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1671 Palavras
Sofia O sol tropical do Brasil beijava minha pele escura enquanto ajudava minha mãe a entrar no carro alugado. A viagem de volta para a fazenda, embora me exaurisse fisicamente, era carregada de uma expectativa ansiosa que latejava em meu peito. Mamãe, nos seus momentos de clareza, expressava um desejo crescente de rever tia Helena. "Helena sente minha falta, não é, Sofia?" perguntava, seus olhos marejados de uma saudade infantil que me cortava o coração. A estrada para o interior serpenteava entre plantações de cacau e pequenos vilarejos com casas coloridas, cada curva me afastando mais da fria sofisticação da Sicília e me aproximando do calor familiar da minha infância. Eu dirigia com cuidado, observando Mamãe no banco do passageiro. Havia momentos de silêncio contemplativo, onde eu apenas ouvia sua respiração suave, e outros em que ela cantarolava melodias antigas, canções de ninar de uma infância compartilhada com Helena, ou compartilhava lembranças fragmentadas que emergiam como bolhas de sabão, me dando vislumbres fugazes de um tempo mais leve. "Lembro de quando roubamos mangas do quintal do vizinho, Sofia," ela disse de repente, um brilho travesso nos olhos que me lembrou da menina travessa que ela fora. "Helena caiu do muro e ralou o joelho. Chorou tanto! E Vovô ficou tão bravo... mas depois nos deu sorvete de cajá." Um sorriso nostálgico se formou em meus lábios. "Ela sempre foi mais estabanada, não é? Vovô sempre dizia que ela tinha 'espírito de porco'," respondi, a voz embargada por uma ternura agridoce. Ao chegarmos à fazenda, o cheiro inconfundível de terra úmida, café torrado e as flores doces do jasmim me envolveram como um abraço fantasmagórico de Vovô. Tia Helena já esperava na varanda, seus olhos fixos no carro que se aproximava. Ao ver Mamãe, um sorriso largo e genuíno iluminou seu rosto marcado pelo tempo e pelas preocupações. "Maria!" exclamou tia Helena, correndo ao nosso encontro assim que parei o carro. Seus passos eram mais lentos que na juventude, mas a urgência do seu amor era palpável, e eu senti um alívio profundo em vê-las se reunindo. Eu ajudei Mamãe a sair, e as duas irmãs se abraçaram apertado, um longo e silencioso abraço carregado de anos de história, de alegrias compartilhadas e da dor silenciosa da doença que agora as unia de uma forma diferente. Senti meus próprios olhos marejarem ao testemunhar a força desse laço. "Helena... minha Helôzinha," Mamãe sussurrou, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto e molhando os cabelos brancos da irmã. "Que bom te ver... senti tanto sua falta..." Sua voz era um fio de esperança e alívio. "Maria... minha irmã," tia Helena respondeu, sua voz embargada, apertando Mamãe em seus braços. "Você voltou para casa. Está tudo bem agora." Ela olhou para mim com gratidão nos olhos marejados. "Obrigada, querida. Por trazê-la." Os primeiros dias foram um turbilhão de emoções. Houve momentos de alegria genuína, quando as irmãs compartilhavam lembranças vívidas, riam de velhas histórias e se confortavam em sua presença mútua. Em um desses momentos, enquanto estávamos sentadas juntas na varanda, observando o pôr do sol que pintava o céu em tons de laranja e roxo, Mamãe segurou a mão enrugada de Helena. "Lembra daquela festa de São João, Helô?" ela perguntou, um brilho nostálgico nos olhos. "Você usava aquele vestido florido que papai tanto gostava, e dançou a noite toda com o Zé da venda... Vovô até te deu umas moedas extras pra comprar bolo de milho." Uma onda de calor percorreu meu corpo ao imaginar a cena, Vovô sempre tão generoso e divertido. Tia Helena sorriu, as lembranças aquecendo seu coração. "E você estava paquerando o Antônio da serraria, toda prosa, achando que ninguém estava vendo. Papai deu uma risada tão alta que acordou os cachorros." As duas riram juntas, a melodia suave de suas vozes preenchendo o ar da tarde, misturada ao canto distante dos grilos. Senti uma pontada de saudade de Vovô, seu cheiro de tabaco e terra molhada ainda tão vivo em minha memória. As minhas lembranças com Vovô eram um tesouro único, gravado a fogo em minha alma. Sua comida, feita com as mãos calejadas e um toque mágico, tinha um gosto que nenhum outro paladar jamais replicou. O frango ensopado com quiabo e arroz branco fofo desmanchava na boca, carregando o sabor da terra e do cuidado. E o bolo de milho cremoso, assado no forno a lenha, com aquela crosta dourada e o cheiro doce que invadia toda a casa... ah, aquilo era a própria felicidade em forma de doce. E o cheiro de alfazema... era inevitável, impregnando cada canto da casa. Vovô guardava as folhas secas em grandes frascos de vidro verde, enfileirados na prateleira da cozinha, exalando um aroma fresco e herbal que se misturava ao cheiro de café coado e bolo assando. Era o cheiro da fazenda, o cheiro de Vovô. As roupas... ah, as roupas de Vovô! Pareciam eternas. Ele tinha um pequeno guarda-roupa de madeira escura, e jurava que nunca trocava as peças de dentro. A mesma camisa xadrez desbotada, a calça de brim cor de cáqui um pouco puída nos joelhos, o chapéu de palha amassado que usava para o trabalho no campo. "Tá novo, minha fia," ele resmungava com um sorriso teimoso quando Vovó tentava lhe dar algo novo. "Pra que frescura? Isso aqui ainda aguenta mais uns anos." Era parte do seu charme rústico, da sua simplicidade sem afetação. Lembro vividamente das nossas correrias no quintal imenso, a mangueira esguichando água para todos os lados, transformando a terra seca em lama pegajosa. Eu e os outros primos, um verdadeiro "rebanho de corno pequeno", como ele carinhosamente nos chamava, espalhando barro pelas paredes da casa recém-pintada. "Ô cambada de moleques atentados! Só vêm pra sujar a minha casa! Vou falar pra sinhá p**a das suas mães!" Ele gritava com aquele seu jeito ranzinza, o rosto vermelho de fingida irritação, mas seus olhos brilhavam com um brilho divertido. Sabíamos que, por baixo daquele pavio curto, havia um amor imenso, um carinho profundo por cada uma das suas filhas e por cada um dos seus netos. As festas na fazenda eram lendárias, grandes e fartas, reunindo toda a parentela e mais alguns agregados. Não tinha miséria na mesa de Vovô. O leitão assado chiava na brasa, a galinha caipira ensopada fumegava em panelões enormes, o arroz de festa brilhava com açafrão e passas, e a farofa rica tinha bacon crocante e ovos cozidos. A cachaça corria frouxa para os homens, e as mulheres se deliciavam com o quentão e os doces caseiros. A sanfona chorava alegre, e os nossos pés batiam no chão de terra batida até a madrugada, embalados pelas risadas e pelas histórias contadas ao redor da fogueira. Vovô, com seu chapéu inclinado e um copo na mão, observava tudo com um sorriso paternal, o patriarca orgulhoso da sua grande e barulhenta família. Aqueles eram tempos de abundância, de união, de um amor simples e genuíno que aquecia a alma. (Fiz lembrando do meu avô....) No entanto, a realidade da doença logo se impôs novamente. Houve momentos de confusão, em que Mamãe não reconhecia Helena ou a confundia com a falecida esposa de um vizinho. Em uma dessas ocasiões, enquanto tia Helena lhe dava um copo de água com cuidado, Mamãe franziu a testa, seus olhos antes tão doces agora carregados de uma sombra de medo que me apunhalou o coração. "Quem é você? O que quer? Não se aproxime de mim!" perguntou, a voz carregada de uma desconfiança que cortou o ar, e eu vi a dor se estampar no rosto de tia Helena. Tia Helena cambaleou, a dor estampada em seu rosto, como se tivesse levado um tapa. "Sou eu, Maria. Sua irmã, Helena. Lembra? A gente plantava girassóis juntas no jardim de Vovô." Minha garganta se fechou, a impotência me consumindo. "Minha irmã é mais jovem... você é velha... e seus olhos... seus olhos são tristes..." A confusão nos olhos de Mamãe era palpável, e senti meu próprio coração se apertar com uma angústia profunda. Eu corri para amparar tia Helena, colocando uma mão reconfortante em seu ombro trêmulo. "Ela não está lembrando agora, tia. Vai passar. Amanhã será um dia melhor," eu disse, embora minhas próprias palavras soassem vazias e incertas. À noite, em meu quarto, a familiaridade do ambiente não conseguia apagar as lembranças sombrias da Sicília. Eu me sentei na cama de solteiro que fora minha durante a infância, a colcha de retalhos feita por Vovó parecendo fria sob meus dedos. O cheiro fraco de guardado e alfazema me transportou brevemente para um tempo mais seguro, para as histórias que Vovô contava antes de dormir, sua voz grave misturada ao som dos grilos lá fora. Mas a paz era fugaz. De repente, um detalhe insignificante - a forma como a luz da lua entrava pela janela, projetando sombras longas e distorcidas no chão - desencadeou uma avalanche de memórias. Aquele padrão de luz e sombra me lembrou, de forma lancinante, as noites insones no quarto frio, a sensação sufocante de estar presa e vulnerável. A imagem nítida do rosto de Patrone, a frieza cortante em seus olhos escuros, a possessividade repulsiva em seu toque... tudo me atingiu com uma força avassaladora, como se ele estivesse ali, no escuro do meu quarto de infância. O ar pareceu rarear em meus pulmões, e um soluço involuntário escapou dos meus lábios. Eu me encolhi sob os lençóis finos, as lágrimas quentes escorrendo pelo meu rosto, silenciosas e convulsivas. Aqui ...que eu esperava que fosse um santuário, também era o lar de minhas memórias mais doces, agora manchadas pela escuridão do que eu havia vivido. A alegria dos reencontros e as lembranças da infância feliz se misturavam à dor lancinante do trauma recente, aprisionando-me em um ciclo de sofrimento. Eu chorei em silêncio, o corpo trêmulo, a lembrança daquele quarto distante na Sicília me sufocando novamente, a sombra fria de patrone alcançando-me mesmo sob o céu estrelado da minha terra natal, me fazendo sentir suja e impotente outra vez.
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