O trajeto até o prédio de Isa foi silencioso. Dante dirigia com uma mão no volante e a outra apoiada na perna, concentrado, mas atento a cada movimento dela no banco do passageiro. Isa, por sua vez, mantinha o olhar fixo na janela, como se o reflexo das luzes da cidade fosse mais interessante do que qualquer conversa.
Ele só quebrou o silêncio quando estavam quase chegando.
— Ele é seu ex?
Ela demorou um segundo antes de responder.
— É. Rodrigo.
Dante assentiu devagar.
— Parecia... insistente.
Isa riu, sem humor.
— Ele é. Sempre foi. Quando as coisas não saem do jeito dele, ele surta. Hoje foi até educado, pra ser sincera.
Dante lançou um olhar rápido para ela.
— E por que terminaram?
Ela hesitou, os dedos apertando a alça da bolsa no colo.
— Vamos dizer que... ele não sabia exatamente o que queria. — desviou o olhar. — E quando descobriu, fez questão de me arrastar junto.
— Entendi. — respondeu Dante, sem forçar mais nada.
O carro parou em frente ao prédio. Ele desligou o motor e a olhou.
— Quer que eu suba?
Isa sorriu, breve, mas sincera.
— Não. Hoje não.
Dante assentiu outra vez. Havia algo respeitoso no modo como ele aceitava os limites dela — e isso a confundia ainda mais.
Ela abriu a porta e já se virava para sair quando ele falou:
— Ele perdeu mais do que imagina.
Isa ficou parada por um segundo, respirando fundo antes de sair do carro. Quando olhou para ele de novo, seus olhos estavam mais suaves.
— Boa noite, Dante.
— Boa noite, Isa.
Ela entrou no prédio e não olhou para trás.
No elevador, encostou-se na parede e fechou os olhos. Pela primeira vez em muito tempo, não sentia raiva. Só um alívio estranho... e um friozinho no estômago que definitivamente não vinha do vinho.
...
A manhã de segunda-feira passou surpreendentemente tranquila para Isadora. Dante não havia aparecido até então, e isso lhe deu a liberdade de focar em seus relatórios e planilhas, longe do magnetismo desconcertante dele. O clima na Corp Group Brasil era silencioso e produtivo, exatamente como ela precisava para reorganizar a cabeça depois da noite intensa e do reencontro inesperado com Rodrigo.
Após o almoço, Isadora retornou para sua sala com um café em mãos. Estava revisando um relatório quando ouviu batidas leves na porta. Ao levantar os olhos, encontrou a loira do restaurante — alta, elegante, com postura confiante e olhar afiado.
— Isadora Mendes? — a mulher perguntou, já entrando sem esperar convite.
Isadora arqueou uma sobrancelha, surpresa com a ousadia.
— Sim. Posso ajudar?
A mulher fechou a porta atrás de si com calma ensaiada, cruzando os braços.
— Meu nome é Valentina. Sou sócia da empresa e... já tive um tipo de relação com o Dante.
Isadora se manteve em silêncio, apenas a observando.
— Quero que fique longe dele — Valentina disparou, firme. — Eu vi você no restaurante. Não se engane, Isa. Dante pode ser encantador, mas ele é um homem de impulsos. E você claramente está vulnerável demais pra lidar com alguém como ele.
— Terminaram? — Isadora perguntou, seca.
— Não é da sua conta — Valentina respondeu, sem desviar o olhar. — Mas o que ele e eu temos é mais complexo do que parece. Então seria melhor que você se concentrasse no seu trabalho e evitasse ilusões.
Isadora respirou fundo, mantendo a expressão impassível. Antes que pudesse responder, a porta se abriu abruptamente.
— Valentina — a voz de Dante preencheu a sala. — Que surpresa te ver aqui.
A loira girou nos calcanhares, sorrindo como se não estivesse tentando intimidar uma funcionária segundos antes.
— Dante, querido. Só estava me atualizando com o setor financeiro.
Ele caminhou até a sala, os olhos imediatamente se fixando em Isadora antes de voltar para Valentina.
— A Isadora responde diretamente a mim. Não há necessidade de você vir até aqui.
Valentina sorriu, seca.
— Apenas tentando ajudar a empresa.
— Está ajudando demais — ele retrucou, com um tom que não deixava margem para mais invasões.
Valentina ergueu o queixo, claramente incomodada, e passou por ele.
— Nos vemos na reunião de quarta, Dante.
Quando a porta se fechou, ele se voltou para Isadora, mais sério.
— Ela te falou alguma coisa?
Isadora cruzou os braços.
— Nada que você já não saiba.
Ele suspirou, dando dois passos na direção dela.
— Valentina tem um talento especial pra ser invasiva. Mas ela não tem nenhum poder sobre mim. Nem sobre você.
Isadora o encarou por um instante, antes de se virar para a tela do computador.
— Que bom saber disso. Agora, se me der licença, tenho relatórios pra finalizar.
Dante ficou parado por um segundo, depois soltou um sorriso curto, como se estivesse admirado.
— Você me surpreende o tempo todo, Mendes.
Ela não respondeu.
Quando a porta se fechou, Isadora soltou o ar com força. Se Dante achava que ela era fácil de intimidar, estava muito enganado. Mas algo dentro dela dizia que a guerra de territórios entre ela e Valentina estava apenas começando.
As semanas seguintes foram marcadas por uma rotina silenciosa e disfarçadamente estratégica.
Dante parecia ter desenvolvido uma necessidade repentina de reuniões constantes com Isadora. Chamava-a para revisar contratos que claramente não exigiam tanta atenção, pedia relatórios que já estavam prontos, ou simplesmente inventava pautas para levá-la à sua sala de vidro no último andar.
— Precisamos discutir os números do terceiro trimestre com mais profundidade — dizia ele, mesmo quando ela sabia que já tinham fechado aquele balanço.
Isadora fingia não perceber, mantendo a postura firme, fria, como se não estivesse ciente de cada olhar mais demorado, da forma como ele sentava próximo demais, da voz baixa que usava quando ninguém mais estava por perto. Mas por dentro, ela sentia — cada segundo — a tensão crescer como um fio elétrico prestes a se romper.
Enquanto isso, a vida fora da sala de reuniões também seguia. Júlia, sua melhor amiga, estava passando por uma fase difícil — desempregada há meses e emocionalmente fragilizada.
Foi numa conversa casual no café da empresa que Isadora teve a ideia.
Na semana seguinte, depois de conversar com o RH e avaliar as possibilidades, conseguiu encaixar Júlia em uma vaga de suporte administrativo no setor de comunicação.
— Está falando sério? — Júlia perguntou ao telefone, incrédula. — Um emprego ali dentro? Com aquele CEO lindo e metido?
— É só trabalho, Ju. Você precisa disso. E eu preciso saber que você tá bem — respondeu Isadora, com um leve sorriso.
Júlia foi contratada e logo começou a trabalhar no prédio da Corp Group, o que trouxe um sopro de leveza para os dias de Isadora. Ver a amiga entrosada, animada e se reencontrando profissionalmente era um alívio.
Mas também foi nesse mesmo período que Dante intensificou os encontros.
Às vezes ele apenas aparecia com dois cafés e dizia:
— Preciso que você me ajude a revisar esse plano de investimento. — Mesmo que o arquivo estivesse perfeitamente revisado e enviado na semana anterior.
Outras vezes, parava ao lado da mesa dela durante a manhã e soltava, quase distraidamente:
— Temos uma reunião de alinhamento às 16h. E não vale fugir hoje, Mendes.
Isadora não fugia. Mas também não se entregava.
Ao fim de cada semana, ela voltava para casa com a cabeça fervilhando e o corpo inquieto. O que ele queria, exatamente? O jogo parecia limpo e sujo ao mesmo tempo.