capítulo um

2858 Palavras
Vazio, era isso que meu peito estava preenchido, era um simples... Nada, em cima de coisas que não existia mais, como se tudo estivesse perdido. Talvez estivesse perdido, talvez eu esteja perdida, ainda não sei. Pisquei algumas vezes para me acostumar com aquela imensidão de nada, era tudo branco. Não tinha nada concreto, apenas fumaça e uma branquitude sem fim. Dou um passo para frente, e um som pôde ser captado pelos meus ouvidos. Era um apito de um trem, me lembrando a estação, porém, os sons começaram a mudar, me fazendo tapar os ouvidos. Agachei-me no chão, enquanto fechava meus olhos para organizar meus pensamentos. Era como se tudo ao meu redor fosse feito de magia, mas onde existiria um lugar com uma concentração tão pura de magia? _ Você está certa em uma parte de seus pensamentos. - A voz parecia estar na minha cabeça. Retiro minhas mãos no meu ouvido, escutando barulho de salto se aproximando como se fossem badaladas de um relógio. Uma mulher apareceu, me fazendo pensar se poderia existir realmente alguém tão linda quanto ela? Olhos que me lembravam aquele homem, cabelos negros ondulados e uma pele tão branca, que parecia doentia. Seus pés eram fofos, e parecia que ela pisava em nuvens, ao invés do chão. _ Quem é você? - Não me respondeu, apenas cutucou meu rosto com sua unha grande e pontuda, sorrindo com seus lábios carmesim. _ Vamos conversar, tem tanto tempo que não converso com alguém que foi abençoada pelo Tempo. - Continuei agachada, mas ela apenas sorriu. Seus dedos estalaram, me fazendo sentir algo fofo me abraçando por trás. Olhei para os lados e era apenas uma nuvem, que me fez sentar em seu corpo de ar, mesmo que a textura não fosse ar... Era algodão(?) _ Você é muito desconfiada. - Continuou sorrindo. _ Está confortável ou quer uma decoração melhor? - Iria discordar, mas tudo ao nosso redor já estava mudando. Era um chalé rústico e uma caneca de chocolate quente estava em minhas mãos, e ao invés de continuar sentada em uma nuvem, estava sentada em uma poltrona de couro marrom. Mas a mulher estava sentada a minha frente em um sofá de madeira, com almofadadas grandes que pareciam confortáveis. _ Me chamo Merfina, ou Morte, para os desconhecidos. - Sua voz era sedosa e parecia um anjo. _ Obrigada, nunca me chamaram de anjo. - Parecia envergonhada, mas me liguei de algo. _ Você pode ler os meus pensamentos? - Concordou. _ Então você é a Morte? Tipo, morte, morte? Ou a Morte que pega as almas daqueles que morreram? Não precisou nem mesmo de pensar, ou de rir de minhas palavras estranhas. Ela apenas sorriu e disse: _ A segunda opção. _ Como exatamente morri? - Piscou algumas vezes e bebeu um pouco de chocolate. _ Não sabe? _ Saber, eu sei, mas não sei como você reagiria. - Disse delicada, parecia feita de porcelana. _ É melhor mostrar para você, não acha? _ Mostrará minhas memórias? - Discordou. _ Então o que mostrará? _ Sua vida desde o começo... - Reformulou sua frase. _ Desde que saiu das mãos da Vida e foi parar nas mãos do Tempo. Ficou observando a caneca em minha mão e incitou que eu bebesse o líquido quente, mesmo que o gosto fosse apenas chocolate, era diferente. Não era tão doce, mas não era sem gosto... O que deveria ser isso? Será que não tenho mais paladar? A escutei rindo, mas não tive coragem de olhar para ela, apenas continuei bebendo aquilo que ela chamava de chocolate quente. _ Não precisava beber tudo. - A caneca sumiu da minha mão. _ Agora relaxe e deixe que as memórias lhe encontrem. _ Continuará aqui? _ Sim, preciso falar certas coisas para você. - Concordei, enquanto deixava meus modos para trás. Olhei para o teto, esperando "dormir" ou uma tela para me mostrar o que tinha que ver, mas apareceu uma mulher nas minhas memórias. Uma mulher n***a de pele clara, que fazia seus cabelos cacheados se movimentarem com seus passos. Ela era como uma luz, quente e aconchegante. _ Ela é a Vida, ou para os íntimos, Calina. - Sussurrou no meu ouvido. _ E aquela bolinha ali, amarela, é você. Não tinha visto o que a mulher estava carregando, estava mais impressionada com sua beleza, ou como ela era graciosa. Porém, minha atenção logo foi para a chegada de outra mulher, com cabelos azuis-claros e pupilas de ampulheta, pegando a bolinha amarela em mãos. _ Essa é o Tempo ou Gefina. _ Por que o Tempo me pegou? _ Porque você tinha um propósito desde que a senhorita foi feita, causar o caos. - Isso não parecia bom. O Tempo cutucou a bolinha com suas unhas brancas que tinham várias engrenagens nela, fazendo um barulho estranho de relógio. "Por que criou outra realidade? Não estava boa aquela?"- A vida olhou para a sua irmã e tentava desvendar seus pensamentos. Mas sua irmã apenas sorriu e continuou girando a bolinha em sua mão, como se não ligasse se aquilo pudesse cair e se quebrar. "Apenas queria sair do tédio, e os mocinhos são tão idiotas que me fizeram ter uma brilhante ideia." - Revirou os olhos como zombaria. _ "Por que não faço mais uma realidade alternativa?" Suas palavras exalavam elegância, mas seu propósito era egocêntrico. Sua voz era vibrante e meu ser queria segui-la para qualquer lugar. Mesmo que o lugar fosse o inferno, ela me induzia a isso. "Você só quer ter algo para se divertir? Com a vida de Sienna não foi suficiente?" - A Vida estava pasma pelas palavras de sua irmã. "A vida de Sienna não me pertence mais, desde que os bichinhos da Merfina saíram do inferno e vieram para o mundo dos mortais para fazê-la rainha." - Disse com raiva e tentou se acalmar. _ "Essa terá a benção do tempo e terá tudo que desejar." "Se é assim, ela terá a benção da vida e terá duas vidas, se assim desejar." As imagens pararam de aparecer em minha cabeça e isso me fez abrir os olhos, e observar a Merfina que lixava as unhas. _ Poderia me explicar o que isso significa? - Parou e me olhou. _ A Calina lhe deu duas vidas e Gefina lhe deu a capacidade de escolher o tempo que você quer parar. Você não será amaldiçoada por usar um vira-tempo ou viajar por ele. _ Já usei as minhas duas vidas? - Levantou um dedo. _ Já que ganhei uma vida, posso usá-la... _ Você a usará, mas não agora, tenho que te fazer lembrar de suas memórias. - Sorriu encantadoramente. E mais uma vez me encontro em minha cabeça, vendo coisas que ainda tentava compreender. Dessa vez não tinha Vida ou Tempo, apenas tinha uma belíssima mulher, principalmente devido aos seus cabelos cacheados indomáveis e de seus olhos verdes escuros. Ela amamentava um bebê que segurava uma mecha de seu cabelo e atrás dela tinha um homem com cabelos que iam até o queixo, uma barba por fazer e um corpo invejável. "Vejo que nossa pequena está faminta."- O homem se sentou no braço da poltrona e beijou sua esposa. "Ela me lembra você, cheia de fome."- Sorriu e um sentimento acolhedor preencheu a sala. "Alguma coisa ela deveria me puxar, já que puxou toda sua beleza."- Ficou envergonhada pelo elogio. O ambiente era pacífico e acolhedor, até mesmo fazia meu peito sentir uma saudade inexistente. _ Não é inexistente, essa saudade que existe em seu peito é devido a eles, seus pais. Destiny e Rabastan Lestrange. - Sua voz me trouxe a realidade. _ Eles devem ter chorado quando... - Sacudiu a cabeça em negação. _ Eles me odiavam? - Riu. _ Seus pais lhe amavam, Tessa. Mas o destino foi muito c***l com eles e com você. - Pensei que iria chorar. _ Eles morreram primeiro e você logo depois. - Acariciou meu rosto. _ Quem os matou? _Você já vai descobrir, não tenha pressa. - Concordei e relaxo mais uma vez para ver as outras memórias que inundavam meus pensamentos. Um bebê apareceu e engatinhava no chão, fazendo que seus olhos cinzentos ficassem em meia-lua devido ao riso. Mas a felicidade havia acabado para essa criança cedo demais... Com pouco tempo de convivência, o pai da criança foi preso e o mundo daquela menina se transformou. Ela parecia uma menina cheia de alegria, com cabelos cacheados que sempre estavam soltos. Porém, quando uma carta de Hogwarts apareceu, isso mudou suas opiniões sobre o mundo. "Mamãe, não quero ir. Quero ficar com a senhora."- A garota não parava de chorar no colo da mãe. "Meu amor, você precisa ir." - Acariciou o rostinho redondo dela. _ "Para você se tornar uma grande bruxa, igual a mim e seu pai." "Não quero ser igual ao papai, não quero ser presa!"- A menina havia escolhido a luz. "Então quer seguir seu próprio caminho?"- Concordou. "Vou seguir aqueles que não vão para a prisão." "A mamãe lhe apoia em qualquer coisa, meu amor."- Sorriu para sua pequena que parava de chorar. _ Essa foi a pior decisão dela. - Disse a mulher bebendo um pouco de chocolate quente e zombou. _ Seguir algo apenas por seguir seria fácil. _ E não foi isso que aconteceu? - Negou. _ Então o que aconteceu? _ A pequena Tessa quando chegou em Hogwarts foi selecionada para Sonserina, mas ao invés de ficar calada sobre sua opinião sobre as Trevas, ela contou para todos... A memória mudou e agora estávamos em um castelo, deveria ser Hogwarts. A menina sorria para todos em sua mesa, porém, aquela imagem mudou. Mas a garota não estava mais alegre em sua mesa e seu rosto tinha hematomas horríveis, mas ela não ficou por muito tempo naquele lugar. Porém, um grupo de pessoas também se levantou e a seguiu. Um homem de barba branca que viu aquela ação inesperada da mesa das serpentes se levantou e seguiu aquele grupo. Quando chegou, viu meninas e meninos chutando e socando a garota. "O que pensam estar fazendo?"- Todos correram, menos a menina que sangrava no chão. Ele a ajudou se levantar e foi com ela até a enfermaria, para que a enfermeira ajudasse. "Irá me dizer o motivo disso ter acontecido?" "Falei para eles que queria seguir a luz, eles não gostaram disso e me bateram." "Que horror!" - Falou a madame. "E você realmente quer seguir?"- Ele parecia bonzinho. "Sim, é errado?" "Não." _ Foi aí que tudo em sua vida mudou, ela foi salva por Dumbledore. _ Ele é m*l? - A olhei descrente, não era possível. _ Você pode tirar suas próprias conclusões mais tarde. Dessa vez a memória era quando a menina deveria ter quinze anos, ela sorria e batia palmas. "Mundo chamando Lestrange." - Balançou a mão na face de Tessa. _"Está no mundo da lua de novo?" "Que dia não estou?" - Perguntou olhando para o salão. Velas avulsas faziam que aquele salão fosse recheado de luz e animação, o teto enfeitiçado fazia os alunos novatos admirarem. "Quando está com os Grifinórios." - Respondeu à menina que parou de balançar a mão na face de Tessa. "Pelo menos eles não tentaram me m***r, só porque não acredito em uma ideologia i****a que o Lorde emprega." - Zombou. "Mas acredita na luz, onde você sabe muito bem que nunca será o seu lugar. Eles vão te m***r no final e você verá quem estava certo esse tempo todo." "Acho que você confundiu a luz com as trevas" - Falou raivosa e sua briga foi interrompida. "Me chamo Draco Malfoy." - Disse um garoto loiro com nariz empinado. "Prazer, Draco, me chamo Gemma e essa ao meu lado é Tessa Lestrange." "Prazer." - Apenas disse e começou a olhar a seleção. _ "Acha que Harry Potter vai ser da nossa casa?" "Duvido." - Disse Tessa bebendo um pouco de suco. _ "Ele será um Grifinório." "E se ele não for?" - Outra menina perguntou. "Pode ser um Lufano, até mesmo um Corvino. Mas Sonserino ele não vai ser." - Concluiu a sua fala. "Você é pessimista." - Draco fez uma careta. "Sou realista." - Observou o chapéu se contorcer na cabeça do menino. "Grifinória!"- Todos da mesa das serpentes a olharam e ela apenas sorriu para eles. "Essa menina dá azar." - Falou outro aluno. "Só falta mais dois anos e ela vai embora." - Gemma disse os explicando. "Ainda bem, afinal, ela é a rainha, a rainha do azar." - Alguém falou. "E o que significa?" - Perguntou uma novata. "Significa que toda vez que você ficar feliz, ela puxará seu tapete e você, meu caro amigo loiro, acabará sofrendo pelo azar de Tessa." - Outra menina sorriu e Tessa a olhou. _"Não me olhe assim, acabei de apostar com os gêmeos, você vai me dar azar." _ Ela sofreu muito bullying, mas sempre continuava sorrindo. - Disse a Merfina, com uma face descontente. _ Mas ela tem amigos? _ Ela terá. - Estava triste. Tudo mudou novamente e um gabinete apareceu em minha mente, deve ser do diretor... Aquele velhinho simpático apareceu chupando uma bala, mas não devo apenas confiar em sua aparência. "Vejo que a senhorita está muito bem" - Sorriu. "Tudo graças ao senhor." _ O que ele fez? - Pergunto. _ Ele está a protegendo... "Não fale assim, você também tem seu mérito." - Continuou sorrindo. _ Que méritos que ela tem? _ De ficar quieta. - Revirou os olhos. "O que o senhor queria comigo?" "Ah, sim, gostaria que você vigiasse Harry Potter." Uma pontada surgiu na minha cabeça e outras memórias apareceram, me fazendo gritar de dor. Não sabia que poderia sentir dor ou até mesmo gritat tão alto, mas sabia que poderia me abraçar para me acalentar dessa dor agonizante. _ Então a palavra proibida é Harry Potter. - Minha cabeça doeu ainda mais e meu peito estava apertado, parecia que algo estava o pressionando. _ O que está... Ah... Faça parar! Lágrimas desciam pelo meu rosto e caiam no chão, sujando de vermelho escarlate. Não eram lágrimas e sim, sangue. Os batimentos do meu coração estavam parados e minha pele queimava como se fogo estivesse sendo colocada nela. _ Suas memórias estão voltando, vai doer mais um pouco. - Suspirou. _ Não consigo fazer a dor parar, me perdoe. - Disse triste. Continuo sentindo a dor, mas não era apenas na minha cabeça e sim, no meu corpo todo e aquilo ardia, queimava, me fazia querer vomitar. A dor era dilacerante. Ela diminuía, mas depois voltava com força total, era esgotante. Mas as memórias que apareciam em minha cabeça era de como auxiliei o trio de ouro a recuperar a pedra filosofal. Como ajudei Harry a destruir o caderno de Tom Riddle. Ou como ajudava a Ordem como podia no ministério. Quando Voldemort voltou e meu pai foi tirado de Azkaban, pedi ao Dumbledore que os escondesse e ele fez... Fez para matá-los no final. Também tinha memórias extras que não eram minhas e sim, de Dumbledore. Respiro fundo e a dor parou, mas meus olhos estavam melados. Não sabia que poderia chorar sangue, ainda não sei de nada nessa morte. Limpei meus olhos com o lenço que ela estava me entregando e a vejo preocupada. _ O que você lembrou? _ De tudo, mas agora sei que foi Dumbledore quem mandou aqueles Sonserinos me baterem, porque ele escutou que... - Tentei manter a calma. _ Escutou que uma Sonserina estava escolhendo a luz ao invés das Trevas. _ E o que você quer fazer? _ Matá-los, quero que todos morram e queimem no inferno. _ E se eu te disser que tem como? O que você faria? _ Aceitaria qualquer coisa, o que tenho que fazer? _ Ressuscitar Voldemort. Engulo em seco e minha respiração ficou estranha. Fecho meus olhos e passo minha mão no meu rosto, tentando me recompor. Ressuscitar Voldemort... Não era uma tarefa fácil, deveria me organizar, organizar minhas ideias, minha ideologia e meu espírito. Posso ter sido traída pela Luz, posso ter ódio deles, mas não conseguia ver um mundo onde Voldemort poderia reinar. Não queria ser igual ao meu pai, que perdeu anos de sua vida preso naquele lugar. _Se quiser pensar melhor, posso voltar depois. - Apertou meu ombro. _ Essa não é uma decisão fácil para alguém de sua índole. _ Se fosse meu pai aqui... _ Você não é seu pai ou mãe, siga o que você está sentindo, siga aquilo que você acha certo. Se não quiser vingança, você será muito bem-vinda aqui no mundo espiritual. - Levantou-se e saiu pela porta. Olho para o chalé confortável e sinto uma vontade imensa de chorar. O que fiz da minha vida? O que quero agora? Vingança? Para quê? Por quê? Qual a utilidade de fazer vingança? Não tem sentido nenhum. Só porque eles me traíram? Já estou morta e não deveria pensar mais no mundo humano. Fecho meus olhos e me encosto no encosto da poltrona. O dia vai ser difícil...
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