– A Grécia não é tão longe – diz Celly, após servir uma xícara de chá a Beatrice, que mantinha o olhar fixo no vazio – E posso visitar Ida diariamente se for preciso – sugere.
Mesmo sabendo que Ida ficaria sobre os cuidados de Celly, ainda estava relutante.
Não queria deixá-la no estado que se encontrava. Ainda tão debilitada.
– Não fique assim, bambina – continua ao notar a expressão triste estampada no rosto de Beatrice – Poderá voltar um mês antes de ter o bebê e passar seu resguardo aqui.
Parecia um bom plano. Só alguns meses.
Trabalharia dia e noite se fosse necessário, juntaria dinheiro o suficiente para os três.
– Quer ajuda com as malas? – A senhora pergunta quando levanta de repente, sem tocar no chá.
Se quisesse virar aquela página em sua vida, precisava fazer algo.
– Vou fazer algo antes – No quarto de hóspedes, onde estava a maioria dos seus pertences, junta todas as roupas compradas pelo dinheiro de Matteo e chama um táxi.
Com o endereço e o dinheiro da corrida, pede ao motorista que entregasse as roupas na casa do milionário.
Não queria nada que o lembrasse, além daquele bebê que carregava.
Agradecerá aos Céus por pelo menos ter encontrado cinco peças de roupas menos surradas, usaria até poder comprar roupas com seu primeiro salário.
Depois de se desfazer de quase todas as roupas, foi fácil fazer sua mala e deixá– la ao lado da porta do quarto. Por alguns segundos a encarou, tentando prever se era a decisão certa a ser tomada, mas logo acreditou que sim, ao relembrar mais uma vez o motivo pelo qual precisava daquela oportunidade.
Apesar de não estar se alimentando adequadamente por causa dos enjoos, conseguirá ter uma boa noite de sono, dessa vez no quarto de hóspedes por pedido de Celly.
Na manhã seguinte, ao abrir os olhos ainda sonolenta, nota perto da janela uma figura masculina. A medida que sua visão se ajusta, ergue um dos cantos da boca ao notar ser Matteo.
Estava bem ali, nítido e claro.
Dando- lhe a impressão de estar observando- a dormir a algum tempo.
Porém, ao fechar os olhos com força e reabri-los, não havia qualquer vestígio dele.
Beatrice senta na cama, só então se dando conta que não havia passado de uma alucinação.
Seu olhar se fixa na porta fechada ao ouvir batidas, prevendo que talvez fosse Celly, já que pelo relógio ao lado da cama, já passava das oito da manhã.
Luca adentra no quarto.
– Acordei você? – pergunta, assim que a vê acordada.
– Já estava acordada – murmura.
A não ser pelo jaleco que não vestia, Luca parecia ter saído do hospital e ido direto para a casa de Celly, decidi a sua expressão cansada.
Os olhos de Luca se fixam na mala, atrás da porta.
– Está mesmo disposta em ir.
– Estou sem muitas opções no momento – Beatrice apoia a cabeça na mão – Estou grávida e morando de favor – Seu mau humor é aparente.
– Então venha morar comigo – propõe – Tem bastante espaço para nós três – diz animado.
– E tia Ida? Dentro de um ano, se não melhorar, terei que voltar a pagar o tratamento. Como farei isto com um bebê?
– Pensaremos em alguma coisa.
– Não me parece ser uma boa alternativa – Ela levanta, precisando fechar os olhos por alguns segundos, até a tontura passar. Inspirando profundamente.
– Ao menos uma vez, poderia aceitar minha ajuda – diz ele a olhando com atenção.
– Não quero sua ajuda, Luca! – vocifera, só então notando a aspereza de suas palavras ao fitá- lo.
Estava cansada de favores e principalmente de segundas intenções. Sabia muito bem qual era o sentimento que Luca nutria por ela.
Luca desvia a atenção para o chão, assentindo em seguida.
– Va bene – murmura – Não tem por quê também aceitar minha ajuda. Sou um simples médico, não chego nem aos pés de Matteo Montana.
Beatrice pressiona os lábios, amaldiçoando mentalmente aquele nome.
– Não ponha palavras na minha boca, Luca – diz entre dentes, se forçando a manter a calma que não tinha.
– É melhor eu ir – diz passando por ela em passos largos.
Beatrice entra no banheiro batendo a porta atrás de si irritada.
Era difícil ele apenas ficar feliz em ter encontrado uma saída em meio á toda aquela desordem?, pensa, lavando repetidas vezes o rosto.
Não havia mentido quando dissera que não queria a ajuda dele e nem de ninguém.
Apenas bastava a ajuda que Lewis estava lhe oferecendo.
Depois de um banho e de sentir mais calma, deixa o segundo andar em direção da cozinha.
A campahia toca antes mesmo de chegar no cômodo, fazendo- a dar meia volta, acreditando que fosse Luca querendo contornar a situação.
– Nora? – diz ao abrir a porta e se deparar com a mãe de Matteo.
– Oi, Beatrice – diz Nora com um suspiro – Posso entrar? – Sua voz é gentil.
– Hã. Claro! – Nora adentra no vestíbulo, tendo a ajuda de Beatrice para tirar o casaco.
– Bambina, ouvi a campahia – diz Celly vindo da cozinha.
Ambas se encontram na sala de estar.
Um sorriso surge aos poucos no rosto enrugado da velha senhora ao ver Nora.
– Ah, Nora, quanto tempo – diz abraçando- a. Um longo e saudoso abraço.
– Vocês já se conhecem? – Beatrice pergunta confusa, as olhando com atenção.
Nora se afasta, beijando as mãos calejadas de Celly.
– Celly me deu abrigo quando Caló me expulsou. Praticamente ela viu Matt nascer e participou da criação dele.
– Sempre soube que ele seria um grande homem. Mas não esperava que seu coração se tornasse tão duro – Celly comenta, sentando na poltrona ao lado com cuidado.
Nora solta o ar dos pulmões, sentando no sofá em frente, a alegria se dissipado aos poucos de seu rosto. Avaliando os últimos acontecimentos que envolviam o filho.
– Ele vem me decepcionando desde que firmara um noivado com a menina Santoro – diz pensativa – Sempre deixou claro que o noivado era um jogo de interesses, dinheiro. Sempre quis possuir mais dinheiro que o próprio pai mas, agora Caló está morto e não tem motivo nenhum para renegar o filho que Beatrice está gerando – Seus olhos desviam para o ventre de Beatrice – Mas não culpo Ariella, talvez acredite que a ame. Deus me perdoe, mas culpo a garota Kristen e a filha dela por mudarem meu Matt.
– Quem são elas? – Celly pergunta com o cenho franzido. Mostrando que estava por fora de tal informação.
Nora se mexe desconfortável no sofá, mantendo a postura reta.
– Digamos que foi a primeira namorada de Matt, quando a conheceu já tinha uma filha e acabou se apagando de tal modo ás duas que, logo passou a acreditar que fosse o pai da criança.
Beatrice se senta absorvendo tais palavras, tentando acreditar.
Matteo mantinha um relacionamento de anos com outra mulher, porém mesmo assim ainda estava noivo de Ariella e aparentemente até então, vinha mantendo aquela r*****o.
– Sabe do que precisamos? – Celly pergunta de repente levantando. Sem querer se aprofundar mais no passado de Matteo – Café.
Celly serve café para Nora, enquanto para Beatrice chá, que mantinha o olhar fixo no vazio.
Bebericando seu café, Nora pede que lhe conte os últimos acontecimentos e Beatrice acaba não tendo alternativa a não ser contar que fora desligada da Engenharia Montana e que graças aos Céus e Lewis, conseguira um emprego na Grécia.
Acabando por deixar Nora ainda mais decepcionada com o filho.
– Não consigo acreditar que ele foi capaz disso – diz Nora, controlando a raiva na voz – Ele é meu filho. Só que não o reconheço mais – Se não fosse por Eleonora, nunca saberia da gravidez – Seus olhos encontram os de Beatrice – Quero que saiba que estarei do seu lado para o que precisar e que não apoio o que Matt está fazendo – finaliza com a voz firme.
– Grazzi, Nora – Beatrice inclina a cabeça para o lado, sorrindo sem mostrar os dentes.
Era bom saber que não acreditava que estava querendo dar o golpe da barriga.
– Acredito que tudo se resolverá com o tempo – diz Celly, atraindo ambos os olhares – Talvez tudo o que Matteo precise, seja de um tempo para aceitar que será pai.
E eu de um tempo para se curar, pensa. Tendo certeza que seria algo complicado, já que não se via perdoando ele.
– Me prometa que me deixará informada de tudo da gravidez – Nora pede com a voz trêmula – Assim que puder, irei visitá– los – Promete, segurando as mãos dela.
A campahia toca novamente, fazendo com que Celly e Beatrice levantasse ao mesmo tempo.
– Eu atendo – diz Beatrice, saindo da sala.
Ela solta o ar dos pulmões ao abrir a porta.
– Está pronta para ser minha engenheira? – Lewis pergunta sorrindo, os olhos brilhando.