WINDBER, WESTERN USA • 01 DE SETEMBRO DE 2008
Ann-Marie estava ansiosa para o seu primeiro dia de aula na faculdade. Olhou seu horário enquanto andava pelo campus da universidade. A primeira aula seria Literatura Britânica. Entrou na sala e a professora já estava lá.
— Vamos começar, pessoal. — A professora que aparentava ter seus trinta e cinco anos começou a falar. — A obra prima de William Shakespeare. Quem aqui já leu o livro Romeu e Julieta? — Vários alunos, inclusive Ann-Marie, levantaram o braço. — E o que acharam quando leram da primeira vez? — Questionou e apenas algumas pessoas se manifestaram para falar. — Vamos deixar o recém chegado, o senhor…
— Bloodyeye. Christoffer Bloodyeye. — Ann-Marie olhou para trás e seu olhar se cruzou com o de Chris.
— O senhor Bloodyeye, o que achou do livro?
— Um dos romances mais atemporais que já li. Um relato de dois corações apaixonados que só desejavam se amar eternamente. — Chris falou, se ajeitando em sua cadeira. Observou Ann-Marie levantar seu braço.
— Com licença, sou Ann-Marie Eymer. — Chris sentiu seu corpo inteiro se arrepiar ao escutar o sobrenome da sua amada Marie-Jeanne. — Na verdade, Julieta tinha treze anos e Romeu dezessete. Ambos morreram por pura burrice.
— Discordo. A história mostra que a vida não se resume apenas em felizes para sempre. O amor combate tudo quando é verdadeiro, mesmo que tenha que se revoltar contra a família para poder viver com quem ama. — Chris interrompeu ela.
— Eles eram muito imaturos e por vezes acreditei que se amaram loucamente, mas não consigo deixar de lado o fato de terem se apaixonado à primeira vista, sem nem conversar direito e no dia seguinte já fazem juras de amor, sendo que um dia antes de conhecer Julieta, Romeu morria de amores por outra.
— Mas o amor à primeira vista funciona dessa maneira. — Chris mais uma vez a interrompeu, fazendo Ann-Marie encará-lo com tédio. — As obras de Shakespeare são bem mais do que o nosso superficial enxerga.
— Bom, aí está! Esse é o poder de um bom livro. — A professora tratou de interromper os dois.
A aula passou rapidamente. Logo que acabou, Ann-Marie guardou suas coisas e se levantou, saindo dali. Caminhando em direção a um café que havia dentro do campus, ela sentiu alguém caminhando ao seu lado.
— Gostei da sua opinião, apesar de não concordar com ela. — A voz de Chris ecoou por seus ouvidos, causando um leve arrepio. — Achei ela intrigante.
— Seja o que for que você está tentando fazer, eu não estou interessada. — Ela rolou os olhos, seguindo seu caminho. — Você com todo esse seu papinho… Saiba que não caio fácil.
— Papinho? — Ele riu da maneira que ela falou. — Pensei que estávamos debatendo Romeu e Julieta… — Ela o encarou, levemente sem graça por ter entendido errado e Chris riu com deboche da cara dela.
— Me desculpe, eu… — Ann procurava palavras para se justificar.
— Bom, vamos começar de novo. — Chris sorriu para ela. — Ann-Marie, certo? Lembra de mim? Christoffer Bloodyeye. Aparentemente fazemos Literatura Britânica juntos. — Estendeu a mão para ela, fazendo-a sorrir.
— Ann-Marie Eymer. — Ela apertou a mão dele e ambos sentiram um arrepio percorrer todo o corpo deles, fazendo Chris soltar a mão dela rapidamente.
— Desculpe-me, eu…
— Não, eu preciso mesmo ir. — Ann o interrompeu. — Nos vemos por aí então, Christoffer.
— Pode me chamar apenas de Chris, se quiser… — Sorriu para ela.
— Certo, Chris. Foi um prazer revê-lo.
— Igualmente, Ann. — Ela saiu andando na frente, mas logo parou e se virou para ele.
— Espera, você faz qual curso? — Ann não conseguia negar a curiosidade sobre o belo rapaz que a fazia sentir completamente hipnotizada.
— Letras. E você? — Chris admitia que depois de descobrir o sobrenome da morena, estava mais ainda intrigado em conhecê-la melhor.
— Literatura Inglesa. Parece que teremos algumas aulas juntos, pelo visto. — Falou encarando aqueles belos olhos castanhos.
— Espero que sim. — Chris acabou falando sem pensar, fazendo Ann desviar o olhar. — Bom, nos vemos por aí…
Christoffer saiu dali, pegando seu telefone e ligando para o seu irmão. Depois de ligar três vezes, finalmente Alec atendeu.
— Chris, eu estou um pouco ocupado no trabalho. Primeiro dia, lembra? Aconteceu alguma coisa? — Alec questionou, um pouco preocupado com o irmão, já que não era de falar muito por telefone.
— Eu esqueci completamente disso. — Chris murmurou. — Desculpe-me, mas você precisa saber o que descobri.
— O que, irmão? — Alec perguntou curioso.
— Ann-Marie tem o mesmo sobrenome de Marie-Jeanne. — Chris comentou enquanto pensava mil coisas.
— Isso acaba com nossas dúvidas então. Com certeza doppelgänger. — Alec falou.
— O quê? Não! Doppelgänger são gêmeos do m*l. — Chris interrompeu o irmão.
— Jura, irmão? Gêmeo do m*l? — Alec rolou os olhos.
— Você entendeu, Alec! — Chris bufou.
— Eu realmente preciso voltar, irmão! Bom, antes de finalizar… Se conseguir, vou levar alimento para você hoje. — Alec falou um pouco baixo. — Já faz um tempo que não se alimenta.
— Sim, irmão. Mas, você tem mais tempo do que eu. — Ele falou preocupado com o irmão.
— Não se preocupe comigo. Consigo manter-me mais tempo que você. Agora preciso ir. Até a noite, irmão. — Sem esperar a resposta, Alec finalizou a ligação.
╬╬═════════════╬╬
— Ei! — Olivia chamou a atenção de Ann-Marie assim que abriu a porta do quarto. — Estou vendo que você vai me esperar toda noite. Estou certa? — A ruiva sorriu para Ann.
— Depois de ontem, definitivamente sim! — Ela exclamou, preocupada com a garota.
— Nem me lembre. — Olivia respirou fundo.
— Ainda bem que seus amigos estavam por perto. — Ann comentou, olhando para a ruiva.
— Está bem, pode me contar. Você ficou interessada em quem? Porque não é a primeira vez que você comenta algo sobre eles e me encara, esperando uma resposta.
— O quê? — Ann-Marie a olhou surpresa. — Eu não estou interessada em ninguém. Aliás, sabe quem faz aula de Literatura Britânica comigo?
— Não me diga que um deles? — Olivia olhou para ela com certa preocupação. Ela sabia da reputação que os vampiros tinham.
— Christoffer. Acredita? Que interessante...
— Chris? Achei que ele estudava outra coisa... — Comentou vagamente.
— Você já conhecia ele antes? — Perguntou, curiosa.
— Olha só se o interesse não é o Chris. — Olivia riu da cara de surpresa que Ann fez. — Não se preocupe, eu achei ele super gato. Mas, nada demais. Conheci ele no bar, como já havia dito. Se você quiser, eu tenho o número dele.
— O quê? Não! De onde tirou essa ideia? — Ann falou tudo rápido, desviando o olhar.
— Tirei essa ideia da sua cara mesmo. Não sabia que curtia o tipo badboy. — Ela sorriu marota.
— Eu não curto nada. Para falar a verdade, achei ele bem irritante. Até um pouco arrogante. — Ann-Marie comentou, tentando cortar o assunto.
— Jura? Eu achei ele um amor. Super fofo e atencioso. Já o irmão dele, um belo de um convencido.
— E você descobriu isso como? m*l falamos com eles ontem… — Encarou a ruiva de maneira intrigada.
— Ele apareceu no meu serviço hoje. Mas não importa muito. Vou tomar um banho e me jogar na cama. Estou super cansada hoje. — Ela cortou o assunto.
╬╬═════════════╬╬
Alec chegou em casa e encontrou Chris deitado na cama. O rapaz estava frustrado por não ter conseguido trazer o sangue que havia prometido. Estava preocupado com o irmão, fazia semanas que não se alimentava.
— Irmão, está acordado ainda? — Ele chamou a atenção de Chris.
— Estou sim, apenas indisposto.
— Os vestígios da falta de sangue estão começando a aparecer. Eu não consegui trazer hoje. Mas, prometo que amanhã trago, irmão. — Sua voz soava preocupada.
— Não se preocupe, Alec. Já passamos por coisas piores e sobrevivemos.
— Vou fazer um jantar reforçado, pelo menos te sustenta até amanhã à noite. — Alec falou enquanto tirava seus sapatos e pegava coisas para tomar um rápido banho.
— Não se preocupe comigo. Estou bem, sério! — Chris tentava tranquilizar o irmão.
— Sei o que estou fazendo, irmão. — Alec rolou os olhos.
Já de banho tomado, Alec preparava uma sopa bastante caprichada para Chris. Esperava garantir um pouco até o outro dia. A falta de sangue causava uma anemia profunda nos vampiros. Quanto mais tempo sem sangue, mais tempo levaria para recuperar.
Depois de alimentar o irmão, Alec ajeitou rapidamente a cozinha e finalmente se deitou, fechando os olhos e adormecendo depois de um longo dia de trabalho.
No outro dia, Alexander se levantou e logo foi ver como seu irmão estava.
— d***a, Chris! Poderia aguentar um pouco mais! — Murmurou ao ver que o irmão estava febril.
— Alec? O que aconteceu? — Chris perguntou, um pouco confuso.
— Você está febril, irmão! Preciso arrumar sangue o quanto antes. — Alec saiu dali, rapidamente trocou de roupa e pegou a chave, indo até o hospital.
Rapidamente foi até o banco de sangue e pegou duas bolsas de sangue. Entrou e saiu tão rápido que ninguém sequer notou sua presença ali. Voltou para casa e assim que fechou a porta, a campainha tocou. Alec olhou para a porta confuso, ao perceber que Olivia estava do outro lado dela. Assim que abriu a porta, a ruiva o encarou, mas rapidamente desviou o olhar.
— O Chris está aqui? — Ela perguntou, evitando olhar para Alec.
— Sim? — Sua resposta soou mais como uma pergunta.
— Cadê ele? — A garota questionou.
— E bom dia para você, senhorita. — Ele falou, sorrindo de lado para ela.
— Como você pode ser assim tão arrogante?
— Como você pode ser tão tola a ponto de chamar um vampiro de arrogante? — Retrucou.
— Se você quisesse me m***r, já teria feito. Onde está o Chris?
— Ele está de cama, um pouco debilitado. — Respondeu, dando passagem para ela entrar.
— Eu preciso trabalhar, só queria ver como ele estava. — Olivia falou, tentando evitar contato visual com Alec.
— Você não precisa me evitar, lobinha. — Alec falou de maneira provocativa.
— E quem disse que eu estou te evitando? — Perguntou se virando para ele.
— Seus olhos. — Alec falou próximo a ela, talvez um pouco próximo demais.
— Er… Chris… — A garota respirou fundo, dando dois passos para trás. Alec sorriu convencido ao sentir seu coração palpitar e ouvir o da ruiva batendo com a mesma intensidade.
— Eu só preciso entregar um negócio para ele e já te chamo. — Ele piscou para ela e saiu dali, levando as bolsas de sangue sem que Olivia percebesse. — Parece que você tem visita, irmão! — Alec falou assim que entrou no quarto.
— Visita? De quem? — O rapaz perguntou com certa dificuldade.
— Uma ruivinha interessante! Vamos, irmão! Beba logo um pouco para conseguir falar com ela decentemente.
— Olivia? O quê ela faz aqui? — Chris perguntou confuso.
— Não me faça questionamentos agora, irmão. — Alec murmurou.
— Ann-Marie contou a ela que não fui à aula e ela me mandou mensagem perguntando se estava tudo bem. Comentei que estava indisposto e ela perguntou onde eu morava. Não sabia que ela realmente viria. Perdoe-me por não ter dito nada a você, irmão.
— Chris, a casa é sua também! Você pode receber quem quiser aqui. — Alec falou enquanto o irmão se alimentava da bolsa de sangue.
— Muito obrigada, irmão. — Chris sorriu para ele. — Já me sinto um pouco melhor.
— Me dê isso, para não assustar a garota. Vou ir trabalhar. Qualquer coisa você me liga. Juízo vocês dois… — Resmungou com certo desdém.
— Ela não faz o meu tipo, irmão. — Ele debochou de Alec, que saiu dali, ignorando sua fala.
— Chris, você está bem? — A ruiva entrou no quarto preocupada
— Sim, logo melhoro por completo. Não sabia que viria realmente. — Chris falou, sorrindo para a garota à sua frente.
— Quando você disse que estava de cama eu fiquei preocupada. Bom, você sabe… Talvez não saiba. — A garota se confundiu na sua fala. — O importante é que você está bem.
— Meu irmão jamais me machucaria, Olivia. Você pode ficar tranquila com relação a isso. — Ele encarou a ruiva com certo carinho. Depois de Alec, ninguém se preocupava com ele assim por um longo tempo.
— Então você sabe… — Murmurou envergonhada.
— Sim, eu meio que também sou… — Ele comentou vagamente e ela o olhou um pouco assustada. — Você não precisa preocupar-se. Nós não fazemos m*l a ninguém.
— E como vivem? — Indagou curiosa. — Aí, me desculpa! Você não precisa me responder nada.
— Está tudo bem, Olivia. — Chris riu levemente da confusão da garota. — Alec trabalha em um hospital. Lá ele consegue bolsas de sangue e vivemos disso. Mas também podemos comer comida humana. O único probleminha é que se passamos muito tempo sem sangue, entramos em um estado de anemia profunda. E se passar mais tempo, pior é a demora para conseguir voltar ao normal.
— Isso que aconteceu com você? — Ela encarou ele.
— Bem que o Alec disse que você é curiosa. — Chris disse de maneira divertida. — Sim, isso que aconteceu comigo. Mas já estou melhorando.
— Bom, passei apenas para saber como estava. Quando a Ann disse que não apareceu, só queria ver se você estava bem. — Olivia falou e sorriu levemente.
— Você pode ficar tranquila. Alec jamais faria m*l para mim. Ou para qualquer outra pessoa. Se isso for importante para você. — Chris sorriu da maneira surpresa que Olivia o encarou, como se ele tivesse feito uma descoberta que ninguém sabia sobre ela.