Capítulo 14

1013 Palavras
É hora de ser rápido no gatilho. O r**m de gerar uma mentira é que ela é como o pavio de uma bomba, se acender, o resultado final é desastroso. Eu fiquei muito bom em mentir assim que comecei a ler, fiquei bom em inventar histórias e a falar com muita naturalidade, como se fosse uma verdade absoluta. Não é uma coisa qual eu deva me orgulhar, mas neste novo mundo, tudo é necessário para sobreviver. O fim justifica o meio. — Na verdade, a mentira não foi especialmente para o prefeito. Eu não aguentava mais ficar trancado em casa, pois, os meus irmão são super protetores e disse que aqui fora não é um bom ambiente para mim, mas agora vi que eles têm razão. Mas eles pensam que sou muito frágil e muito indefeso, apesar de eu ser um pouco, mas não é para tanto. Enfim, eu saí ontem e eles souberam, então eu disse que tinha vindo para cá, aí vim hoje de novo, então um cara me assediou, aí o prefeito apareceu e me livrou dele, perguntou para onde eu estava indo e prolonguei a mentira um pouco mais para não entrar em contradição mais tarde, mas na verdade, só queria ver o movimento dos trabalhadores mais de perto e quem sabe tivesse alguma coisa que eu pudesse fazer, eu não sou preguiçoso, não gosto de ficar parado. Daí, o prefeito me acompanhou até aqui e conversa vai, conversa vem, eu falei que tinha vindo aqui ontem, você sabe, pra não ser pego em contradição mais tarde, porém, não cogitei a ideia de ele perguntar e o resto você já sabe também, porque você participou. Me desculpe te meter nisso. Agora eu só quero ficar em casa no tédio mesmo, não estou preparada para enfrentar esses assédios todos. Eu sou muito jovem e virgem. O Doutor Ferdinando começa a rir de mim, ele sabe que eu fui sincero, mesmo dizendo que contei várias mentiras. — Olha, não precisa se desculpar — ele me tranquiliza, mas não para de rir ainda. — Ai, obrigado! O Doutor limpa as lágrimas e depois pega uma fita amarela e manda eu me aproximar, eu vou e ele a amarra no meu pulso. — Não precisa se preocupar, o seu segredo está guardado comigo — agora, o Doutor fala de uma maneira sexy. — Com esta fita, os assediadores vão se manter distantes, isto indica que você é um possível contaminado. Aqui todos sabem que um contaminado confirmado é condenado à morte. Vão ficar com medo de serem contaminados — ele fala esta última frase acariciando a minha mão. Acabo de ficar confuso, depois puxo a minha mão lentamente para não parecer grosso e ingrato. — Ah... Obrigado mesmo, Doutor, nem sei como agradecer. — Não me agradeça ainda. Quando a sua quarentena passar, se você não estiver infectado, apareça aqui ao meio-dia em qualquer dia de feira — o Doutor Ferdinando pega a minha mão de volta e acaricia de um jeito sensual e pisca um olho para mim. Eu nem posso acreditar. Meu Deus, este lugar está perdido. Quando eu pensei que encontrei alguém do bem, ele se revela um cafajeste perigoso. Eu arregalo os olhos e vou embora sem dizer uma palavra. Não posso acreditar mesmo, o pediatra bonitão, porém, velho demais, acaba de me assediar? Não é possível. Neste fim de mundo não dá para confiar em mais ninguém. No caminho, um homem parrudo passa por mim levando um carro-de-mão e me come com os olhos, eu mostro a pulseira com desdém e ele se adianta pra ir embora, agora sou um possível infectado. Vou diretamente para o apartamento de Lila. A única que me entende. A gente precisa conversar. *** Lila de acaba de rir dos meus relatos. — Ainda bem que você conseguiu enganar o Doutor Ferdinando, ele é o mais esperto, contudo, o pior de todos — diz Lila. — Ele já colocou alguns pra fazerem o**l nele em troca de remédios. — Por que você não me passou a ficha desses safados? — É muita gente pra lembrar, e não imaginei que você fosse sair. Saiu pra quê? Você pode ficar em casa tranquilamente. Agora você se embaraçou mais ainda, torça para o Doutor Ferdinando se esquecer de você. — Eu sou muito inconsequente. Quando vou aprender? — Aprende sim, uma hora ou outra — Lila suspira. — Vou ficar com saudades quando você for. — Não fale assim, creio que no futuro, vamos nos ver muito — decido não contar os meus planos ainda, ela pode criar expectativas, ficar ansiosa e se comportar de um jeito diferente com o prefeito. O dia será uma surpresa, mas estou determinado a tirá-la de lá. — Tomara, mas, e aí, gostou de Between? — O livro? Eu amei, sou completamente apaixonado pela Hana. — Eu também, ela com certeza me representa. Já tá em qual parte do livro? — Quase na metade. — Eita, você nem come e nem dorme, só pode, o livro é grande. Lila e eu damos muitas risadas, ela me faz muito bem, uma luz naquele lugar tomado pela maldade do homem lascivo. Eu volto para o meu apartamento depois de algum tempo, depois vejo os meus irmãos e percebo em seus olhos que esta rotina está acabando com eles. O que é que fazem aqui que gera tanto trabalho? Eu pergunto para os meus irmãos e eles me dizem que fazem combustível para o Governo. Ainda não está no momento, mas eles sempre aparecem com alguns drones para levarem o produto. Os drones são menos barulhentos e sempre aparecem pela noite para evitar a curiosidade de possíveis amareles, mas se for necessário, eles usam os seus carros de guerra que estão guardados em um estacionamento pouco longe dali. Eu decido não perguntar mais nada, deixá-los em paz, a alegria deles estão indo embora a cada manhã. A próxima coisa que irá embora deste lugar seremos nós. E rápido. Só não poderemos deixar para trás a doce Lila, ela não merece viver naqueles condições.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR