Dario
Signora Elena se afastou de Dario, enxugando os olhos com a barra do avental. Seu rosto ainda estava marcado pela tristeza, mas ela tentou esboçar um sorriso para o menino, que a observava com uma confusão infantil.
"Vamos, piccolo," disse ela, a voz ainda um pouco rouca. "Seus pais gostariam de vê-lo arrumado..."
Ela abriu o guarda-roupa de Dario, revelando uma pequena fileira de roupas coloridas. No meio delas, um pequeno terno azul-marinho se destacava, engomado e impecável, como se esperasse por uma ocasião especial. Dario franziu a testa. Ele raramente usava terno.
"Por que o terno, Signora Elena?" perguntou, enquanto ela pegava a pequena camisa branca e a calça social. "Para onde vamos?"
Signora Elena hesitou por um instante, o olhar vago. "É... é uma surpresa, caro..."
Enquanto ela o ajudava a vestir a camisa macia, abotoando os pequenos botões com cuidado, Dario sentiu a atmosfera estranha da casa pairando sobre eles.
"Eles já voltaram?" perguntou, a ansiedade crescendo em sua voz. "Papai e Mamma disseram que voltariam logo da reunião."
Signora Elena parou por um momento, as mãos hesitantes sobre os pequenos botões da calça. Seus olhos se encheram de lágrimas novamente, e ela mordeu o lábio inferior, como se tentasse impedir que as palavras saíssem.
"Eles... eles..." ela começou, mas a voz falhou, embargada pela emoção. Ela tentou novamente, pigarreando suavemente. "Eles... tiveram um imprevisto, caro. Algo... algo importante."
Dario a observava, a inocência de seus cinco anos lutando para compreender a tristeza que emanava da babá e o clima pesado da casa.
"Mas eles vão voltar para brincar comigo, não vão?" insistiu, enquanto Signora Elena o ajudava a vestir o paletó do terno, um pouco grande demais para seus ombros magros. "Eu estou melhor agora. Podemos montar o forte e jogar bola no jardim!"
Signora Elena apertou os lábios, o olhar fixo no pequeno nó da gravata que ela tentava ajustar em volta do pescoço de Dario. Suas mãos tremiam levemente.
"Eles... eles gostariam muito, caro," ela conseguiu dizer, a voz um sussurro doloroso. "Mas agora... agora precisamos ir. Estão esperando por você."
Ela evitou o olhar de Dario enquanto o calçava com seus pequenos sapatos sociais, o silêncio no quarto sendo preenchido apenas pelos seus suspiros contidos.
Signora Elena segurou a mão de Dario com firmeza, guiando-o para fora do quarto. A atmosfera na casa parecia ainda mais densa do que antes. O silêncio era quase palpável, quebrado apenas pelos seus pequenos passos hesitantes e pelos suspiros contidos de Signora Elena.
Ao descerem as escadas imponentes, Dario arregalou os olhos. O salão de entrada, normalmente um espaço vibrante com a luz do sol dançando nos móveis polidos e o som ocasional das conversas dos empregados, estava estranhamente cheio. Homens e mulheres vestidos de preto rigoroso preenchiam cada canto, imóveis como estátuas sombrias. Todos usavam óculos escuros, escondendo seus olhares atrás de lentes impenetráveis.
Dario nunca tinha visto tantas pessoas desconhecidas em sua casa. A casa era movimentada, sim, com jardineiros cuidando dos roseirais, cozinheiros preparando seus pratos favoritos e empregadas mantendo tudo impecável. Mas aquelas pessoas... elas não se encaixavam. Seus rostos eram sérios, inexpressivos, e a cor de suas roupas engolia toda a alegria do ambiente.
"Signora Elena," sussurrou Dario, apertando a mão dela com mais força. "Quem são essas pessoas? Por que estão todos de preto?"
Signora Elena apertou sua mão de volta, o olhar fixo em algum ponto à frente. "São... são amigos dos seus pais, caro. Vieram... vieram prestar uma homenagem." Sua voz era baixa, quase um murmúrio, e havia um tremor sutil em sua mão.
Ao passarem por eles, Dario sentiu os olhares invisíveis por trás das lentes escuras fixos em si. Não eram olhares curiosos ou amigáveis, mas algo mais... solene, pesado. Ele se encolheu um pouco atrás da saia de Signora Elena, sentindo um calafrio percorrer sua espinha, apesar do calor do dia.
O jardim, seu refúgio de brincadeiras e descobertas, também estava transformado. O gramado verde esmeralda estava pontilhado de figuras vestidas de preto, espalhadas em pequenos grupos silenciosos. As cores vibrantes das flores pareciam pálidas sob o peso daquela multidão sombria. Até mesmo os pássaros pareciam ter silenciado seus cantos alegres.
Dario procurou pelos seus pais, esperando vê-los no meio daquela multidão estranha, sorrindo e explicando quem eram todos aqueles visitantes. Mas eles não estavam ali. A ausência deles era um buraco silencioso no meio daquele mar de preto.
"Onde estão papai e mamãe?" perguntou Dario, a voz agora carregada de uma ponta de ansiedade. Ele puxou a mão de Signora Elena, parando no meio do caminho de pedras. "Eles estão com os amigos?"
Signora Elena se ajoelhou à sua frente, o rosto ainda marcado pelas lágrimas, mas com uma expressão de profunda tristeza em seus olhos. Ela pegou as pequenas mãos de Dario nas suas, apertando-as com ternura.
"Meu caro," começou ela, a voz embargada, "seus pais... seus pais sofreram um acidente." As palavras pairaram no ar, carregadas de um significado que a pequena mente de Dario ainda não conseguia processar completamente.
Dario franziu a testa, as palavras de Signora Elena ecoando em sua mente. "Dodóis?" perguntou, a voz hesitante. "Como quando a mamãe teve gripe? Mas tem muita gente preta... eles também estão dodóis?"
Signora Elena o abraçou apertado, o rosto afundado em seus cabelos macios. "É diferente, caro. É uma dor... uma dor muito grande."
Naquele instante, uma figura alta e imponente se aproximou. Era o tio de Dario, irmão de seu pai, um homem de semblante severo que Dario raramente via e de quem sentia um certo receio. Seus olhos frios percorreram o menino vestido de terno, sem qualquer traço de ternura.
"Elena, deixe o garoto," disse o tio, a voz áspera e direta. Ele se agachou, encarando Dario com uma frieza cortante. "Seus pais não estão dodóis, garoto. Eles morreram. Entendeu? Morreram. Não vão voltar."
As palavras atingiram Dario como um soco no estômago. Seus olhos se arregalaram, a confusão dando lugar a uma dor lancinante que rasgou seu pequeno peito. Lágrimas quentes brotaram, escorrendo pelo seu rosto pálido. Um soluço convulsivo escapou de seus lábios.
"Não..." ele conseguiu murmurar, a voz embargada pelo choro. "Não... meus pais não..."
"Cale a boca!" trovejou o tio, a paciência esgotada. "Não seja fraco! Nenhum homem se comporta dessa forma. Eles se foram e você precisa engolir isso."
As palavras cruéis e a frieza do tio eram como punhais afiados, a dor da perda se intensificando com a falta de compaixão. Dario chorou ainda mais, as lágrimas molhando a gola de sua camisa branca.
Signora Elena se apressou em intervir, colocando uma mão protetora no ombro de Dario. "Por favor, senhor, ele é apenas uma criança! Ele precisa de tempo para entender..."
O tio se levantou, lançando um olhar gélido para a babá. "Cale-se você também, Elena. Ele precisa aprender a enfrentar a realidade, e não ser mimado com falsas esperanças. O mundo não tem paciência para fracos."
A crueldade das palavras do tio e a frieza em seu olhar eram avassaladoras. Dario se encolheu, agarrando-se à saia de Signora Elena, o choro preso em sua garganta, sufocado pela dor e pelo medo daquele homem severo e insensível.
Meses se arrastaram sob o teto gélido da mansão, cada dia uma repetição sombria do anterior. A ausência de Signora Elena era um fantasma constante, um vazio que ecoava nos corredores silenciosos. No lugar de seu calor, pairava a sombra de Agnese, uma figura esquelética com olhos que brilhavam com uma luz fanática. Sua tentativa de ser mãe era uma tortura psicológica, uma lenta e c***l lavagem cerebral na mente fragilizada de Dario.
"Diga, Dario! Diga que Isabella era fraca! Que ela nos deixou por sua culpa!" Agnese sibilava, agarrando os braços magros do menino com dedos ossudos. Seus olhos arregalados fixavam os de Dario, esperando uma resposta que nunca vinha. "Ela não era uma verdadeira mãe! Você entende, não é?"
Ela o forçava a olhar para o espelho, apontando para seu próprio reflexo com um dedo acusador. "Olhe para si! Seus olhos! A fraqueza dela está em você! Precisamos extirpá-la! Precisamos torná-lo forte!"
As lembranças de seus pais eram tratadas como uma heresia. Agnese rasgava qualquer desenho que Dario fizesse deles, queimava em segredo as poucas fotografias que ele conseguia esconder. "Eles não existem mais! Foram punidos! E tudo por sua causa!" ela gritava, a voz histérica ecoando pelas paredes. "Se você tivesse sido um menino melhor, mais obediente, eles ainda estariam aqui! Foi sua culpa, Dario! Sua culpa!"
Ela o obrigava a repetir mantras insanos enquanto ele tentava inutilmente conter as lágrimas. "O nosso sobrenome é força! não sente! obedece!" Sua voz infantil se perdia no eco frio das palavras de Agnese, sua pequena identidade sendo lentamente esmagada sob o peso da loucura da tia.
À noite, os pesadelos eram povoados pelas acusações de Agnese, os rostos de seus pais se contorcendo em agonia, apontando para ele com dedos acusadores. Ele acordava gritando, o corpo banhado em suor frio, apenas para encontrar o olhar fixo e perturbado de sua tia na porta.
"Está vendo? Eles vieram lembrá-lo! Da sua falha! Do que você fez!" ela sussurrava, a voz carregada de uma convicção delirante. "Você precisa expiar, Dario! Você precisa ser digno do nome, mesmo que isso signifique esquecer essa escória que o gerou!"
A comida era servida com sermões sobre a linhagem, sobre a necessidade de ser implacável, sobre a vergonha de sentir qualquer emoção que não fosse a raiva ou o orgulho frio. Se Dario chorava, era trancado no quarto escuro sem jantar, com Agnese gritando através da porta: "Chore! Chore pela sua fraqueza! Chore pela desgraça que você trouxe a esta família!"
Lentamente, como uma flor murchando sob uma sombra constante, a alegria se esvaía dos olhos de Dario. Ele se tornava quieto, obediente, aprendendo a esconder suas lágrimas e seus pensamentos.