
O salão ecoava com o murmúrio solene dos capos e sottocapos, a nata da 'Ndrangheta siciliana reunida sob o teto ornamentado da antiga vila. O cheiro acre de incenso se misturava ao aroma forte do vinho tinto e ao suor frio da tensão que pairava no ar. Meus olhos percorriam os rostos sombrios, cada um deles uma história de lealdade, brutalidade e segredos enterrados. Anos... anos eu esperei por este momento, engolindo a bile da humilhação, sorrindo falsamente para aqueles que me fizeram definhar à sombra de sua mesquinhez. Minha tia e meu tio, sentados lado a lado no estrado improvisado, suas faces gordas e presunçosas agora manchadas por uma incerteza vacilante. Eles não imaginam a tempestade que se aproxima.
O velho Salvatore, a voz rouca e carregada de anos de poder, finalmente terminou a ladainha em dialeto siciliano arcaico. A lâmina cerimonial, fria e pesada em minha mão, refletia a luz vacilante das velas. Era hora.
"Dario Patrone," a voz de Salvatore trovejou, e o silêncio caiu como um manto pesado. "Você jura, perante a famiglia e os espíritos de nossos antepassados, honrar a Omertà, defender nossa tradição com sangue e ferro, e governar com justiça e... firmeza?"
Meus olhos encontraram os da minha tia. Vi um lampejo de escárnio, a velha arrogância teimando em morrer. Por anos, ela sussurrou pelas minhas costas, me chamando de fraco, de inútil, envenenando a mente do meu tio contra mim. Meu tio, com seus sorrisos gordurosos e suas "lições" cruéis disfarçadas de disciplina, me fez sangrar por cada pequena falha. A justiça? Sim, eles terão sua justiça.
"Giuro," minha voz ecoou pelo salão, carregada de uma intensidade que fez alguns dos mais velhos se agitarem em seus assentos. Não era o juramento humilde que eles esperavam de um mero herdeiro. Era a promessa fria de um homem que finalmente tomava o seu lugar de direito.
A lâmina desceu, cortando a palma da minha mão. A dor foi um lembrete bem-vindo da minha humanidade, do sofrimento que me moldou. Apertei a mão de Salvatore, selando o juramento com meu sangue. O sangue de um novo padrone, sedento por vingança.
"Agora," minha voz cortou o murmúrio que se seguiu ao juramento, meus olhos fixos nos meus parentes. "Há assuntos pendentes a serem resolvidos dentro da famiglia. Velhas feridas que precisam ser expurgadas."