Meu nome é Murilo, tenho vinte e cinco anos, e apesar da idade que muitos chamariam de jovem demais para carregar tanta responsabilidade, eu já vivi coisas que poucos homens enfrentariam em uma vida inteira. Às vezes eu penso que cresci antes da hora, outras vezes penso que simplesmente nasci destinado a ser quem sou: herdeiro da Máfia Alemã, aliado da Ndrangheta italiana e também da máfia russa, envolvido em um mundo que molda homens para serem aço antes mesmo de aprenderem o que significa ser criança. Não é um fardo simples, e nunca foi. Mas é o que me pertence por sangue, história e linhagem. E mesmo que eu tenha tentado, em alguns momentos, imaginar um destino diferente, sempre sou lembrado de que o meu caminho foi traçado muito antes de eu nascer.
Moro na Itália desde os meus sete anos, mas meu coração caminha por territórios diferentes desde muito antes disso. Cresci viajando entre dois mundos: a Alemanha do meu pai e a Itália da minha mãe. Morei aqui porque meu pai, Dom Matheu, estava constantemente sob ameaças, e a Itália sempre foi o lugar mais seguro para mim e para ela. Meu pai ia e vinha, aparecendo sempre que podia, às vezes com pressa, outras vezes com aquele jeito sério que denunciava que algo tinha acontecido nas sombras do poder que ele comandava. Mesmo assim, cada visita dele tinha um peso especial. Eu o admirava desde pequeno, talvez porque ele sempre representou força, honra e liderança. Ou talvez porque, mesmo sendo temido por muitos, nunca deixou de olhar para mim como se eu fosse a coisa mais importante que ele já tinha construído.
O casamento dos meus pais sempre foi algo que eu admirei. Quando eu era mais novo, eu ouvia minha mãe contar a história do início deles com um sorriso calmo, e meu pai complementava com detalhes que deixavam tudo ainda mais real. Eles se casaram através de um arranjo — algo comum no nosso mundo — mas, diferente de muitos casamentos de conveniência, os dois acabaram se apaixonando de verdade. Meu pai sempre admitiu que, no começo, não queria casar. Era jovem, estava no auge da liberdade e sabia que uma união arranjada colocaria fim a uma parte da vida que ele gostava de aproveitar. Mas mesmo assim ele aceitou. Aceitou porque era o que devia ser feito, porque um homem honra sua palavra, porque uma família precisa de estabilidade e porque herdeiros, como eu, não nascem de paixões passageiras.
Ele se casou, e desde o momento em que colocou os olhos na minha mãe, segundo ele mesmo, soube que não conseguiria olhar para outra mulher com a mesma intensidade. Ele sempre diz que a fidelidade não nasceu do amor, mas da responsabilidade. E que o amor, esse sentimento temperamental, veio depois — construído na convivência, no respeito e na parceria que se forma quando duas pessoas decidem caminhar lado a lado. Foi ouvindo essas histórias, repetidas tantas vezes durante minha vida, que aprendi que o amor pode vir depois, que ele pode crescer como uma chama lenta, firme, capaz de sustentar tudo.
E talvez seja por isso que a história da minha vida tomou o rumo que tomou.
Quando eu tinha sete anos, conheci Victoria. Eu era só um menino, mas lembro exatamente do instante em que ela entrou na sala onde eu estava e puxou assunto comigo sem nenhuma timidez. Victoria tinha essa luz própria desde pequena. Ela era cheia de energia, cheia de coragem, cheia de verdades que falava sem medo. E eu… eu era o garoto que observava o mundo antes de agir. Ela era fogo. Eu, gelo. E mesmo assim, desde que nos vimos, alguma coisa em mim soube que ela seria parte da minha vida para sempre, mesmo eu sabendo que concerteza chegaria o dia que eu teria que me casar para assumir a máfia.
Crescemos juntos, mesmo que distantes fisicamente em muitos momentos. Ela vivia bem ao lado da minha antiga casa, depois de um período, que eu vivia na Itália desde a infância, protegido, escondido e preparado para uma vida que nenhum menino sonharia. Quando eu precisei ficar permanentemente por aqui, aos oito anos, ela estava perto outra vez. E de alguma forma, mesmo com intervalos, mudanças e o peso dos destinos diferentes, nós sempre nos encontrávamos. A amizade cresceu junto conosco. A confiança também. O carinho… esse veio de forma natural. Mas o amor… esse sempre me acompanhou como uma sombra silenciosa, e eu estraguei tudo.
Eu sempre amei a Victoria. Desde antes de entender o que era amor. Desde antes de compreender o mundo que me cercava. Desde antes de saber que meu futuro já estava prometido para outra mulher. Porque sim, eu tenho uma noiva prometida. Não por escolha. Não por vontade. Mas porque meu nascimento me colocou em uma trilha onde casamentos selam alianças, e alianças mantêm famílias vivas. Meu pai sempre foi transparente comigo sobre isso: quando chegasse a hora, eu deveria me casar com a mulher que me foi escolhida. E eu cresci aceitando essa ideia com a mesma frieza com que se aceite um destino inevitável.
O problema é que, quanto mais eu crescia ao lado da Victoria, mais eu percebia que o destino é c***l quando decide brincar com os sentimentos de alguém, melhor brincar com os sentimentos da Vick.
Ela era pura. E isso importava no meu mundo. Importava mais do que deveria. Importava porque, se eu quisesse, eu poderia ter tido ela. Eu poderia ter assumido o amor que sentia. Eu poderia ter enfrentado tudo para ter ao meu lado a única mulher que realmente mexeu comigo. Mas o medo de ter de deixá-la depois me esmagou. O medo de feri-la. O medo de quebrar algo que eu julgava sagrado demais para manchar com as sombras do meu dever.
E talvez por isso, eu fiz a pior escolha que alguém pode fazer: não fiz escolha nenhuma.
Deixei o tempo passar. Me escondi atrás de desculpas que hoje me pesam. A principal delas foi culpar a vingança da minha melhor amiga, Laís. Disse a mim mesmo, e ao mundo, que eu me aproximava da Victoria porque precisava ajudar a Laís a destruir os homens que arruinaram a vida dela — Pietro, Taylor e Eduardo, seu avô. Mas essa desculpa só serviu para me esconder daquilo que realmente sentia.
A verdade é que Laís, apesar de todas as dores que carrega, sempre foi a voz mais sensata no meio do caos emocional que eu vivia. Ela nunca deixou que eu brincasse com os sentimentos da Victoria. Nunca permitiu que eu a usasse como disse em um momento de raiva, quando prometi que a faria se apaixonar por mim apenas para destruí-la emocionalmente depois. Aquilo foi um absurdo dito no calor de uma lealdade míope às dores da Laís. E ela mesma me repreendeu por isso. Laís sempre me disse: Se você ama a Victoria, assuma. Se você a quer, lute. A vingança eu resolvo com minhas próprias mãos.
E isso fez com que eu a admirasse ainda mais. Porque mesmo quebrada, mesmo ferida, mesmo carregando cicatrizes profundas da perda dos pais e da traição do próprio sangue, Laís nunca deixou de enxergar as pessoas como elas realmente eram. Nunca deixou de proteger quem merecia. Nunca deixou de ser honestamente dura comigo quando eu precisava ouvir.
Por isso eu sei que culpar a vingança dela foi apenas uma forma covarde de não encarar meus sentimentos. Eu tinha medo. Medo de amar alguém que talvez eu não pudesse ter. Medo de perder. Medo de enfrentar o destino escrito por outros.
E agora… agora que finalmente aceitei tudo o que sinto, agora que reconheço que sempre amei a Victoria mais do que qualquer coisa, agora que decidi parar de fugir, ela me diz que vai passar um tempo na Rússia. Disse que quer ficar com a prima Jasmine, que se mudou para lá recentemente. Disse que precisa respirar, mudar de ambiente, viver algo diferente.
E eu? Eu fiquei parado, olhando para ela, sentindo o peso da oportunidade que joguei fora.
Porque agora, quando finalmente tive coragem… ela está indo embora.
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