Isa caminhou apressada para fora do ambiente, como se o ar ali tivesse se tornado rarefeito. Sentia o olhar dele em suas costas, queimando, como se Dante a tocasse mesmo de longe. Mas ela não ia se virar. Não podia.
Caminhou até a escada, respirando fundo, tentando retomar o controle do próprio corpo — e da própria mente. Quando finalmente chegou ao topo da escada, não resistiu. Virou-se por um instante, o coração apertando no peito.
E o que viu a fez travar.
Dante ainda estava no mesmo lugar, encostado na parede, o olhar cravado nela. Um olhar que não deixava dúvidas do que ele queria. Mas então, como se obedecesse a um chamado silencioso, ele virou o rosto.
Um casal se aproximava dele. Um homem alto, com ar sofisticado, e uma mulher deslumbrante, com um vestido vermelho que realçava as curvas. Os três trocaram algumas palavras. Risos contidos. Um toque aqui, um olhar ali.
Isa sentiu um arrepio. O mesmo tipo de cumplicidade que vira em outros ali. A mulher deslizou os dedos pelo braço de Dante com i********e. Ele apenas assentiu, e os três começaram a caminhar juntos, sumindo por um corredor lateral com uma placa discreta e dourada.
Isa não sabia explicar o que sentiu. Não estavam juntos, não eram nada, m*l sabiam os nomes um do outro. Mas doeu. Doeu como se ele tivesse sido dela e a traído. Como se ele tivesse escolhido outra, mesmo sem nunca tê-la prometido nada.
Com os passos pesados e a garganta apertada, Isa desceu as escadas, cruzou a pista de dança, encontrou Júlia ao pé do bar e apenas disse:
— Quero ir embora.
Júlia não questionou. Apenas segurou sua mão e saiu com ela da boate.
Do lado de fora, o ar gelado da madrugada paulista parecia zombar da febre que ainda queimava por dentro de Isa. E tudo o que ela queria agora... era esquecer que Dante Montenegro existia.
O sol m*l havia nascido quando Isa acordou com a mente agitada. O pesadelo da noite passada — ou talvez o desejo reprimido — ainda pesava em seu peito. Sem pensar muito, calçou os tênis, prendeu os cabelos em um coque despretensioso e vestiu o conjunto de corrida.
Colocou os fones, deixou o prédio luxuoso em que morava e seguiu para a Avenida Paulista ainda silenciosa naquele início de sábado. As luzes da cidade começavam a se apagar enquanto o dia tomava espaço. Ela correu por quarteirões inteiros, deixando para trás não apenas o suor, mas também as lembranças da noite anterior. Cada passo era um desabafo. Cada respiração, um novo começo.
Depois da corrida, passou em um mercado refinado ali perto. Pegou frutas, iogurte, vinho, queijos — tentando retomar sua rotina com dignidade. Voltou para casa, organizou as compras na cozinha aberta, colocou uma música tranquila e preparou um café demorado, com ovos mexidos e panquecas. Era seu momento. Tentava convencer a si mesma de que estava no controle.
Mas não demorou para algo desconcertante acontecer.
Ao sair de uma loja de decoração no Itaim, onde havia entrado para ver algumas peças para o novo apartamento, Isa sentiu aquele arrepio familiar. Como se estivesse sendo observada.
Ela virou o rosto instintivamente... e viu Dante.
Encostado num carro escuro, óculos escuros, casual demais para um domingo de manhã. Fingiu estar no celular, mas os olhos dele estavam nela. Bastou um olhar para saber que ele estava ali por ela. Não era coincidência.
Isa engoliu seco, virou o rosto e entrou em uma cafeteria. Pediu um cappuccino com chantilly e se sentou em uma mesa do lado de fora. Dante não se aproximou. Mas também não foi embora.
Mais tarde, no fim da tarde, já em outro bairro, ela entrou em uma livraria. Estava distraída folheando um livro quando ouviu a voz dele ao fundo. Riu como se falasse com outra pessoa, mas ela reconheceria aquela risada em qualquer lugar.
Virou-se devagar.
Lá estava ele. Em uma das poltronas, com um exemplar de capa preta nas mãos, falando com a atendente. Ele fingia não notá-la. Mas estava ali. De novo.
A paciência de Isa já estava no limite. Mas o mais perigoso é que, ao invés de medo... ela sentia excitação.
Saindo da loja com passos firmes, ela ignorou o calor que crescia em seu ventre.
Não ia permitir que Dante Montenegro tomasse conta dos seus dias.
Mas o problema era: ele já estava em todos os seus pensamentos.
A noite havia chegado e Isa decidiu sair para jantar sozinha. Queria um lugar tranquilo, com boa comida e um vinho decente para encerrar aquele sábado inquieto. Escolheu um restaurante elegante nos Jardins, onde costumava ir com Júlia em noites de folga. Vestia um conjunto preto de alfaiataria e salto baixo, cabelo preso num coque despretensioso e a maquiagem leve. Estava linda — e não fazia esforço para isso.
Sentou-se em uma mesa próxima à janela, pediu um ravioli de burrata com molho de tomates frescos e uma taça de vinho tinto encorpado. O garçom sorriu ao anotá-lo, e Isa finalmente respirou.
Até a voz dele soar atrás de si.
— Isa?
Ela congelou por um segundo, antes de levantar o olhar devagar.
Rodrigo.
O ex-marido estava ali. Jeans escuros, blazer de couro e aquele olhar pidão que ela conhecia bem demais. Ele forçou um sorriso e já puxava a cadeira quando ela tentou impedir:
— Rodrigo, por favor...
— Só quero conversar. Cinco minutos, Isa. — ele se sentou, mesmo sem permissão.
Ela suspirou, pousando os talheres com cuidado no prato.
— A gente não tem mais nada pra conversar.
— Você me deixou naquela casa como se eu fosse um monstro. Foi um erro. Aquilo... não significa que eu não te amava.
Isa riu, amarga.
— Você me traiu. Com um homem. E com uma mulher. Ao mesmo tempo.
— Eu estava confuso!
— Confuso, Rodrigo? Achar que tem o direito de me expor assim... foi crueldade, não confusão.
Os dois discutiam em tom baixo, mas a tensão era evidente. Isa já tinha se levantado, pegado a bolsa, e tentava sair do restaurante, mas Rodrigo a alcançou na porta e segurou seu braço.
— Você não pode simplesmente me apagar da sua vida assim! — disse ele, apertando o braço dela com mais força do que deveria.
Isa tentou se soltar.
— Me solta, Rodrigo!
— Eu ainda te amo, p***a!
Foi quando uma mão firme se colocou entre os dois.
— Acho que ela foi bem clara. — disse uma voz grave, familiar e perigosamente calma.
Rodrigo virou-se e se deparou com Dante Montenegro, com a postura tranquila, mas com os olhos frios como gelo. Vestia uma camisa escura e jeans caros, elegante e intimidador.
Isa engoliu seco.
— Quem é você? — rosnou Rodrigo, ainda segurando o braço dela.
— O homem que vai quebrar esse seu braço se não soltar ela agora.
Rodrigo hesitou por um segundo, mas Dante deu um passo à frente, com o maxilar travado, e foi o suficiente para ele recuar.
Isa puxou o braço, massageando discretamente onde ele a havia apertado.
— Isso não acabou, Isa. — Rodrigo disse, antes de sair do restaurante com passos rápidos e ego ferido.
Dante virou-se para ela com aquele olhar que invadia tudo.
— Você está bem?
— Agora estou... — ela respondeu, ainda surpresa.
— Vem. Vou te levar pra casa.
Ela hesitou.
— Não precisa, eu...
— Isa — ele a cortou, firme, mas gentil — deixa eu cuidar de você, nem que seja só essa noite.
O silêncio entre eles era cheio de tensão. Isa olhou para a rua escura e depois para ele.
— Só me leva pra casa, Dante. Nada mais.
— Nada que você não queira — ele disse, abrindo a porta do carro.
E ela entrou.