Capítulo 15

1126 Palavras
Mais uma semana se passa, estamos na segunda semana do mês e não deixei de ir ver a Lila. É sexta-feira e eu não aguento mais os assédios, o Doutor Ferdinando está tentando se aproximar de mim, foi ao meu AP checar se houve alguma alteração de sentido da nossa parte, óbvio que foi um pretexto para me ver. Eu não posso contar para os meninos que ele não vale nada, senão vão fazer várias perguntas, ligar uma coisa na outra e no final eu vou estar encrencado. Felizmente, os meninos não se batem bem com ele, deve ser que já ouviu os boatos. Eu tive v*****e de sair correndo para ir contar à minha nova amiga, mas não podia por causa do horário. — Prego, eu quero você bem longe dele — diz Adam assim que ele vai embora. — Eu percebi o jeito que ele ficou olhando para o Prego — fala Lucas olhando para mim. — Aposto que ele tá afim de você. — Ah! Eu mato ele se ele tocar um dedo em você — Estêvão fica de pé. — Ele não vai nem saber o que o atingiu. — Nós matamos — diz Adam também a se pôr de pé —, mas quero que ele me veja antes de morrer pra saber que com minha família ninguém mexe. — Sentem-se! Vocês estão muito exaltados — pede Túlio para tentar tranquilizá-los. No entanto, Lucas se levanta pra acabar com clima sério que eles deixam no ar. — Ê! — comemora Lucas com as mãos pra cima. — Desgraça! Adoro violência — ele pula no colo de Estêvão e o beija. Todo rimos na hora, o momento é tão especial, tão maravilhoso que por um momento esqueço onde estou. Eu não poderei pedir a Deus uma família melhor. Aí lembro do meu pai, e começo a chorar, lembro da minha mãe, lembro dos tios, dos primos, dos avós, e penso na Lila. Ela tem suprido as necessidades que eu precisava ter. Tem sido meu alicerce por uma semana inteira. Definitivamente eu não vou embora sem ela. O pessoal me dá tanta atenção que eu não sei se mereço, depois de tanto me perguntarem o que houve, eu digo o que sinto, digo que estou sentindo um vazio, e que sinto muita falta do nosso pai. Por causa disto, todos acabam cedendo ao choro. *** Está de madrugada, depois do chororô, fomos comer alguma coisa, e por fim, arrastamos os móveis da sala para outro canto e colocamos os colchões no chão, fizemos uma cama grande e agora todos dormem, menos eu. Estou no meio da cama entre Túlio e Estêvão, Adam está na ponta à minha direita e Lucas está na ponta à minha esquerda. Os meus olhos estão bem abertos no escuro, apenas há um lampião aceso, mas está um pouco longe e fraco demais para nos incomodar durante o sono. Adam está com a cabeça virada para o outro lado e se levanta, me olha, depois deita de novo. — Está sem sono? — sussurra para mim. — Sim, mas daqui a pouco chega — respondo de igual modo. — Desculpa por estragar a noite. — Ficou maluco? — Adam estica a mão para segurar a minha. — Essa foi a melhor noite que já tive aqui, graça a você. Eu sorrio. Adam sabe como me deixar pra cima. Eu quero tanto contar para ele sobre Lila, pelo menos para ele. Mas ainda não é o momento. Espero que tudo dê certo no fim. Seguro a mão de Adam com mais força e depois pego no sono. *** Tenho um sonho. Estou parado no meio da pista, está escuro, mas consigo perceber que centenas de amareles estão a correr em minha direção. Eu fico para enfrentar, não sei por que, só sei que não quero fugir. A chuva cai sem pena dos que estão embaixo, e a água deixa os meus cabelos escorridos no rosto, os meus cílios molhados realçam a beleza do meu olhar. Por ímpeto, olho para trás, os meus olhos negros se arregalam e uma luz muito forte não deixa eu ver quem vem ao meu encontro. É uma silhueta, e ela me encanta. *** Espero ansioso sábado e domingo passarem para eu poder estar sozinho para conversar com Lila. É segunda-feira e já estou na minha terceira semana da quarentena. Quando esta semana acabar, a ideia é de estar bem longe daqui. — Já é a segunda vez que tenho um sonho assim — explico para ela. — Nossa! E o que você acha que é? — questiona Lila — Eu não sei. Talvez alguma coisa no meu subconsciente está tentando me dizer e eu não estou conseguindo decifrar. — Ou você pode estar tendo um presságio. — O que é isso? — É como se você estivesse tendo uma visão do futuro. — Eu vou ser morto por amareles? — Ou vai ser salvo pela silhueta. Você tem uma ideia muito unilateral das coisas. — Quê? Olha, me dizem o tempo todo que sou inteligente mas você me supera. Gente, eu não consigo mais me ver em um mundo sem esta menina, se eu não conseguir tirá-la daí, vou suportar ficar mais uma semana somente para não perdê-la, e bolar o plano mais mirabolante que puder para que tudo ocorra da maneira mais perfeita. Eu sou um leitor assíduo, alguma ideia vai surgir. — Lila, tem um tempo que quero te perguntar uma coisa e esqueço. — Diz aí. — Olha, não me leva a m*l, mas todas os dias quando dá meia-noite, o pessoal que mora comigo está cansado e vai dormir, eu vou para a porta para ouvir o Prefeitos Lemos subir às escadas. — Por quê? — Escute. Por que ele não aparece dia de quinta? — Bom, deixa eu explicar que nem sempre ele vem pra t*****r. Ele só faz isso terça, sábado e domingo, nos outros dias ele está muito cansado, e só vem para dormir, depois desce bem tarde ou bem cedo. — A parte do tarde eu já percebi. — Mas dia de quinta ele nunca vem. Nunca. Quinta é o dia que pra ele é cansativo demais, ele separa as tarefas dele por dia, e para mostrar que é do povo, ele mete a mão na massa, aí cansa e dorme por lá por baixo, ou seja, bate preguiça de subir todos esses lances de escadas todos os dias. Não sei por que ele não emagrece. — É uma boa notícia. — É maravilhosa. Ficar um dia sem ver a cara daquele psicopata é o mesmo que a liberdade para mim. Eu sorrio e olho para ela de soslaio, ela nem sabe que a liberdade a aguarda.
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