Mesmo desestabilizados, os meninos voltam ao trabalho, e eu corro diretamente para Lila, estou decidido, vamos embora hoje. Não consigo mais permanecer um dia sequer.
Chego até a porta do apartamento dela e bato.
— Amigo — diz ela ao abrir —, eu ouvi um tiro ou foi uma trovoada?
Eu conto tudo para ela, e começo a chorar. Que raio! Por tudo eu tô chorando.
Não posso controlar a minha emoção. Ela condoe-se por mim e diz que se estivesse do lado de fora que já teria me dado um abraço bem apertado, mas a gente se contenta em segurar as mãos bem forte.
— Amiga, eu tenho uma coisa pra te contar — digo, já mais calmo.
— Eu também tenho uma coisa para te contar — ela diz com os olhos bem abertos.
— Conta primeiro, por que a minha é um segredo bem ousado, não sei se você vai estar preparada.
— Mas a minha também.
— Sério? Fiquei curioso. Então eu vou contar. Lá vai: eu vou convencer aos meus irmãos de irmos embora daqui hoje, vamos aproveitar a chuva e dar no pé, e eu vou te levar comigo, se não conseguirmos a chave, vamos quebrar estes cadeados. Você não vai ficar aqui nem mais um segundo.
Eu posso imaginar o que Lila sente nesta hora. Eu nunca tinha a visto chorar antes e confesso que é o choro mais silencioso e mais bonito que eu já vi.
— Amigo... — ela engole o choro antes de falar. — Eu nem sei descrever o que estou sentindo... Parece que criamos uma conexão muito forte. Só sei que a minha felicidade por ter você na minha vida é enorme.
— Me diz aí o que você vai me contar — estou morrendo de curiosidade, mas eu já sei que ela vai dizer que planejou a própria fulga. Contudo, eu sou pego de surpresa, o capanga chamado Cristiano sai de dentro do quarto ao lado. Eu fico tão nervoso que começo a tremer. — Lila, acho que vou morrer agora — digo entre os dentes e Lila sorri.
Cristiano se aproxima e eu me afasto, depois ele tira uma chave do bolso e começa a abrir os cadeados.
— O quê? — indago.
Lila sai daquele quarto ao meu encontro e me dá um abraço super apertado.
— É ele o meu segredo ousado, bobo — Lila me solta, sorridente e o abraça, depois o beija a boca e eu fico mais surpreso ainda. Ela se volta para mim para continuar o que falava, e de mãos dadas com o Cristiano: — Há um ano planejamos a minha fulga, e nesse tempo, nos apaixonamos, estávamos frustrados com a ideia pelo fato de o prefeito ter se tornado mais presente, aí veio você quebrando protocolos e nos trouxe a esperança de volta, principalmente quando me disse que iria embora depois da quarentena, eu sei que vocês não são infectados, da pra perceber. Então, venham fugir conosco. Temos um plano e não vamos falhar.
***
"Pelo menos, aquele homem asqueroso liberou a gente do serviço hoje", ouço a voz de Lucas atrás da porta.
"Bota asqueroso nisso, ninguém vê que ele não vale o peido que solta?", diz a voz de Estêvão.
— Então... — Lucas é o primeiro a entrar no apartamento e se espanta com a figura feminina ali. — Santo Deus, uma mulher — ele põe as mãos na boca para abafar o grito.
Estêvão e Túlio ficam espantados e fecham a porta, imediatamente.
— Ué? — questiono. — Cadê o Adam, gente?
— Foi conversar com o prefeito — responde Túlio totalmente hipnotizado.
Estêvão olha para mim com os olhos tristes.
— Por favor, Prego, me diz que esta garota não é a esposa do prefeito.
— É exatamente ela — respondo.
Estêvão põe as mãos no rosto e se joga no sofá extremamente preocupado.
— Nós vamos morrer.
— Nós não vamos morrer — diz Cristiano ao chegar da cozinha, Estêvão se levanta na mesma hora.
— Cristiano? Ué... Você está mancomunado com isto?
— Eu que planejei a fulga dela. Não podia viver sabendo o que aquele demônio fez com ela todos estes anos.
— O que ele fez?
— Steve — diz Lucas, este é um apelido carinhoso que ele deu para o meu irmão —, olha para ela, não é maravilhosa? — Lucas a admira completamente. As mãos, os lábios, os olhos, os cabelos, etc. — Ai! Como eu queria ser uma garota.
— Depois te contamos — assegura Cristiano —, agora, vou explicar os planos, mas primeiro, fique sabendo o que o prefeito não vai deixar vocês irem embora.
***
Adam entra furioso no apartamento e encontra todos nós sentados no sofá da sala e calados.
— Que ódio daquele homem — vocifera Adam. Ele anda de um lado para o outro totalmente cego pelo nervosismo. — Arrumem as suas coisas. Arrumem as suas coisas. Nós vamos embora, agora. Não sei como vamos fazer isso, mas temos que ir. Vocês acreditam? Eu disse que queria ir embora e ele falou que n******e deixar a gente sair, tentou me convencer de que aqui é melhor e eu tive que concordar com tudo. Tive que mostrar empatia só para ele não desconfiar. Nós não vamos viver assim — Adam se acalma após perceber que todos olhamos para ele, quietos, até ele perceber que estamos de "malas prontas". Ele sorri, ainda ofegante. — Gente? — o sorriso dele vai embora quando ele vê o Cristiano sair do seu quarto.
— Esse menino toda hora chega de surpresa — comenta Lucas e eu seguro uma risada.
— Gente, o que tá acontecendo? — agora, Adam está completamente confuso.
— Vou ajudar vocês a fugirem daqui — explica Cristiano.
— Por que faria isso?
É como se fosse ensaiado, Lila sai do quarto também a dizer:
— Porque o Prego tentou me ajudar a fugir também.
Adam olha para mim sério, ele pode brigar comigo por eu ter mantido este segredo, mas simplesmente sorri, ainda relutante pela situação de muita tensão.
— Você é nosso herói.
Lucas finge gritar uma comemoração.