Capítulo 16

1053 Palavras
A minha terça e quarta foram maravilhosas. Conversei tanto com Lila que quase me perdi no tempo. Se eu chego em casa depois dos meus irmãos, posso frustrar todos os meus planos. Eu avisei também que previmos uma chuva se aproximando, a melhor notícia que recebo em meses. *** É quinta feira de manhã, espero os meus irmão saírem, me apresso para tomar o meu café e abro a porta para sair. O meu coração quase sai pela boca quando vejo o Estêvão subir às escadas. — Estêvão? — indago cinicamente. — Por que voltou? — Eu vim te chamar. E você? Estava saindo? — Dá para ouvir os passos, eu ouvi e abri a porta, imaginei que algum de vocês estava vindo. Veio me chamar pra quê? Estêvão fica sério. — Venha agora, você precisa estar lá. — Ai, meu Deus — eu saio às pressas. — Diz logo o que é? — Lá você vai saber. Estêvão me leva para uma área qual eu nunca fui, era uma quadra, percebi pelos desenhos no chão, mas construíram uma espécie de prisão. Fico com medo, mas me sinto seguro ao lado de Estêvão, e mais ainda quando vejo a mina família reunida. Meu chão cai quando identifico o Doutor Ferdinando e o Prefeito Lemos naquele lugar também. Parece que fui desmascarado até uma voz rouca dizer: — O Calebe está aí? Somente uma pessoa não me chamava de Prego, e eu não falava com ele por causa disso. O pessoal abre espaço e eu vejo o Jordan sentado num colchão em cima de uma cama de concreto improvisada. Eu tento me abalar com o que vejo, mas já devem imaginar o que ocorre. Os olhos de Jordan estão amarelados, e algumas veias ao redor das pálpebras também, é o primero sinal da infecção. Já sabíamos que ele havia sido infectado, o que ele quer agora? Se despedir? — Estou aqui, Jordan — digo friamente. — Estou te vendo, Calebe, e bem demais. Isso é muito bom. — A voz dele soa lenta e doente, parece doer quando ele fala. — Sempre achei o seu nome tão bonito... — Faça-me o favor — Lucas apressa o homem —, desembucha logo antes que você perca a voz. Jordan olha para baixo como se estivesse procurando o que dizer. — Naquele dia que o pai de vocês morreu, eu disse que foi por minha causa, mas ele não se sacrificou para me salvar. Não tinha mais comida no supermercado, a gente procurou em tudo quanto era canto, mas não encontramos nada. Só que havia uma ala fechada e eu insisti em abri-la, mas Augusto disse que podia ser perigo, mesmo assim, eu encontro uma motoserra e serrei a tranca, não tive medo pelo barulho, faríamos tudo rápido, pensei que daria tempo. Enquanto Augusto vigiava a entrada para se certificar de que não aparecia nenhum amarele, eu tentava abrir a porta emperrada da ala com a mão, foi aí que um amarele mordeu o meu dedo, eu gritei e sangrei, chamei por ajuda e Augusto veio correndo me socorrer, ele me ajudou a segurar a porta, iríamos combinar de corrermos ao mesmo tempo, mas eu estava com medo, o meu dedo ardia e eu não queria virar uma daquelas criaturas, então eu saí da porta para ligar a motosserra para cortar o meu dedo infectado enquanto Augusto segurava a porta sozinho. Eu não tive coragem de cortar o dedo todo e cortei só um pedaço, quando dei atenção para o Augusto, já haviam vários amareles em cima dele. Eu corri, o deixei para trás, peguei a motosserra e corri para a entrada para salvar a minha vida, mas a entrada se encheu de amareles eu liguei a motosserra para me safar, cortei todos que se aproximaram e abri caminho para sair dali, e assim fiquei coberto de sangue amarelo. Corri de volta para casa o mais rápido possível, e por causa da minha falta de senso causei todo o nosso desastre. Ficamos em silêncio, a v*****e que tenho é de m***r ele com as minhas próprias mãos, queria interromper ele a cada idiotice que ele fez, mas agora não importa mais. O nosso pai já está morto, ele já está morto, uma dia vamos todos morrer, e temos quase certeza de que não é de velhice, pelo menos, vamos lutar até o fim, e nada vai nos abalar. Por fim, Adam dá um profundo e demorado suspiro, há algumas noites pudemos chorar pelo nosso pai, pudemos desfrutar do luto, pudemos passar um momento de silêncio em memória dele. Era um homem de valor. Um homem honrado, ao contrário deste aí, sempre foi um peso morto, infelizmente precisa estar morrendo para perceber. — Então, galera — diz Adam —, tem alguma coisa que queira dizer. Ninguém se manifesta no momento, na verdade, o pessoal n**a, e eu também. Não tenho nada a declarar. — Eu tenho — diz Lucas. — Quero que você vá pro inferno, seu filho de um puto, escroto do carai. — Vocês podem me perdoar? — esta pergunta do Jordan parte o nosso coração, assim como o nosso pai, temos compaixão pelos outros. — Sim — Adam diz por todos. Entramos em um consenso através dos olhares. — Eu não — Lucas vira-se de costa e esfrega os pés no chão como um cachorro que acaba de fazer suas necessidades. — Agora, sei que não vou morrer sem saber que vocês me perdoaram — continua Jordan. — Podem me deixar ir embora? Estou com tanta fome... O Prefeito Lemos não deixa ele terminar a frase e lhe acerta um tiro bem no olho direito o que pega a gente de surpresa e faz a gente pular de susto. — d***a — resmunga o prefeito —, esqueci o silenciador. Lucas se vira de boca aberta e diz: — d***a digo eu, perdi essa cena. De repente, os trovões ecoam no céu. — Olha — comenta o prefeito —, e o céu responde. Isso é um bom sinal, pelo menos o som da bala não vai atrair amareles para cá. O Prefeito Lemos se retira do local e o Doutor Ferdinando vai atrás, nós ficamos lá, observando o cadáver do Jordan, a última pessoa que teve contado com o nosso pai.
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