10 Cont Madalena

1086 Palavras
Acordei com o peito pesado — como se alguém estivesse sentado sobre ele. Por alguns segundos, eu não reconheci o próprio quarto. A cama recém-forrada, o espaço vazio onde antes havia o perfume dele… até o silêncio parecia outro. Então tudo voltou, a reportagem, Eduardo sendo levado, Catharina chorando. As malas dele no corredor. Fechei os olhos devagar, meu corpo ainda tremia, mas eu respirei fundo, tentando me lembrar de quem eu era antes dele. Levantei da cama, o sol ainda não havia nascido. A casa estava em completa escuridão. Caminhei até a cozinha, fiz chá, mas nem consegui beber. A boca estava amarga demais, a garganta apertada demais. Pouco depois, escutei passos no corredor. Catharina apareceu, os olhos inchados, as mãos sobre o ventre. Enzo estava logo atrás dela, atento, protetor. — Mamãe… — ela sussurrou. Eu sorri, como se pudesse enganar a dor dentro de mim. — Venham. Sentem-se. Eles se acomodaram na sala, Enzo passou o braço por trás do sofá, abraçando a esposa com cuidado, como se ela fosse de vidro. E eu agradeci a Deus por ele ter entrado na vida da minha filha. — Eu… sinto muito — Catharina murmurou. — Por tudo. — Não, você não tem culpa de nada — falei com firmeza. — Nunca pense o contrário. Ela chorou mais, baixinho, peguei sua mão e apertei. — Você é o melhor presente que eu recebi na vida. O fato de ter vindo de outra mulher não te faz menos minha filha. Ela me abraçou com força, soluçando, ficamos assim por um longo tempo. Horas depois, pela manhã, a casa estava cheia novamente. Não pela confusão da noite anterior — mas pela necessidade de apoio. Pietro e Taylor chegaram juntos, trazendo o peso de suas próprias histórias com Eduardo. Os olhos deles carregavam uma mistura de revolta e cansaço, mas também proteção. Eles sentaram comigo e com Catharina na sala. Havia câmeras lá fora, repórteres bloqueando portões, drones sobrevoando. Era uma loucura. — Precisamos dar uma declaração — Pietro disse, sério. — Algo definitivo. Para que parem de nos perseguir,eu concordei. Não porque eu queria expor minha dor, mas porque eu precisava proteger minha família. Então, juntos, fomos até o salão onde os jornalistas esperavam. Os flashes estouraram como tiros. Por um segundo, fiquei tonta, mas senti as mãos de Pietro e Taylor —uma de cada lado e me firmei. Eles falaram primeiro, confirmaram tudo o que a mídia havia divulgado a respeito de Eduardo. Confirmaram sua ligação com tragédias antigas, mentiras, negócios sujos. Falaram dele como alguém que cruzou limites morais e legais. E então Pietro disse: — Pedimos respeito. Esta família não compactua com os atos de Eduardo Salvatore. E solicitamos que a imprensa nos permita seguir em paz enquanto as autoridades cuidam do caso. Taylor completou: — Não perturbem minha família. Isso inclui Madalena e Catharina. E então olharam para mim, eu inspirei fundo. — Nada do que foi revelado muda o amor que sinto pela minha filha. Eu a amo como se tivesse nascido do meu ventre. E agradeço aos que estão ao nosso lado neste momento. Peço apenas privacidade. E força, câmeras registraram cada palavra. Mas, pela primeira vez em horas, senti uma pontada de libertação. Eles me acompanharam de volta para casa. No dia seguinte, começaram as ligações. Eduardo, sem parar. Chamadas, mensagens, e-mails, recados. Algumas eram agressivas, outras imploravam por perdão. Todas carregavam a marca dele: o desejo de controle, eu ignorei todas. Até que percebi que não adiantaria. Ele não ia desistir, então pedi para trocar meu número. Fiz isso imediatamente, meu coração acelerou enquanto digitava a nova senha, finalizando a mudança. Era simbólico —tudo nele era simbólico. Respirei aliviada, pela primeira vez, sentia que uma porta se fechava… pra nunca mais abrir.Dias se passaram. O caos externo diminuía —mas o interno… ah, esse parecia eterno. Eu pensava em Laís, a neta de Eduardo e minha ligação mais próxima de Catharina além dos bebês. Eu queria encontrá-la, abraçá-la, explicar… Mas ela estava longe. E sua situação era complicada demais. Tentei entrar em contato, mas quem atendeu foi Gabriel. A voz dele era serena, porém firme — uma firmeza que me deu um estranho conforto. — Prometo falar com ela — disse. — Quando Laís se sentir pronta, ela vai procurá-la. Posso garantir isso. — Obrigada… — murmurei. — Diga a ela que…eu a amo. Mesmo sem tê-la conhecido direito… eu a amo. Eu ouvi um silêncio do outro lado. Silêncio denso. Silêncio de quem entende dor— Eu direi. No tempo certo. A ligação terminou, mas algo em mim ficou mais leve. Havia esperança, quanto à casa… Cada cômodo respirava Eduardo. A vida inteira que construímos ali parecia contaminada. E eu sabia que não conseguiria continuar. Foi então que Catharina me fez o convite: — Mãe…por que não se muda para meu apartamento? Eu e Enzo vamos morar no mesmo bloco, em outro andar. Assim você fica perto de mim…e longe daqui. No início, hesitei, era minha casa, minha vida. Mas…também era meu cemitério. Aceitei, nos dias seguintes, arrumei caixas com calma. Coisas minhas, lembranças minhas — limpas, sem dor. O resto ficou, a casa seria vendida. Quando saí pela última vez, parei diante da porta, fechei os olhos. Aquela casa havia me visto amar, chorar, perder, renascer, mas agora…era hora de deixá-la para trás. Pietro e Taylor me ajudaram a levar as últimas malas. Eles me foram tão presentes que eu m*l conseguia agradecer. Cheguei ao novo apartamento, menor, e leve, e silencioso. Havia cheiro de pintura fresca,de começo. Catharina e Enzo me abraçaram na entrada. Eles estavam organizando o lar deles para o casamento, e eu podia sentir o amor deles pulsando nas paredes. — Vai dar tudo certo, mamãe — Catharina disse. — A gente está aqui. Olhei para minha filha. Minha menina que tinha sido roubada de mim por tantos anos, mas que agora era minha em cada detalhe. Toquei sua barriga- Ele vai nascer em um mundo melhor — murmurei. — Um mundo onde a verdade não assusta… só liberta. Ela sorriu, ru chorei, nos dias seguintes, reorganizei meu espaço. Flores. Livros. Coisas simples… Sem a sombra dele. A dor… não desapareceu. Mas também não me sufocava mais. Eu respirava. Mesmo que fosse entrecortado. Eu respirava. E quando deitava à noite, sozinha, em meu novo quarto, olhava para o teto e repetia: “Eu sobrevivi.” Porque agora…tudo que eu tinha era meu. E isso…era suficiente para recomeçar. NÃO DEIXEM DE COMENTAR
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